EducaçãoSociedade

Formatamos Criações ou Formamos Ambições?

Todos nós somos educados maioritariamente de diversas formas. E somos também nesse sentido para o bem ou para o mal decisores de tomadas de posições ao longo da nossa vida. Somos fruto de ensinamentos que estão enraizados nas diversas teias familiares. Formas de aprendizagem e educação diferenciados. Valores e moralidades distintos em muitos casos. Estruturas familiares mais e menos compensadas e descompensadas, o que leva também a diferentes tipos de visões e acompanhamento familiar contextualizados ou descontextualizados da própria estrutura em si.

Desde o inicio que somos instruídos na arte do “Ser alguém”. Somos instruídos, formatados com regras, pressões, formas de educar, atingir os objectivos, alcançar o sucesso. A preocupação latente de familiares, pais, professores em formar filhos, alunos, homens e mulheres do amanhã tornou-se uma droga tão viciante que o que foi esquecido foi a felicidade no acto de sorrir e viver. Tens de te comportar, tens de estudar, tens de prestar atenção, tens de ser educado, não podes fazer barulho nas aulas, tens de respeitar, tens de te dedicar, tens de escolher um futuro, tens de ser mais do que aquilo que os teus pais foram. Tens que ter um bom emprego. Tem de ir na senda do sucesso.

A gratificação do esforço feito por pais e professores reside no pagamento de que a ideia que uma licenciatura, um bom emprego, uma boa vida financeira é a razão principal no ato de um retorno de bom pagador que um filho se sente na obrigatoriedade de fornecer, como forma de agradecimento. Os nossos pais, professores são credores de uma dívida que indirectamente os mesmos criaram. Criaram, porque fornecem mais regras em vez de mais amor. Criaram, porque desgraçadamente em muitos casos a invalidez em que caiu a sua vida por inúmeras razões tem de ter uma continuidade no seu legado. Criaram, porque o medo, o trauma de algum filho passar por dificuldades os faz a todo o custo economizar na arte de amar e aumentar o plafom na arte de robotizar o futuro que não é seu, mas que o tem como seu também.

É uma forma de criar cegos, surdos e mudos capacitados o suficientemente para voltarem a deixar um outro legado, uma continuidade. Não se pode de certa forma crucificar quem educou e quem vai educar. Porque está enraizado na estrutura dúbia da sociedade. É uma sociedade do medo, uma sociedade de eterno capitalismo, uma selva onde se colocam paletes de 25/30 alunos numa sala de aula com 10 minutos de intervalo ou 15 pela manhã, 30 minutos de tarde, horas a fio dentro das salas de aula com sociedades sedentas de produzir as melhores mentes. E os pais aplaudem. Os filhos esses desejosos de vivenciar a sua infância, de poder sorrir mais, de poderem utilizar a sua liberdade para criar, sonhar, expor o seu talento são absorvidos pelos trabalhos de casa depois de horas e horas na escola, testes uns atrás dos outros e castigos penalizantes por falhas de estudos ou falta dele.

Malditos desentendidos que desapropriam a arte de ser criança e hipotecam futuros, criam traumas, seres stressados com a vida, pessoas doentes, indecisas, falhas no amor, remendadas por uns e outros como forma de possuírem o que nunca lhes foi dado. Malditas sociedade obcecadas pelo lucro, pela garantia da necessidade de criar seres formatados na arte do “Sim Senhor!” Aposta-se na formação escolar, formata-se o amor e perde-se o norte da importância que tem o brilho do arco íris.

Formem seres com formação em carinho. Formem seres com formação em amor, solidariedade. Formem seres com capacidade de amar, capacidade de dar. Licenciem seres na arte de amar o outro. Licenciem seres em partilha, cumplicidade, dedicação. Formem seres com ambição em abraços, formem seres na arte de tapar feridas, de realizar desejos, de surpreender o mundo com o seu talento. Formem seres na arte da paz, da construção de pontes, de equilíbrios. Formem seres destituídos de ganância. Formem seres ao serviço da paz. Não formem egoístas, indecisos, massacrados, desviados, desnorteados, descompensados, destituídos. Não formem violadores, mentirosos, omissivos, incapacitados, engrandecidos pela soberba. Lamento…mas onde falha a formação a base é de betão.

Criamos seres soberbos, de status, de nariz empinado. Criamos seres já desgastados, desiludidos com a vida. Criamos seres hiperactivos, desnorteados, viciados em trabalho na busca de todas as regras possíveis que outrora fornecidas se deduzem como água milagrosa para a continuidade da sua vida.

Vemos os sorrisos latentes de pais ou mães, aquando do orgulho sentido por um filho ter licenciaturas em medicina, arquitectura, cinema, filosofia, psicologia, ciências entre outras. Um bom emprego, uma boa estrutura. Deliciados, de peito cheio por sentirem o seu esforço recompensado.

E se na tua formatação alguém te questionar: Onde vive a tua felicidade interior de veres o mundo como desejavas?

Não respondas: Em que página está isso?

Show More

Bruno Fernandes

Nascido a 29 de Dezembro de 1975, natural de Lisboa, Bruno Fernandes, bloggler ativo há já alguns anos, dedica-se essencialmente à luta pela mudança interior e novas formas de entender o ser humano através da sua experiência de vida. Cinéfilo ativo e leitor assíduo.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: