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Desporto

Futebol Feminino em transição: para pior?

Todo o país ainda se sente anestesiado pela fantástica vitória da nossa seleção em terras francesas. Eu como muitos ainda vejo o brilho da taça quando Cristiano Ronaldo a elevou bem no céu. Mas entre festejos e ressacas, a nova época já está à porta e no futebol feminino ainda muito há a decidir na estreia da Liga de Elite que a FPF preparou para rejúbilo de poucos e agrura de muitos.

A época de 2015-16 terminou com o Futebol Benfica (o FóFó) a confirmar os pergaminhos de melhor equipa nacional da atualidade. As comandadas do treinador Pedro Bouças sagraram-se bicampeãs da Liga e levantaram pela segunda vez consecutiva a Taça de Portugal em pleno Estádio Nacional. Contam assim com duas dobradinhas consecutivas a que se soma a conquista da Supertaça que certamente ambicionam repetir no jogo de arranque da nova época. Nos dois outros lugares do pódio ficaram em 2º lugar o Clube Albergaria/Mazel e em 3º o Valadares-Gaia FC. Fundação Laura Santos e Cadima não resistiram e caíram para a Liga Promoção. Nesta, os quatro vencedores das quatros séries defrontaram-se entre si, cabendo ao CAC da Pontinha e ao União Ferreirense as honras de promoção à Liga de Elite.

Entretanto, na pausa entre épocas tem-se assistido a águas muito agitadas. O Futebol Benfica já pensa na participação na fase de qualificação para a Women’s Champions League, a ser disputada na Finlândia. A arte e engenho da direção aliado ao enorme carácter e lealdade das campeãs, permitiram manter quase todo o plantel ileso face aos ataques vorazes que surgiram. Viu apenas sair a consagrada Patrícia Gouveia para o Sporting, saída colmatada com a qualidade de Carla Cardoso, vinda do Paio Pires FC. Verdadeiro reforço é a chegada de Joana Vieira, vinda do CAC com o diploma de melhor marcadora do Campeonato Promoção com 54 golos.

Já os principais rivais não resistiram e viram-se delapidados das principais jogadoras pelos novos ricos. Como se sabe, a FPF endereçou convite a quatro clubes da Liga masculina tentando conquistar as verbas que circulam em torno dos grandes do futebol português, garantindo-lhes o acesso direto à Liga de Elite sem qualquer forma ou necessidade de competição. Estoril-Praia e Belenenses que têm as suas equipas de futebol feminino a lutar na 2ª divisão, apressaram-se a gritar por um lugar. Sporting e Sp. de Braga criaram novas equipas. Vejamos então como se têm formado estes plantéis.

Os principais clubes (à excepção do bicampeão já referido), Albergaria, Valadares, Ouriense e A-dos-Francos, viram sair as suas principais jogadoras para Braga e para o Sporting. Só que há uma regra imposta (ardilosamente, como veremos) pela FPF: cada clube convidado apenas pode contratar duas jogadoras de um mesmo clube, sendo que nenhum clube pode ver sair mais do que quatro jogadoras para os convidados. Vislumbrava-se tarefa hercúlea para Braga e Sporting formarem planteis. Os minhotos contrataram três referências nacionais, Edite Fernandes e Vanessa Marques ao Valadares e Jéssica Silva ao Albergaria, bem como Sara Brasil que com a camisola do Vilaverdense sagrou-se a máxima goleadora da primeira Liga Feminina. Depois viraram-se para Espanha onde requisitaram os serviços de 5 atletas do El Olivo Vigo, campeão da Galiza, fazendo perguntar à FPF se quer ver a evolução do futebol feminino em castelhano. Novas notícias se esperam entretanto.

O Belenenses, sabendo não ter qualquer hipótese de sucesso com uma equipa que terminou a Liga Promoção em 8º, beneficiou dos graves problemas vividos pelo CAC. Entre alegadas falsas promessas e a ausência de um campo para competir, a equipa técnica bateu com a porta e, com todo o plantel, mudou-se para o Belenenses (excepção da já referida Joana Vieira e da internacional sub-19 Ana Capeta que ingressou no Sporting). Resta saber o que irá acontecer às azuis que formaram o plantel que terminou a época e como irá o CAC conseguir ultrapassar os seus graves problemas para conseguir competir no lugar que conquistou com grande mérito desportivo, visivelmente não correspondido ao nível diretivo.

Por sua vez o Sporting apresentou-se com recursos inalcançáveis a outros. Além do nome como grande do futebol português que é, destacou um orçamente de fazer inveja. É certo que muito dificilmente conseguirá receitas que cubram o investimento (fair-play financeiro?), mas deste modo já conseguiu fazer regressar ao nosso campeonato algumas jogadoras que haviam investido as suas carreiras em campeonatos profissionais um pouco por esta Europa fora, sem dúvida enriquecendo os relvados nacionais. São os casos de Patrícia Morais, titular da seleção nacional que jogava no Asptt Albi de França, Tatiana Pinto, ex-Bristol de Inglaterra, ou Solange Carvalhas, ex-Anderlecht da Bélgica, entre outras. Como algumas internacionais não chegam para formar um plantel vencedor, fez-se valer da aposta em Raquel Sampaio para diretora do futebol feminino. Raquel Sampaio é reconhecida pelo extraordinário trabalho que fez na construção do futebol feminino do Estoril-Praia. Fez nascer uma equipa muito jovem que em poucos anos colocou-se em posição de luta pela subida à liga principal e criou uma verdadeira academia de futebol reconhecida pelos títulos conquistados e pelas excelentes condições de treino.

