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Galveias e o resto do Universo

Galveias é o mais recente livro de José Luís Peixoto. O autor que se estreou no círculo comercial em 2000, com Morreste-me, continua a conquistar a crítica literária e a aumentar o seu espólio de obras com qualidade quase ímpar no nosso país. O estilo de narrativa a que Peixoto habituou os seus leitores está intacto em Galveias. Descrições simples, mas esbeltas e eficazes, sem pudores, com uma sensibilidade notável na envolvência da história, seja ela qual for e sobre o que for. Peixoto é “tocado pelo génio”, já dizia Urbano Tavares Rodrigues, e este livro é só mais um capítulo dessa genialidade.

“Galveias sente os seus. Oferece-lhes o mundo, ruas para estenderem idades. Um dia, acolhe-os no eu interior. São como meninos que regressam ao ventre da mãe. Galveias protege os seus para sempre”.

Esta é uma das passagens mais marcantes em todo o livro. Galveias sente os seus. Como todas as pequenas localidades sentem, onde existe um espírito colectivo que combate a individualidade das grandes cidades. Oferece-lhes o mundo. Isso é mais discutível, ainda que o mundo possa ser algo relativo. O mundo pode ser o mundo, ou o mundo pode ser, apenas e só, Galveias. As ruas para estenderem idades valem ouro. Ainda que não se veja, nada vale mais do que uma infância livre, na rua. Um dia sim, um dia tudo acaba e os que foram querem voltar, mesmo que já não pronunciem qualquer palavra, mesmo que já não completem qualquer gesto. A terra está lá para os receber e para lhes conferir paz e protecção.

Quem diria que Galveias fosse, por uma vez, por um determinado tempo, por um romance, um retrato da ruralidade portuguesa? Mais precisamente, do interior alentejano? José Luís Peixoto conseguiu homenagear a pequena vila onde nasceu, ao mesmo tempo que, de certa forma, homenageou a vila onde nasci, também alentejana, Aljustrel. É verdade, Galveias e Aljustrel são parecidas. Galveias e qualquer pequena vila podem ser semelhantes, porque estamos perante um romance que interliga vários contos, que retrata uma só existência com as suas vastas realidades, que sente as pessoas e as reúne diante dos nossos olhos.

Durante 278 páginas, entre Janeiro de 1984 e Setembro do mesmo ano, Galveias é atingida pelo universo. Uma “coisa sem nome” embateu na vila para nunca mais a abandonar. Pelo menos o seu cheiro, enxofre. Enxofre no ar, enxofre na brisa, enxofre no próprio pão cozido pelas meninas da boîte. Esse fenómeno é o ponto que interliga personagens, que desenrola a acção de Galveias da primeira página até à última, ainda que, pelo meio, todos se tenham esquecido que coisa sem nome era essa.

Catarino, Joaquim Janeiro, João Paulo, Miau, velho Justino, José Cordato, Tina Palmada, Maria Teresa, ti Manuel Camilo, Isabella. Estas dez personagens são apenas algumas das que podemos conhecer em Galveias. São apenas algumas daquelas que nos agarram às páginas deste livro e que nos fazem sentir que a pequena vila de Galveias, no distrito de Portalegre, é, para quase todos eles, todo o universo.

O que vamos encontrar é, muitas vezes, frio. José Luís Peixoto não se poupou na escrita crua, ou seja, nas descrições de uma realidade romanceada, que, muitas vezes, é triste e cinzenta. Ainda assim, existem esboços de um humor ténue e uma abundância de situações caricatas. Quando as lemos, precisamos de subentender uma segunda ordem de significação. Se ficarmos pela primeira camada de sentido, provavelmente não vamos ser capazes de extrair a essência rural que nos é transmitida. Esse estado de meditação requer tempo, o livro ganha sentido nas pausas, nos espaços entre parar de o ler e retomar a sua leitura. Precisamos de dar tempo e espaço a Galveias, como se o tempo das personagens fosse infinito.

O autor, em declarações para a agência Lusa, afirma o que é de inteligível compreensão, depois da leitura do livro: Galveias pretende defender e, ao mesmo tempo, homenagear “a realidade do interior de Portugal, onde há problemas bastante graves”. E, claro, depois de obras como Morreste-me, Cal, Livro, entre tantas outras que foram, merecidamente, premiadas dentro e fora de Portugal, José Luís Peixoto teve a liberdade criativa de escrever aquele que é, provavelmente, o livro mais pessoal que já editou. ”Galveias é bastante especial para mim, porque é a vila onde nasci, passei a minha infância e adolescência. Já tinha escrito alguns textos com esse título, mas agora trata-se de um romance”. Quando questionado pela Lusa sobre se os habitantes da vila poderão rever-se nos personagens do livro, José Luís Peixoto afirmou que a obra “tem pessoas simbólicas e evoca uma realidade que se encontra um pouco por todo o país”. “Espero que as pessoas de Galveias sintam o livro como uma homenagem ao lugar, que tem o tamanho de um romance”, disse ainda aquele que é um dos autores de língua portuguesa mais premiados em todo o mundo.

Em súmula, este livro é para ler, reler e guardar num local especial, de fácil acesso. Vai sempre haver aquele capítulo que nos marcou um pouco mais, vai haver aquele que nos fez pensar na nossa existência, aquele que nos fez rir, aquele que nos deixou angustiados, aquele que não queremos voltar a ler, aquele que nos desenha e nos caracteriza tão bem.

E, tal como as personagens, já me esquecia: a “coisa sem nome”? Essa está dentro de cada um de nós.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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