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Francisco Fernando: o detonador da Primeira Grande Guerra

A 18 de Dezembro de 1863 nascia na cidade austríaca de Graz aquele cuja morte, em 1914, arrastaria as principais potências mundiais para a Primeira Grande Guerra. Francisco Fernando Carlos Luís José Maria de Áustria foi o filho mais velho do arquiduque Carlos Luís (1833-1896), irmão mais novo dos imperadores Francisco José I da Áustria (1830-1916) e Maximiliano do México (1832-1867) e da princesa Maria Anunciata de Bourbon-Duas Sicílias (1842-1871).

Aos 12 anos torna-se o pretendente ao trono do extinto ducado italiano de Módena e Regio (1452-1798, 1814-1859), que herdou de seu primo, o duque Francisco V de Módena (1819-1875) Na verdade, o ducado regia-se pela Lei Sálica, que excluía as senhoras da linha sucessória, arredando da mesma a sua sobrinha e herdeira, Maria Teresa (1849-1919), visto Francisco ter tido apenas uma filha, Ana Beatriz (1848-1849), já falecida à data de sua morte.

Alguns anos mais tarde, em 1889, torna-se também o primeiro na linha de sucessão ao trono imperial austro-húngaro. De facto, nesse ano, a 30 de Janeiro, morria, em circunstâncias controversas, aparentemente suicídio, o filho varão de Francisco José da Áustria e de Isabel (1837-1898) – a imperatriz Sissi –, o arquiduque Rodolfo (1858-1889). Na verdade, o sucessor directo deste seria o seu tio Carlos Luis, mas renuncia em favor do seu filho, Francisco Fernando. A partir dessa altura, a sua vida altera-se, começando a ser preparado para suceder ao seu tio, o Imperador.

Tendo ingressado no exército muito cedo, aos 31 anos era já major-general, assumindo o comando de um regimento militar, muito embora nunca tivesse recebido um treino militar formal. Em 1913 foi nomeado inspector-geral de todas as forças armadas da Áustria-Hungria.

franciscofernandoFoi em 1894 que conheceu aquela que viria a ser a sua mulher, a condessa Sofia Chotek. No entanto, não foi um romance pacífico. Na verdade, era exigido à futura mulher do Imperador Austro-Húngaro que nas suas veias corresse sangue azul. Muito embora nos seus antepassados se contassem algumas princesas de Baden, Hohenzollern-Hechingen e Liechtenstein, Sofia não era uma princesa; pelo contrário, exercia as funções de dama camarista da Princesa Isabel de Croÿ (1856-1931), mulher do arquiduque Frederico de Áustria-Teschen (1856-1936).

A relação entre Francisco Fernando e Sofia manteve-se em segredo durante dois anos, correspondendo-se por escrito, enquanto Fernando se encontrava em convalescência de uma tuberculose. Todavia, o romance acabou por ser escandalosamente descoberto, com forte oposição do imperador Francisco José, a ponto de o Papa Leão XIII, o czar Nicolau II da Rússia e o kaiser Guilherme II da Alemanha se terem imiscuído na questão, alegando a instabilidade monárquica decorrente da oposição entre tio e sobrinho.

O casamento foi por fim autorizado em 1899 e realizado em 1 de Julho de 1900, dois dias depois da assinatura de um documento em que se estabelecia que a união seria morganática, o que significava que, para além dos seus descendentes não terem direito de sucessão ao trono, Sofia não usufruiria do status, títulos, precedências, ou quaisquer outros privilégios destinados às imperatrizes da Áustria-Hungria, nomeadamente o de aparecer em público junto do marido, em funções oficiais. À própria cerimónia, realizada em Reichstadt, na Boêmia, não assistiu qualquer membro da família Imperial, à excepção da sua madrasta, a terceira mulher de seu pai, a arquiduquesa Maria Teresa de Bragança (1873-1944), e suas duas filhas. Filha de D. Miguel I de Portugal (1802-1866), foi uma das principais, se não a única, defensora deste romance.

Francisco José, ao contrário do seu tio, teria uma visão mais liberal sobre as diversas nacionalidades que constituíam o império, defendendo a concessão de maior autonomia de alguns grupos étnicos. Contudo, considerava o nacionalismo húngaro uma ameaça ao imperialismo austríaco. Não deixava, contudo, de defender uma centralização dinástica e o conservadorismo católico.

O Atentado de Sarajevo

A 28 de Junho de 1914, Francisco Fernando e a sua mulher foram mortos em Sarajevo, a capital da província Bósnia e Herzegovina, onde se encontravam em visita, para assistirem a manobras militares e à inauguração de um museu. A Bósnia e Herzegovina encontravam-se sob administração do império austro-húngaro. Todavia, a Sérvia, soberana desde o Tratado de Berlim de 1878, vive a partir de 1903 um ímpeto revolucionário, com a mudança drástica de Casa Real, através do Golpe de Maio, que destronou e assassinou o Rei Alexandre I (1876-1903). A nova dinastia afasta-se do império austríaco e alinha politicamente com a Rússia, procurando restabelecer as antigas fronteiras do reino. Exigindo uma compensação pela perda da Bósnia e Herzegovina e anexando a Macedónia e o Kosovo, pertencentes então ao Império Otomano.

