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HistóriaSociedade

Futebol, um grande amor

Quando se terá começado a usar uma bola e a lhe dar pontapés? Terá sido por um mero acaso ou haveria uma intenção específica para o fazer? E o que terá levado tantas pessoas a ficarem presas a esse objecto que rebola? Será que existe uma explicação lógica, uma reacção que o organismo desenvolve ou é simplesmente mera diversão?

Na China, durante a dinastia Huang-ti, os vencedores tinham o hábito de chutar as cabeças dos vencidos, dos que eram derrotados. Mais tarde, talvez por desconsiderarem esse costume, os crânios foram substituídos por bolas de couro. Passou a chamar-se tsu-chi e era usado com finalidade militar, de preparação para a guerra, mas somente na dinastia Xia, em 2197 a.c.

No Japão, tomou o nome de kemari, mas com a interdição da prática às mulheres. Isto, porque era proibido o contacto corporal e havia o respeito pelo corpo alheio, sobretudo pelo feminino que carregava os novos seres. Antes da partida celebravam uma cerimónia religiosa com cerejeiras, salgueiros, bordos e pinheiros, que eram as árvores que ladeavam os campos. O sol era representado com bambu.

Homero faz referência a epísquiro, um desporto praticado com os pés, num campo rectangular e jogado por duas equipas de onze jogadores. As regras eram flexíveis e o número de jogadores podia aumentar até 17. Em Esparta a bola era feita de bexiga de boi e cheia com areia. Em cada fundo do campo as balizas serviam para serem o receptáculo deste objecto.

No antigo México, os maias eram adeptos do pok ta pok, um jogo onde se usavam as mãos e os pés. O objectivo era acertar com a bola num furo, no meio de seis placas quadradas de pedras. Na linha de fundo estavam dois templos onde o capitão da equipa, que tinha o nome de atirador-mestre, era sacrificado.

Durante a Idade Média, período de tempo de cerca de mil anos, aparece o soule, na região que hoje é a França. Era somente praticado pela aristocracia e os resultados nem sempre eram bem aceites pelos perdedores. O rei Henrique II proibiu-o por o considerar violento e barulhento. Quem não acatasse a ordem podia ir preso.

Em Florença, Itália, vamos encontrar o cálcio. As regras só chegarão no ano de 1580, elaboradas por Giovanni Bardi. Tinha dez juízes como árbitros e a bola podia ser movimentada tanto pelos pés como pelas mãos. A variante é que não existia limite de jogadores e por isso era imperioso que houvesse quem cuidasse do bom funcionamento.

Em Inglaterra, há registos de jogos como o soule, em que vários habitantes, na terça-feira de Carnaval, vinham para a rua chutar uma bola de couro como forma de comemorar a expulsão dos dinamarqueses. Assim esta bola era como se fosse uma cabeça e a força usada era sempre intensa.

No século XVI, este desporto foi considerado bárbaro e estimulante da cólera, inimizade e ódio. Na verdade, o saldo era sempre negativo: pernas partidas, roupas rasgadas, dentes arrancados e afogamentos já para não falar das várias mortes que os elementos das equipas perdedoras faziam questão de efectuar.

Em 1710, as escolas de Convent Garden, Strandt e Fleet Strret transformaram-no em disciplina curricular vindo a ganhar vários adeptos. Claro que as regras ainda não estavam bem estipuladas, uma vez que cada escola tinha as suas. Chegou-se a um acordo. Um jogo com o uso dos pés e outro com o uso das mãos e dos pés. Estava encontrada a diferença entre futebol e rugby, em 1846.

Finalmente, em 1848, a Cambridge University Association Football Club passou ao papel as regras, dando destaque à destreza e proibindo certas condutas que podiam levar a situações menos honrosas. Contudo, novas regras foram sendo feitas e chegámos ao futebol que todos conhecem e seguem. E assim se consolidou o sistema dos dias de hoje.

A 30 de Novembro de 1872, a Escócia e a Inglaterra disputaram a primeira partida entre selecções oficiais. O resultado não foi do agrado de nenhuma equipa pois nenhum golo foi marcado. Entre Janeiro e Março de 1884, aconteceu a primeira edição do Brithish Home Championship, classificado como o torneio mais antigo entre selecções. A vitória coube à Escócia.

O futebol foi-se expandindo pelas Ilhas Britânicas gerando novas associações que representavam todas as partes do Reino Unido: a Scottish Football Association, a Football Association of Wales e a Irish Football Association. Com esta dimensão a modalidade ganhou inúmeros adeptos e fundou associações em vários países.

A criação da FIFA, em 21 de Maio de 1904, é a prova do sucesso deste novo desporto. Na sua génese estão a Bélgica, a Espanha, a Dinamarca, a França, os Países Baixos, a Suécia e a Suiça, o que desagradou ao reino Unido. No entanto a porta estava já aberta e nos Jogos Olímpicos de 1900 e 1904 foi uma modalidade inovadora.

