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Genocídio na Terra do Fogo, a tribo massacrada dos Selknam

Em 1974, morreu Ángela Loij e com ela todo um legado. A sua morte foi o fim de um povo que, durante séculos, viveu todo o tipo de desgraças. Ángela Loij era a última representante pura da tribo dos Selknam, nome que no seu dialeto, significava “homens a pé” e eram também conhecidos como os Ona.

MG_genocidionaterradofogoatribomassacradadosselknam_3Habitavam a Ilha Grande da Terra do Fogo, no extremo sul do continente americano, território pertencente ao Chile e à Argentina. Eram uma tribo nómada e caçadora e, ao contrário de outros indígenas do mesmo continente, demoraram muito tempo até terem contacto frequente com os colonizadores espanhóis. Foram vistos pela primeira vez em 1520, pela tripulação de Fernando de Magalhães, quando explorava o estreito que agora tem o nome deste marinheiro. O primeiro contacto directo foi protagonizado pelo explorador espanhol Pedro Sarmiento de Gamboa, em 1580, e depois os contactos com a tribo continuaram de forma esporádica, até às últimas décadas do século XIX, quando as relações com o mundo ocidental selaram o fim deste povo, por causa dos colonos e dos exploradores que buscavam habitar esta região pouco populosa para fazerem negócios lucrativos com a carne e o ouro. Graças a isto, grande parte dos registos fotográficos da época em que ocorreu este contacto mostram um povo cujos costumes e as tradições não tinham sido ainda influenciados pela colonização.

Vivendo num clima bastante duro e inóspito, os Selknam suportavam os longos, húmidos e gelados Invernos e aproveitavam ao máximo os curtos e frescos Verões. Era uma tribo corpulenta, forte, de pele bronzeada e olhos rasgados, sendo que tinham os membros mais altos do continente americano, com uma média de altura de 1.80 m. A arma mais utilizada para caçar era o arco e alimentavam-se da carne de um tipo de Lhama da região (Guanaco), de peixes, aves e alguns roedores, além de frutas, verduras e cogumelos. Apesar de terem bastante contacto com mar e os rios, eram um povo que desconhecia a navegação.

O conceito de territorialidade era algo extraordinariamente forte para os Selknam, pois, mesmo sendo nómadas, subdividiram o seu território ancestral em 39 “distritos” (chamados de haruwen), que eram delimitados por rios, pedras e árvores e eram transmitidos de pai para filho. Aliás, esta era a sua base da organização, pelo que formavam-se clãs de 40 a 120 indivíduos e cada clã habitava num haruwen. Cada haruwen era um espaço físico específico dentro do qual obtinham os recursos necessários à sobrevivência, era um espaço respeitado pelas famílias e haruwen alheios somente eram visitados em circunstâncias especiais como certas celebrações, como casamentos e torneios de luta, ou certos períodos de falta de alimento.

Eram monoteístas e acreditavam num deus chamado Temaukel, que, segundo eles, habitava no céu e vigiava-os, através das estrelas. Acreditavam na existência de um mundo após a morte e, como muitas outras culturas, possuíam um curandeiro que era responsável pela saúde da comunidade e pelos rituais ao deus e aos espíritos.

MG_genocidionaterradofogoatribomassacradadosselknam_2Uma das cerimónias mais marcantes desta tribo era o hain, que era um ritual de iniciação dos jovens adolescentes, a partir do qual eram considerados homens adultos. Nesta cerimónia, os homens mais velhos do clã ensinavam aos jovens os segredos da tribo e estes deviam passar também por fortes provas de supervivência e resistência. Os rituais baseavam-se numa lenda que contava que, em tempos muito antigos, havia um matriarcado, onde as mulheres dominavam os homens e elas vestiam-se de espíritos para assustar e dominar os homens. No entanto, o Sol descobre-as e todas as mulheres, com a excepção da sua esposa, a Lua, são assassinadas e, desde então, os homens é que passaram a vestir-se de espíritos para assustar e dominar as mulheres, prevalecendo, então, o patriarcado. Era comum, nesta cerimónia, que os homens usassem trajes folclóricos feitos com peles de guanaco e mascaras de madeira para fingirem serem espíritos e, assim, assustarem as mulheres da tribo.