Quando se pensava que idêntica fórmula iria ser posta em ação no Sporting, algo diferente aconteceu. Há relativamente pouco tempo, em 30 de Maio último, a FPF publicou o comunicado 308, em que determina que a regra da contratação de um máximo de duas jogadoras a um clube, por parte dos clubes convidados, aplica-se apenas aos que tenham disputado a liga principal. Assim, durante o mês de Junho foram sendo apresentadas com a camisola do Sporting várias jogadoras do Estoril-Praia, seis até à data. A acompanhá-las, praticamente toda a equipa júnior sub-17.

O Estoril-Praia deverá sentir-se por estes dias como um clube que secou à sombra de um eucalipto. Com que equipa irá competir e com que objetivos está no segredo dos deuses. Nada transparece e até se torna incomodativo o silêncio da direção do clube da linha enquanto o seu património desportivo vai sendo delapidado.

No meio disto tudo, a FPF vai sorrindo. Começa a ver surgir clubes com infraestruturas de nível, demitindo-se da responsabilidade que tem em apoiar os mais pequenos. Dos valores do abrangente patrocínio da Allianz (temos a Liga Promoção Allianz, Taça de Portugal Allianz, Supertaça Allianz, etc.) a soma de zero euros é distribuída pelos clubes. A totalidade fica nos cofres da federação. Ao invés de apoiar os clubes para que estes apresentem condições favoráveis às atletas e façam assim evoluir o futebol feminino, a FPF prefere convidar alguns ricos e dar-lhes na secretaria os meios necessários para estes, com o prestígio da instituição que os suporta, substituírem a FPF nas suas responsabilidades. Iremos ter um ou dois clubes num regime semi-profissional com treinos 4 ou 5 vezes por semana, contra todos os outros em regime amador e treinos 3 vezes por semana quando possível. Desta forma, 2016/17 será sempre, termine como terminar, um campeonato ferido à nascença no que à verdade desportiva diz respeito, ausente dos mais elementares valores de ética desportiva.

É preciso relembrar que foi o trabalho realizado pelos clubes que a FPF não apoia que fizeram o futebol feminino evoluir ao ponto da federação e dos clubes convidados se interessarem pela competição. A recompensa é um grande e redondo zero. No futuro próximo, ao invés da melhoria global do futebol feminino através do crescimento dos seus clubes, prevejo um recuo por se ver a FPF a entregar de bandeja todos os meios a um clube que assim se apresta a dominar por completo todas as competições, fazendo os outros regredir, assim como ao futebol feminino em si.

Espero estar enganado.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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2 Comments

  1. Li com muita atenção e interesse o seu comentário, André. Eu não fazia uma análise tão concisa e precisa. Deixo-me dizer que também tenho duvidas sobre o futuro do futebol feminino. Creio, mas isso sou eu, que muitos clubes no futuro vão fechar as portas à modalidade. Quem conhece a realidade sabe que se existem equipas de futebol feminino deve-se a meia dúzia de carolas que vencendo obstáculos e mentalidades arcaicas, seguram com pinças e com muito cuidado as equipas existentes. A dificuldade para estas equipas treinarem é mais que evidente, primeiro estão todas as outras equipas dos clubes e só depois é que a equipa feminina tem opção para treinar. Esta é a realidade, vamos então ver no futuro quando os “eucaliptos” poderem “sacar” de qualquer maneira as melhores jogadores aos outros clubes quem é que vai ter paciência para trabalhar para os “ricos”. O futebol feminino estava a crescer, posso estar enganado, por isso a minha expectativa é enorme quanto ao futuro, daí esperar ansiosamente pela época de 2017/18. Quero agradecer-lhe o elogio que fez ao caracter das nossas jogadoras, elas são bem merecedoras, eu próprio gostaria de encontrar palavras para elogiar de forma sublime a forma como o grupo se manteve firme e indivisível tanto mais que vivemos uma época em que os valores e os sentimentos são valores doutros tempos.
    Domingos Estanislau

  2. Julgo que não será só uma parte negativa que esta liga vem trazer.
    Em primeiro acho que com esta liga os escaloes de formaçao serão tratados e olhados com mais atençao. Até hoje grandes clubes, grandes nomes como o Fófó descrito no texto não tinham o apoio para a formação andando ao deus dará. Com esta competividade serão obrigados a implementar melhores condiçoes para conseguir segurar jovens jogadoras. a

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