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Gary Yourofsky – Terrorista do Amor

O primeiro e mais importante facto a reter sobre o Veganismo é o de que as pessoas que o praticam se abstêm de consumir qualquer produto de origem animal: carne e peixe, ovos, leite, queijo, mel e derivados. É um estilo de vida que se guia pelo pacifismo, pelo ambientalismo e pela compaixão, mas que, ainda assim, gera muita controvérsia entre intelectuais e leigos/as.

A discussão é interminável, redundante e, por vezes, bastante agressiva. Precisamente por isso, e muito embora este seja um debate interessante e urgentíssimo, este texto servirá, antes, para dar a conhecer um pouco mais acerca de Gary Yourofsky, um activista norte-americano pelos direitos dos animais que defende o Veganismo como sendo a única forma verdadeiramente ética de viver.

Será Gary Yourofsky o melhor activista pelos veganismo? Será o mais racional? Será o mais sensato? No idea, folks. Contudo, Gary é, muito provavelmente, o mais eficaz e, certamente, o mais polémico. Não tem “papas” na língua, não tem medo das consequências do que diz, ou faz, em nome dos animais e, acima de tudo, não se cansa. Já foi preso mais de uma dezena de vezes, passou 77 dias numa prisão de segurança máxima no Canadá, por ter libertado animais de uma fazenda de peles, foi banido de uma mão cheia de países e, além disso, não se acanha de chamar à tortura da indústria animal o pior Holocausto da História da Humanidade. Tudo isto desde há cerca de vinte anos, durante os quais resistiu às críticas, manteve a sua luta e apurou os seus discursos e a divulgação dos mesmos.

Assim como há muito para dizer sobre o Veganismo, há imenso para contar sobre Yourofsky. Atualmente, tem 44 anos, mas foi a partir dos seus 25 que se tornou um activista: com essa idade, visitou os bastidores de um circo, a convite do seu padrasto que lá trabalhava, e viu, pela primeira vez, como os elefantes são torturados para os propósitos de uma indústria. Daí em diante, visitou matadouros, fazendas de pele, laboratórios de investigação e, inclusivamente, mais bastidores de circo, de forma a informar-se sobre o que realmente estava a ser feito aos animais que, durante um quarto de século, vestiu e comeu. Confirmou que a tortura era uma constante e desistiu de continuar a compactuar com aquilo que passou a chamar de crueldade radical.

A mudança de Gary consistiu em tornar-se radicalmente bondoso, objetivo que acredita ser alcançável apenas através do Veganismo. E ser vegano significa, nada mais, nada menos, do que aplicar a Golden Rule, comum a todos os credos: fazer aos outros aquilo que faríamos a nós próprios. Por isso, mais do que qualquer outro motivo – ambientalismo ou saúde -, aquilo que motiva este activista norte-americano é a ética e a moralidade. Mesmo que as razões ambientalistas e de saúde sejam objectivas e factuais – ser vegano é, sem comparação, mais saudável e sustentável do que qualquer outra alternativa de regime alimentar -, e mesmo que ele próprio as conheça, adopte e divulgue, nada pesa mais no seu activismo, no seu estilo de vida e nas suas convicções do que a ética.

Infelizmente, o motivo ético é subjectivo. Aquilo que os seres humanos consideram ético, bem como o que consideram imoral, varia entre eles. Não é linear dentro das convicções de cada um/a. Por isso, a ética é o motivo mais arriscado para servir de propaganda ao Veganismo, mas, para Yourofsky, é também inquestionável: vivemos numa sociedade especista, tal como vivemos numa sociedade racista, sexista, machista, misógina e homofóbica. O especismo não é desculpável, tanto quanto as outras formas de superiorização e discriminação não o são. É simples. Sabemos que não é ético ser-se misógino ou racista, por isso, temos de saber que não é ético ser-se especista.

Contrariamente ao que se pode esperar de uma espécie que se diz particularmente racional – o ser humano -, sabemos que não é ético matar, mas excluímos os restantes seres viventes que ocupam este planeta. Só não é ético matar humanos. Matar vacas, perus, galinhas e porcos (entre tantos outros animais), para nosso usufruto desnecessário, não é tido como algo moralmente condenável. Porquê? Porque é o “ciclo da vida”? Porque os leões matam zebras? Porque os cães caçam coelhos no quintal?

Tendo em conta que os cães comem o seu próprio vómito inúmeras vezes e os leões matam as suas crias ocasionalmente, a utilização deste argumento não valida o estilo de vida insustentável e cruel que a nossa espécie mantém. Não é suficientemente forte, uma vez que imitar os comportamentos de outros animais não é algo que o ser humano faça, ou queira sequer fazer, na maioria das questões. No entanto, nesta questão, são feitos todos os esforços para que haja uma justificação para a tortura e o assassinato de biliões de animais, simplesmente porque a alternativa é demasiado chata: deixar de comer produtos de origem animal.

Estamos habituados a comer produtos animais e, além disso, é conveniente, porque há em todos os supermercados e restaurantes, é tradicional e sabe bem. São estes os únicos motivos que justificam verdadeiramente o consumo de carne, peixe, mel, queijo, ovos, leite e derivados num mundo com tanta abundância alimentar. O problema é que estes quatro motivos não são suficientes para se qualificarem enquanto justificação da matança, da tortura e do declínio ambiental. Por isso, a malta disfarça e diz que precisamos de proteína animal para viver uma vida saudável, ou que os animais são inferiores porque são irracionais (acham?), ou que não sentem dor (a sério, acham mesmo?).

Como a discussão é infindável, muitas outras coisas poderiam ser ditas. As barbaridades que se espalham, tanto contra como a favor do Veganismo, são inúmeras. As barbaridades sobre Gary Yourofsky e o seu ativismo, também. Contudo, algo em que podemos concordar, mesmo que não se seja apologista do Veganismo, é que este Michigan man tem o interesse dos animais em conta, numa perspectiva altruísta, igualitária e pacifista. Por isso, quando os noticiários norte-americanos o apelidam de terrorista, esse rótulo só pode nascer de um tremendo terror face ao amor pelos animais.

O Veganismo, tal como Gary Yourofsky, tem a melhor das intenções. E ser contra o Veganismo é sinónimo de ser contra a compaixão. Não adianta assinar petições para parar a violência contra os cães e os gatos, enquanto se compram cadáveres de vaca para encher o congelador. Não adianta ser ambientalista se comprarmos carne e peixe para o jantar. Não adianta chamar terror ao amor e chamar terroristas aos/às ativistas pelo Veganismo. O amor não é terror e amar animais não é terrorismo. Querer duvidar dos ideais de um movimento não justifica incansáveis tentativas de o rotular de nocivo, acessório ou desnecessário.

Se quiserem saber mais sobre Gary Yousofsky e sobre o seu activismo visitem o seu website: www.adaptt.org. Aconselho, também, o documentário “Cowspiracy”, que explora a necessidade do Veganismo pela causa ambiental, bem como a visualização de palestras do professor norte-americano Gary Francione, autor de várias teorias sobre os Direitos dos Animais.

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo, pela Universidade de Coimbra, e Mestre em Cultura, Património e Ciência, pela Universidade do Porto. Jornalista na Conexão Lusófona e crítica musical nos tempos livres (que são todos, porque não gosta de se sentir enclausurada). Ativista. Vegetariana. Apaixonada: por música, pela interpretação da vida e pela Arte de revolucionar.

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