Durante a Primeira Guerra Mundial, as prioridades eram outras que não o futebol. Este voltaria a ser vedeta dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928. Assim sendo a FIFA confirma a realização de um campeonato mundial de selecções. O Uruguai será o vencedor talvez tendo sido incentivado pelo centenário da sua constituição.

Em 1934, Benito Mussolini aproveita o campeonato para o enaltecimento do seu regime, uma propaganda que teve a sua constante presença. Os jogos nada tiveram de desportivo nem de leal pois os jogadores de todos as equipas, à excepção da italiana, foram ameaçados de morte. Assim a vitória da selecção Azzurra foi fácil. O uniforme era todo preto.

A Segunda Guerra interrompe os jogos. Em 1947, o futebol mundial ressurge com uma partida que ficou conhecida como Jogo do Século. O jogo decorreu na Escócia, em Hampden Park, Glasgow e foi visto por 135.000 espectadores. As equipas eram o Reino Unido, que venceu por 6 contra o Resto da Europa XI a 1.

Estavam criadas todas as condições para que os países avançassem com as suas equipas e criassem as suas selecções. Seria uma forma desportiva de se promoverem e de desbravar fronteiras. Os jogadores passaram a ter um duplo papel, de desportista e de embaixadores dos seus países. Uma enorme responsabilidade acrescida que os cobre de mediatismo.

As mulheres além de adeptas também são jogadoras. O caminho não tem sido nada fácil devido aos obstáculos sociais e culturais. O papel feminino foi relegado para segundo plano durante séculos e as conquistas alcançadas têm, forçosamente, de ser cultivadas. Tarefa nem sempre bem conseguida.

O primeiro jogo feminino, com regras estipuladas, aconteceu em 1892 em Glasgow. Infelizmente em 1921 foi proibido em Inglaterra e só foi levantada esta restrição no ano de 1969. Curiosamente, 100 anos depois da primeira disputa masculina, dá-se a feminina, em termos de selecções, no ano de 1972. Desde 1996 que é desporto Olímpico.

Segundo uma pesquisa realizada pela FIFA, existem cerca de 26 milhões de jogadoras espalhadas pelo mundo. O rácio está de 10 para 1, o que prova que as limitações anteriores eram somente sociais e não físicas. E não são só as jogadoras, mas também encontramos árbitros e treinadoras. Tudo em prol do corpo são em mente sã.

São inúmeros os adeptos que escolhem clubes e os seguem com devoção. É quase como se fosse uma religião e os seus fiéis acatam os dogmas e as suas máximas de vida. O seu clube é sempre o melhor e o adversário apresenta-se como um inimigo que tudo é capaz para destruir o seu oponente.

A situação só se inverte, quando se trata de jogos das selecção nacional. Aí a união é perfeita e todos defendem e apoiam o seu país. Os jogadores, que podem ser profissionais de clubes diferentes, esquecem as suas divergências e lutam pelo lugar mais alto para a sua pátria. Depois de tudo terminado, das taças e das medalhas atribuídas, as hostilidades regressam a bem do desporto.

O que leva milhões de pessoas a idolatrar os jogadores de futebol e a seguir os seus clubes não tem uma explicação científica. Uns dizem que é algo que se sente, muito profundo, outros afirmam que liberta os espíritos negativos e ainda outros falam de pertença. O certo é que os adeptos estão sempre presentes e não deixam as suas equipas solitárias.

O certo é que hoje em dia é um negócio que movimenta milhões de euros e a parte do desporto fica para um segundo plano. Funciona em regime muito semelhante ao da máfia e os dirigentes degladiam-se como se fossem uns verdadeiros padrinhos. No entanto continua a ser apelativo e não são estas miudezas que afastam quem o elegeu como modo de vida.

Pertencer a uma equipa é ser membro de uma família alargada onde a linguagem é comunitária e as derrotas e vitórias são partilhadas. Se um grito de derrota solta a tristeza, um de vitória liberta a miséria que não precisava de estar presente. Estar no estádio é como se estivessem a jogar, a sentir a bola nos pés, a ver o seu percurso e a levá-la, gentil ou violentamente, até à baliza do adversário.

Esta excitação é como uma relação de amor que tem sempre altos e baixos, mas não finda. Há uma comunhão de interesses e de princípios que acaba por justificar certas e determinadas atitudes que nem sempre parecem as mais correctas aos olhos dos adversários. Do lado deles partilham da mesma sintonia, mas com sinal oposto e muitas vezes dão-se os confrontos. Faz parte.

Independentemente do que o futebol possa ser ou aparentar ser e de levantar algumas suspeitas sobre a origem do dinheiro que o envolve, quem o ama não se deixa derrubar por esses detalhes que considera mínimos. O âmago, o mel que cola todos ao ecrã ou às cadeiras nos estádios é de excelente qualidade e, mesmo contra todas as hipóteses, nunca se evaporará. O futebol é sempre uma enorme e gigantesca emoção.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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