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Fiscais do corpo alheio

“Põe maquilhagem que não ficas assim tão feia.”, “Corta esse cabelo, homem, já não tens 15 anos!”. Observações sobre a beleza ou feiúra de um indivíduo. “Se tivesses cabelo liso, ficarias tão mais bonita!”, “Tu devias emagrecer, não achas que estás muito gordo?”. Comentários sobre o corpo alheio (há coisas mais ácidas, mas recuso-me a reproduzi-las aqui). Piropos e assobios que incomodam as mulheres bonitas que passam pela rua. O que escrevi aqui foram só alguns exemplos de como os outros à nossa volta expressam as suas opiniões sobre nós, as quais têm as expectativas da sociedade como pano de fundo.

A beleza aparente de determinada pessoa é o tópico mais propício para o surgimento de atitudes e comentários como esses. A sociedade estabelece padrões ideais de beleza e perfeição corporal, que influenciam a maneira como os indivíduos vêem o próprio corpo. Essa influência fornece o fundamento para que as pessoas lancem críticas e olhem com desdém para aqueles que não obedecem a tais padrões, por uma razão ou outra, e mesmo quando é irreal esperar que o façam.

As mulheres são as vítimas mais visíveis deste tipo de mentalidade: é muito provável que uma mulher seja criticada ou receba “conselhos” por, apesar de estar em perfeita saúde, ter um perfil de corpo que não se encaixa no padrão da “gaja boa” aos olhos masculinos. Coxas mais largas que o normal (aliás, qual é o normal mesmo?), um pouco de barriga, celulite nas nádegas, tudo é motivo para “conselhos” e, nos casos mais graves, gozo e tratamento hostil.

Também pesa na visão feminina sobre a beleza, a influência de celebridades do cinema e da televisão, cujas roupas são escrutinadas de cima a baixo e ditam os padrões de moda do momento. Além disso, as temáticas presentes nas revistas para as mulheres procuram encaixá-las em ideais arbitrários de vestuário, dieta e comportamento, que persistem, apesar de serem cada vez mais desafiados nas últimas décadas.

Os homens também são afectados por ideais restritos de beleza. Quanto ao aspecto físico, são considerados mais atraentes e mais bem vistos culturalmente aqueles que têm músculo visível e sem barriga, embora não sejam magros. Décadas de exposição mediática aos corpos definidos de celebridades da música, do cinema e da televisão ajudaram a difundir o perfil do homem esbelto, que se tornou o ideal a ser alcançado.

Uma consequência negativa desse esforço por se encaixar nos padrões de beleza da sociedade actual é o facto de que tanto homens quanto mulheres estão a ficar cada vez mais insatisfeitos com os próprios corpos e procurar formas de compensar essa insatisfação, muitas vezes à custa da própria saúde. Entrar em dietas infrutíferas, muitas vezes publicitadas como milagrosas, ir para a academia à espera de resultados imediatos, comprar produtos de beleza sem necessidade ou mesmo submeter-se a cirurgias plásticas em busca de uma perfeição que é igualmente plástica.

Sou de um país no qual a cultura do corpo perfeito é especialmente prevalente, para não dizer perniciosa. O que não falta são dicas de métodos para combater a celulite, clínicas que oferecem cirurgias plásticas e lojas especializadas na venda de suplementos alimentares que, supostamente, facilitam o ganho de massa muscular. Tudo isso são meios para se encaixar nos padrões de beleza artificiais ditados pela sociedade contemporânea. A que custo? Quando essa busca se transforma em uma obsessão que causa danos emocionais ao indivíduo, cruza-se a linha do bom senso.

O comportamento do indivíduo também é alvo de expectativas e julgamento. O exemplo clássico são os piropos que as mulheres consideradas bonitas pela sociedade recebem de certos homens na rua. Por ser bonita, pensam, ela deve-lhes atenção, quem sabe até mesmo favores sexuais. “Basta chegar que ela aceita, certo?” Um pensamento primitivo que gera muito desconforto, para não dizer medo nas mulheres, que temem que essas abordagens verbais tornem-se mesmo abordagens físicas, resultando em violações, ou agressão física, nos casos em que a mulher resiste. Impressiona-me que, em pleno século XXI, não tenhamos superado essa mancha nas relações humanas.

O comportamento afectivo também é centro do olhar julgador do colectivo. Até hoje nunca consegui entender por que razão um homem que dorme com muitas mulheres é considerado, utilizando da minha gíria brasileira, “garanhão” ou “pegador”, enquanto uma mulher que sai com vários homens é condenada socialmente, considerada de “prostituta” para baixo. Esse tipo de julgamento desigual é uma convenção social que permanece, pois não está a ser questionada o suficiente. É uma afronta à liberdade sexual feminina que emerge no contexto de sociedades que não discutem abertamente o tema, ou que têm influência excessiva de dogmas religiosos sobre o comportamento individual.

Citei aqui apenas alguns exemplos, mas em todas as situações sociais, há expectativas, muitas vezes contraditórias, quanto às nossas atitudes. Com todas estas influências (para não dizer pressões) externas sobre nosso corpo e a nossa forma de agir em sociedade, há espaço para a nossa individualidade? Não podemos ter um corpo com o qual nos sentimos confortáveis, mesmo que não se alinhe com o que é considerado “perfeito”? Não merecemos ser tratados com respeito e aceitos da maneira como somos? Somos apenas objectos cujas “imperfeições” precisam ser aparadas de acordo com ideais sociais arbitrários que estão acima de nós? Entristece-me crer nisso.

A atitude do indivíduo seguir o que o grupo estabelece como norma para ser socialmente aceite é parte inegável da nossa natureza. Somos seres sociais, e isso torna complicada a vida de quem não quer (ou não pode) tentar se alinhar a essas normas, mesmo quando se tem a consciência de que são construções humanas e que não são imutáveis. Quero acreditar que somos capazes de evoluir para além de uma sociedade que discrimina, repudia ou mesmo agride quem não faz por seguir comportamentos ou moldes padronizados.

O melhor padrão de comportamento a se seguir consiste no respeito e na promoção da diversidade. É preciso que a sociedade civil, ou seja, cada um de nós, faça o esforço de reflectir até que ponto é saudável instituir padrões corporais ou de valores. Considerar possíveis danos à saúde individual ou ao relacionamento com outras pessoas é, ao meu ver, um parâmetro essencial para essa reflexão. Além disso, é preciso engajar-se numa reflexão individual e colectiva sobre até que ponto é saudável agir como “fiscal” desses mesmos padrões. A minha liberdade termina quando a do outro começa.

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Victor Leôncio

Jornalista de formação, viajante de coração. Nasci no Brasil, mas se me perguntarem, sou brasileiro com costela portuguesa, sangue japonês e influências inglesas. Cidadão do mundo, talvez? Viajar é minha paixão, escrever é meu amor. Gosto de esportes, música, línguas estrangeiras e aventuras, tanto as do mundo real, quanto da imaginação.

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