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“Friends”: aquele que é eterno

Nova Iorque, Bedford Street. Número 90, 15º andar. Seis amigos e dois recém-nascidos estão num apartamento vazio, que se vai preenchendo com deixas irónicas e sarcásticas. Os adultos pousam, pela última vez, as chaves daquele lar numa bancada. Mas, antes de partirem para sempre, ainda há tempo para beberem um café. “Onde?”, ouve-se.

Estamos a 6 de maio de 2004 e mais de 50 milhões de espectadores americanos sabem a resposta. Por isso, não são precisas mais falas. Nesse dia, mais de 50 milhões de pessoas vêem as personagens que lhes fizeram companhia, durante 10 anos, a abandonarem um dos apartamentos mais famosos de sempre. E todos imaginam que, minutos mais tarde, essas personagens estarão sentadas nos sofás do café Central Perk. Contudo, é exatamente a imaginação que resta. Porque as aventuras de “Friends” acabam naquele momento. Após 10 temporadas, 236 episódios e 40 nomeações para Emmys.

Estes são os números que retratam um fenómeno televisivo tão grande que mudou as regras do jogo na produção de entretenimento. Depois de “Friends” ter marcado uma geração nos anos 90, a indústria tentou replicar o êxito de uma fórmula aparentemente simples: retratar a vida de amigos numa grande cidade, entre conflitos amorosos e laborais. Todavia, nenhuma pretensa imitação (ou inspiração) teve um sucesso equivalente. Talvez por “Friends” ter sido o primeiro. Ou talvez porque nenhuma outra abordagem nos fez importar tanto com as personagens e as suas interações.

Todos os episódios, à excepção do primeiro e dos dois últimos, receberam um título que começava pelos termos “Aquele que…” ou “Aquele do(a)…”, ajustando-se à linguagem que os espectadores usam no quotidiano. “Friends” entrou nas conversas do dia-a-dia e as suas personagens apresentaram uma história que despertou um interesse que nos tornou coscuvilheiros ávidos. Os flashbacks deram-nos conta de um passado ainda mais cómico do que o presente. Assim, os episódios que têm como pano de fundo o Dia de Acção de Graças, e nos quais os regressos ao passado são frequentes, encontram-se entre os favoritos do público.

Monica Geller (Courteney Cox) é a obesa que se tornou numa chef de cozinha magra e obcecada com a limpeza. O irmão, Ross (David Schwimmer), é, certamente, o paleontólogo que mais vezes se divorciou no mundo. Já Rachel Green (Jennifer Aniston) enfrenta a transição de menina mimada, que abandona o altar, para alguém que trabalha para conseguir uma carreira na moda.

Numa trama passada em Nova Iorque, não poderia faltar a busca pelo lugar no mundo da representação. A personificação de ator frustrado cabe a Joey Tribbiani (Matt LeBlanc), que, apesar de ser incapaz de se desfazer do pinguim de peluche Hugsy, criou uma das frases de sedução mais famosas de sempre – “How you doin’?“. E claro que, numa cidade vibrante, um pouco de misticismo fica sempre bem. Phoeby Buffay (Lisa Kudrow) incarna as crenças em múltiplas vidas, ao mesmo tempo que inventa nomes para acordes de guitarra, como “garra de urso” ou “perna de peru”.

Por último, Chandler Bing (Matthew Perry) é uma das personagens mais sarcásticas de sempre. Nunca chegamos a conhecer a sua profissão. Apenas sabemos que ganha o suficiente para emprestar (muito) dinheiro ao necessitado Joey, que a mãe escreve livros para adultos e que o pai é travesti. Foi precisamente a voz de Chandler que deu vida ao derradeiro “Onde?”.

Não se tratam de estórias impregnadas de realismo. Têm antes características que encaixaram muito bem no pequeno ecrã, para aí ganharem lugar cativo. Segundo o jornal “Expresso”, “deixando de fora as reproduções em streaming, a série continua a ser vista por 16 milhões de pessoas todas as semanas, com as repetições a acontecerem em vários canais”. 24 anos depois da estreia do primeiro episódio, são números que surpreendem. E que só são possíveis graças à magia que envolveu todo o enredo.

Rogámos para que Rachel saísse do avião. Olhámos para o planetário como o lugar mais querido do mundo para se fazerem declarações de amor. Foi difícil aguentar a espera para ver o que se seguia ao momento em que Ross aceitou Rachel como sua legítima esposa, quando a noiva era outra. Esperámos que Chandler não sofresse muito, encerrado numa caixa de madeira, castigado para que Joey o perdoasse.

Adorámos ver Monica com um peru de óculos de sol, enfiado na cabeça. Comovemo-nos quando Phoeby deu à luz os filhos do irmão. Talvez tenhamos chorado com aquele casamento debaixo de flocos de neve. Vibramos com todos os jogos de matraquilhos. Cantamos “The Lion Sleeps Tonight”, para chamar o macaco Marcel.

Por fim, sentimos um vazio imenso quando o ecrã nos mostrou o apartamento vazio, pela derradeira vez. Para nos consolar, só mesmo aquela canção do genérico a que nos habituamos. “I’ll be there for you”, dos The Rembrandts, entra em fade in, fazendo-nos agradecer que aquelas personagens tenham ali estado, ao nosso lado, sem nunca perderem a sua graça. E, claro, dando mais graça à nossa vida.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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