Passavam 45 minutos das dez da manhã, quando Gavrilo Princip (1894-1918), membro da Jovem Bósnia e da Mão Negra, grupos radicais que pugnavam pela independência Sérvia, atirou à queima-roupa, ao carro que conduzia os arquiduques, acertando Sofia no abdómen e Francisco José na jugular, vitimando-os. Não tinha sido a primeira tentativa de assassinato, uma vez que nesse mesmo dia, às 10:10 da manhã, outro elemento dos mesmos grupos já havia lançado uma granada para o carro onde seguiam os arquiduques. Todavia, a granada explodira atrás deles, ferindo cerca de duas dezenas de pessoas, que os arquiduques visitaram no hospital, instantes antes de morrerem às balas de Gravilo Princip.

Os corpos foram embalsamados e enviados para a Áustria, onde foram recebidos pelo novo herdeiro do trono, o arquiduque Carlos (1887-1922), sobrinho do arquiduque Francisco Fernando, por ser o filho mais velho do seu irmão mais novo, Oto Francisco (1865-1906).

Menos de dois meses depois, a Áustria-Hungria declarava guerra à Sérvia, dando início à Primeira Grande Guerra.

A História nas Estrelas

Quando, a 28 de Junho de 1914, Francisco Fernando é assassinado juntamente com a sua mulher, não só despoletou um processo que iniciaria uma guerra que, pela primeira vez, alcançaria um plano global, como, no fundo, abraçava um propósito duma vida orientada por aquilo em que realmente acreditava.

MapaFranciscoFernandoSagitariano de Sol e Ascendente, com a Lua em Carneiro, o elemento fogo é preponderante no seu mapa, trazendo, claramente, uma personalidade forte, intensa e sonhadora. Com o signo de Escorpião igualmente forte no seu mapa, onde reside o regente do ascendente, Júpiter, a Vénus e o ponto representativo do seu caminho de vida, o Nodo Norte, a sua intensidade natural é expressa duma forma emocional densa, “escuro na aparência e nas emoções”, como o relato do historiador alemão Michael Freund descreve, mas também, de certa forma, provocativo, algo que revelou não só com a situação do seu casamento, como também com a forma como vivia os aspectos da sua vida.

Embora não fosse previsto ser o herdeiro do trono do império austro-húngaro, o facto é que uma posição muito auspiciosa do planeta Saturno, exaltado, conjunto ao Meio-do-Céu e em ligação muito positiva ao Ascendente, colocam no seu caminho de vida, ainda que duma forma quase imprevista, o poder e o domínio de um Estado. Esse mesmo Saturno demonstra uma carreira de ordem e rigor, exemplicada pela vida militar do Arquiduque, que aos 31 anos já era major-general.

Contudo, ao olharmos melhor para o mapa, o propósito de vida de Francisco Fernando não passa, de todo, pela administração de um Império, mas sim por ser um exemplo, o protagonista de um rastilho para o final de um Império que tinha sido o resultado de um acordo, o Compromisso Austro-Húngaro de 1867, nascido de vontade política, mas não com o acordo popular. Embora fosse muito liberal em alguns aspectos, as suas profundas convicções faziam-no ser altamente conservador noutros, o que fazem dele o exemplo completo de uma nação dividida e cheia de problemas.

Quando o atentado que mata Francisco Fernando se dá, Plutão, planeta muito importante nos movimentos de mudança e transformação profunda, tinha entrado há um mês no signo de Caranguejo, de onde sairia apenas pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Para além disso, este mesmo planeta estava em conjunção com o Sol, trazendo uma energia de purificação e transformação a nível global. Em Caranguejo, Plutão vem trazer as questões da pertença, da casa e, no caso de um chefe de Estado, a Nação. Ao estar a transitar a Casa 7, casa das relações e das parcerias, desde sensivelmente 1903, ano em que um golpe de estado leva ao brutal assassinato dos reis da Sérvia, sua substituição, assim como afastamento desse Estado do Império Austro-Húngaro e o início de diversas guerras com o império por causa de fronteiras. Curiosamente, o mentor desse golpe foi o mesmo do atentado que vitimou Francisco Fernando, 11 anos mais tarde. Nesse 1903, Plutão, ainda em Gémeos, fazia conjunção com o Úrano natal de Francisco Fernando, quase como uma profecia do futuro do arquiduque.

Outro ponto importante é o facto de Saturno, ao estar a transitar nos céus, estar a fazer oposição ao Sol de nascimento de Francisco Fernando, o que não só define um ponto fulcral no seu caminho de vida, como também um retirar da sua vitalidade em prol de um propósito maior. Também é muito curioso de notar que, nesse momento, cinco planetas, incluindo Marte e a Lua, e também o Nodo Sul, transitavam a casa 8 de Francisco Fernando, casa ligada a questões de morte e transformação.

Olhando para o momento do atentado, pode-se verificar que o Ascendente do momento, no signo de Virgem, colocava-se na Casa 9 de Francisco Fernando, demonstrando que este facto não só teve impacto no exterior (assunto da casa 9), como também foi um acto planeado e resultante da revolta de um povo que não via no sistema uma solução para as suas necessidades. Para além disso, o Meio do Céu está conjunto ao Descendente, algo muito representativo duma morte ao lado do amor da sua vida, também ela acabando por falecer. Dizem os relatos que, no momento em que se apercebeu da situação, no leito da sua morte, Francisco Fernando disse “Querida Sofia! Não morras! Fica viva para os nossos filhos!”

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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