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Game of Thrones

O Inverno pode estar a chegar, mas a nova temporada de Game of Thrones tem um ar de rejuvenescimento, de Primavera. Bem, sendo sincero, a série nunca demonstrou ter dificuldades criativas, conseguindo fazer as alterações necessárias para que a história criada por George R.R. Martin se enquadre ao panorama televisivo. Porém, durante os últimos quatro anos, a série manteve-se na sua zona de conforto, sem nunca demonstrar coragem de se afastar muito da história criada nos livros e transformar-se num produto independente da sua fonte de inspiração.

Só que agora, nos primeiros quatro episódios da quinta temporada, ficou bastante claro que a versão televisiva de Game of Thrones decidiu tornar-se numa identidade própria, mas mantendo-se fiel ao trabalho que George R.R. Martin criou, ao mesmo tempo que explora novas linhas narrativas. Desta forma, a série consegue que os leitores dos livros não deixassem de a acompanhar com medo de descobrirem antecipadamente o que irá surgir no próximo livro desta saga e que estes deixassem de fazer comparações com a forma como as histórias eram contadas na televisão e nos livros. Para além disso, para quem segue a série torna-se ainda mais entusiasmante não saber que caminhos as personagens irão percorrer, porque ninguém poderá revelar na Internet o que irá acontecer a seguir. O importante agora é manter a qualidade e a coerência da história que foi construída até ao momento.

Se há série rica em mitologia, satisfatória no que toca à narrativa e fantástica quando se trata de construir as suas personagens, não é verdade? Apoiando-se num orçamento de luxo, esta série é meticulosamente desenhada e executada, fazendo uma merecida homenagem ao prodigioso mundo que o autor dos livros construiu, ao mesmo tempo que acrescenta texturas e camadas próprias. Apesar do tamanho do elenco ter aumentado consideravelmente, muito poucos (se é que existiu algum) foram os elos fracos a serem adicionados e os produtores apostaram muito em duas crianças para estarem no centro da acção, mas que agora, cinco anos passados, demonstraram terem-se desenvolvido maravilhosamente na arte de representar. Falo, claro está, de Maisie Williams e de Sophie Turner, que interpretam as duas irmãs amaldiçoadas por um destino trágico Arya e Sansa, que souberem amadurecer nos papéis que têm, executando actuações subtis e repletas de camadas para acompanhar os seus colegas mais experientes. Esta temporada, Sophie Turner tem a oportunidade de brilhar ainda mais, já que os produtores decidiram criar uma nova linha de enredo para Sansa e que a transforma num dos principais jogadores para a conquista de poder em Westeros. Este novo caminho é o melhor exemplo de como a série está de forma ponderada a alterar a física do mundo criado por George R.R. Martin.

Ao ver os primeiros quatro episódios, dei por mim maravilhado com a existência de um número elevado de personagens femininas magnéticas, bidimensionais e poderosas, num mundo onde as mulheres são mais marginalizadas do que actualmente. A série demonstra uma certa destreza em Cersei de Lena Headey, que não existe nos livros, ao coloca-la no lado oposto à conivência de Margaery de Natalie Dormer. O que cria uma certa tenção divertida e quase novelesca, mas sem nunca ser excessiva. Existe também Brienne, interpretada por uma aterradora Gwendoline Christie, uma espécie de cavaleira com uma missão de respeitar um juramento que fez a uma mulher às portas da morte. Apesar das suas convicções serem monolíticas, Brienne não é de todo uma personagem unidimensional. A forma como é escrita e é interpretada por Christie faz desta personagem uma alma torturada apanhada nas ramificações deste conflito épico e, por isso, agarra-se à sua missão para ter uma certeza constante num mundo em guerra permanente.

Temos também Daenerys, uma jovem rainha interpretada por uma forte Emilia Clarke. Segundo os leitores desta mitologia, o enredo desta personagem começa a perder força nos livros, mas a versão televisiva está a fazer um excelente trabalho ao desenvolver a narrativa em torno de Daenerys, dando um novo fulgor ao conflito civil vivido em Meereen e colocando personagens importantes em rota de colisão com esta personagem isolada (há demasiado tempo) numa ilha. Será interessante de acompanhar o seu percurso depois de ter conquistado o seu lugar na história, já que tal é desconhecido tanto para os fãs da série de televisão, como para os fãs dos livros. Isto poderá revelar algumas coisas sobre o futuro nos livros, mas já é mais do que tempo de tornar Daenerys numa das peças centrais na luta pelo poder em Westeros. Não acham?

Existem milhares de personagens nesta série, portanto, não irei passar por todos para poder falar sobre o trabalho interpretativo feito, ou as reviravoltas interessantes que sofreram, ou algum detalhe importante. Porém, acreditem, quando digo que todas estão em excelente forma esta temporada, como é o caso de termos um mais assertivo (e bondoso) Jon Snow e de um Rei Tommen ligeiramente mais maduro, apesar de se ser ainda um jovem que se encontra no meio de mulheres enfurecidas. Só tenho algumas reticências sobre os Sand Snakes of Dorne, que são representados de uma forma um pouco caricatural de mais, numa série que não é conhecida por apostar nesta vertente, mas ainda não foram muito desenvolvidos e, portanto, é possível que me vá habituando a estas novas personagens, há medida que os for conhecendo melhor.

Como sempre, existe a constante preocupação sobre a quantidade de tempo que a série consegue dedicar para cada enredo, já que a maioria das temporadas passadas aparentaram mais ser um conjunto pequenos destaques na vida das personagens do que uma narrativa completa repleta de histórias interessante. Esta quinta temporada, porém, parece ser a mais equilibrada de todas, desde o seu ano de estreia, e está mais confiante no trabalho realizado até aqui, para colocar de lado enredos que, sendo muito apreciados pelos leitores dos livros, só conseguem reduzir a qualidade da versão televisiva. Não quero analisar ao detalhe o que foi destilado da versão literária, para não revelar algo que não deva a quem ainda está a meio das suas leituras, mas o que posso dizer é que todas as alterações realizadas foram feitas de forma cuidada e cirúrgica.

Esta série com poucos episódios é viciantemente cativante: é inteligente e cheia de suspense, é inteligente e, ao mesmo tempo, triste. Game of Thrones, a série de televisão, nunca conseguiu ser tão interessante a evocar o passado – os romances estão repletos de contos do passado, histórias antigas recontadas e segredos há muito escondidos – e, por causa disso, a série sempre teve um impacto emocional ligeiramente abaixo daquilo que poderia ser. Só que, ao sermos presenteados logo no episódio de estreia da nova temporada com uma cena, em que duas personagens se encontram numa velha cripta e uma delas partilha connosco uma memória muito antiga, uma memória que contém muitas implicação com o presente e o futuro, a série consegue atingir a mesma magia melancólica que os livros têm. Grande e arrojado como Game of Thrones sempre soube ser, espero que continuem a apostar nestes pequenos momentos de pausa e onde são contextualizadas todas as reviravoltas e lutas por poder. E verdade seja dita, este programa de televisão construiu um mundo impressionante e mal posso esperar para ver que caminhos vamos percorrer daqui para a frente.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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