Com a chegada dos forasteiros que tentavam fazer fortuna com o ouro recentemente achado na região e também por aqueles que expandiam os seus territórios para a criação de gado, os conflitos à volta da tribo foram aumentando até atingir o nível de genocídio. Genocídio este, que era financiado pelas companhias pecuaristas, que recompensavam com dinheiro cada orelha, mão e cabeça de indígenas mortos. Acontecimentos marcados ainda pela negligência dos governos do Chile e da Argentina, que nada fizeram para proteger os Selknam. Na mentalidade da época, não se contemplava a inclusão do mundo indígena no “mundo da civilização e do progresso”. Estima-se que, em 1881, com o início da colonização moderna da região, existiam aproximadamente 4 000 indivíduos Selknam.

O genocídio dos Selknam ocorreu durante a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Para a tribo, os brancos eram intrusos aos seus ancestrais territórios, o que, por sua vez, os levava a atacar e defender em nome da vingança. O ressentimento manifestava-se contra os empregados das fazendas de gado, queimando casas e atacando pessoas, apesar desta atitude não chegava a ser de todo um ambiente bélico, devido às claras desvantagens materiais dos Selknam contra o sistema montado para os atacar e capturar.

Este povo sofreu várias massacres, entre os quais: o massacre da praia de San Sebastián, em 1886 (28 índios fuzilados); o episódio conhecido como o Envenenamento de Sprinnghill, durante a primeira década do século XX, quando uma baleia envenenada foi utilizada como isca contra os Selknam (500 indígenas envenenados); e o massacre de Santo Domingo, onde um tal de Alejandro McLennan convida uma tribo Selknam, com a qual tinha tido vários confrontos, para um banquete e para fazer um acordo de paz, mas, com a quantidade de vinho servido aos indígenas, aproveitou estarem todos embriagados para se abrir fogo contra toda a tribo (400 mortos). Alejandro McLennan era nada mais, nada menos do que um “caçador de índios” e como ele existiram vários outros, como o romeno Julius Popper e Ramón Lista, todos eles patrocinados pelas companhias pecuaristas e protegidos pelos governos. Em 1888, estabeleceu-se uma missão salesiana na Ilha de Dawson, que protegia os índios do extermínio, mas que tinha também como propósito evangelizar e “civilizar” os indígenas. A maioria dos Selknam da missão acabaria por morrer com doenças por si desconhecidas, já para não falar de que viviam em más condições de vida e em aglomerados.

Em 1889, celebrou-se em Paris o centenário de Revolução Francesa, com uma Exposição Universal, sob o marco da celebração de Igualdade, Fraternidade e Liberdade. Exibiram-se onze indígenas Selknam, que o francês Maurice Maître sequestrou da Baia de São Filipe. Foram expostos em jaulas e apresentados como canibais. Atiravam-lhes carne crua de cavalo, mantinham-nos sujos e sem possibilidades de higiene, para que parecessem mais selvagens. Perante as desumanas condições da exposição a S.A. Missionary Society exigiu a libertação e o retorno da família raptada à Terra do Fogo. Maître foi obrigado a cancelar a sua “tour” e ir para a Bélgica. Apenas sete Selknam chegaram à Bélgica, onde também foram exibidos. Algum tempo depois, os indígenas foram presos pela polícia belga e foram levados de volta para sua terra. Dos onze que saíram voltaram apenas seis.

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Angela Loij, a última Selknam

Alguns descendentes mestiços vivem por cidades e aldeias da região e até formaram a Comunidade Rafaela Ishton, onde tentam preservar a história dos seus antepassados. Porém, grande parte da cultura deste povo desapareceu com o passar dos séculos. Angela Loij, a última Selknam pura, antes de morrer, trabalhou intensamente com a antropóloga francesa Anne Champman, reconstruindo e relembrando a cultura do seu povo, num trabalho de grande valor antropológico e histórico, para que pelo menos assim os Selknam prevalecessem no tempo.

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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