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Foxcatcher

O verdadeiro Mark Schultz tem, nos últimos dias, demonstrado a sua opinião quanto à versão de Bennett Miller do assassínio do seu irmão, Dave Schultz, pelas mãos do milionário e entusiasta do Wrestling, John Du Pont. As acusações de Mark ao filme Foxcatcher são direccionadas na sugestiva relação de cariz sexual entre o próprio e o homicida, como se pode evidenciar no olhar e nos gestos entre os dois personagens. Se é verdade ou não, é curioso a orquestra psicológica que Miller opera neste relato de um crime, intensificado com a caracterização do antagonista, Du Pont, impressionantemente tenebroso sob a pele de Steve Carell. Sim, o actor cómico que se demarcou na série The Office, é um filantropode pesadelo e um perturbado ser, que, em 1996, assassina a sangue frio o campeão olímpico de Wrestling, Dave Schultz (aqui interpretado de forma camaleônica por Mark Ruffallo).

Em Foxcatcher, assistimos a uma consolidação das duas obras de ficção anteriormente dirigidas por Miller, o gosto pelo crime a sangue frio (Capote) e o fascínio pela ciência desportiva (Moneyball). Assim sendo, não é errado afirmar que este seja talvez a sua obra máxima, o seu upgrade e o seu trabalho mais arriscado e articulado. Contudo, é também um filme que não era possível sem o consenso do elenco. Os actores são o “tour de force” desta jornada ao previsível desfecho. Desfecho esse, caminhado sem embelezamentos hollywoodescos, aliás, contaminado por uma negrura exemplar e uma influência psicótica não vista no cinema norte-americano há muito tempo. Sem querer divagar muito, o elenco é um dos seus fortíssimos vórtices.

Famoso pelos seus papeis cómicos, Steve Carell transforma-se radicalmente num assassino.
Famoso pelos seus papeis cómicos, Steve Carell transforma-se radicalmente num assassino.

Steve Carell é o arrepio em pessoa, o olhar de um ser torturado, incompreendido, mas longe de ser digno da compreensão. A caracterização utilizada para desconstruir o actor e o tornar mais próximo do “monstro humano” que foi John du Pont torna-o inconfundível e arriscadamente sinistro. Por outro lado, Mark Ruffallo é outro ser confundido com os relatos reais, a sua camuflagem na pele de Dave Schultz é evidente e trabalhada. Por último, o vértice restante, Channing Tatum tem aqui o seu desempenho mais completo e provavelmente o único registo dignamente cinematográfico desde o semi-autobiográfico Magic Mike, de Steven Soderbergh.

Foxcatcher é um portento, um filme dotado por uma mestria por parte do seu realizador (vencedor do respectivo prémio no último Festival de Cannes) e alicerçado pelos seus actores. Uma obra que salienta o lado negro do ser humano, sem moralismo, sem efeitos bacocos dignos do cinema industrial, nem estabelecimentos de foros egocêntricos. Entramos no ano 2015 em grande!

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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