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CinemaCultura

First Reformed

A magia de uma angústia eterna

Todos nós precisamos de um guia, de uma orientação, de um conforto físico (ou simplesmente intelectual ou metafísico) que transcenda todas as certezas e que, apesar disso, minimize, o mais possível, todas as dúvidas. Andamos todos nós, suponho eu, um pouco perdidos neste mundo onde as ilusões predominam, onde não há espaço para fundamentos invioláveis, para conceitos ou ideias indiscutíveis: todos sabemos por que aqui estamos, alguns pelo menos, mas quase ninguém – se é que alguém – sabe para quê, o fundamento. Precisamos de alguém, ou de algo, que esteja sempre lá, que seja o conforto de sempre, o efeito transformador com que sempre sonhaste, mas que é tão difícil de encontrar. Timing para recordar a célebre epígrafe de Sócrates, “só sei que nada sei”.

Neste filme, um padre (interpretado pelo grande Ethan Hawke), simples e com uma compreensão de ouro, tem, portanto, o dever de espalhar a palavra e de aconselhar os tais “perdidos neste mundo”. Desenvolve, desde cedo, uma relação muito interessante com uma rapariga que apela ao seu conhecimento e sabedoria para ajudar o seu marido (uma espécie de ambientalista ferrenho) a ver uma nova luz na sua vida, inconformado com o degredo e pessimismo que o assiste perante o que espera o planeta nas próximas décadas das alterações climáticas. Toller (Ethan Hawke) percebe desde logo, aquando da conversa com o rapaz, que o vazio (eterno) que por vezes o aflige é um cenário demasiado universalizável para ignorar essa angústia. Toller vai com o intuito de acalmar o rapaz e, apesar do descontrolo emocional que este revela, começa desde logo a desenvolver uma admiração profunda por aquilo em que ele acredita fortemente: temos de salvar o mundo e o planeta.

E é aqui que quero chegar. Nestes tempos difíceis que se avizinham, a que é que é essencial nos agarrarmos? Em que é que nos podemos apoiar para sair da nossa esfera de sofrimentos e angústia e, por vezes, desprezo por nós mesmos? Temos que arranjar a crença inabalável, intransponível, imaculada; precisamos de encontrar o meio termo entre ser e sonhar. No começo, a nossa existência preenche todos os requisitos, e quando começamos a querer mais e mais e mais, é quando escolhemos ser, sentir e sonhar. Importa enfatizar que nós somos o que sentimos, e a nossa essência vê-se na forma como a tua irracionalidade brilha genuinamente pelo mundo. A racionalidade serve, portanto, para nos guiar em conflitos de irracionalidade. Porque, se a irracionalidade é o predomínio de nós, e toda a obra de arte não se explica, como podíamos nós decifrar algo tão belo sem uma skill inacta? A verdadeira magia está precisamente em compreender, ou pelo menos aceitar, tudo aquilo que está acima de nós.

O padre comprometeu-se a escrever um diário durante 12 meses, onde apontaria tudo aquilo que lhe vinha à alma, sem nunca riscar ou reescrever o que quer que fosse. E não é isto que é a vida? É como aquela frase de Charles Chaplin:

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, canta, chora, dança, ri e vive intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Toller vive tempos de angústia e refugia-se na escrita para escamotear possíveis quebras de identidade – a prova que este filme, First Reformed, é um hino à religião, ao amor pela vida e pelos pilares humanos que transfiguram o nosso rumo. Não é um filme que dá palmadinhas nas costas, tem um argumento fantástico e que deixa um vazio a qualquer espectador na forma como fecha a cortina. A título de aparte, atónito fica qualquer espectador ao perceber que Ethan Hawke e o próprio filme estão fora das principais categorias para a grande noite dos Oscars deste mês.

Neste sentido e retomando o tema principal e a questão essencial, todos nós, e isso é inquestionável, ambicionamos atingir uma plenitude intelectual e humana que ultrapasse todas as dúvidas, que seja precisamente aí que encontramos o tal conforto de que falei. Um refúgio interno e interior e pode aí estar precisamente o segredo para uma vida plena e feliz: foca-te no essencial, tu. Tu és a pessoa mais importante da tua vida e tens a oportunidade, o direito e o dever de sonhar. É isso, é exactamente isso que fará de ti alguém acima de todas as tuas expectativas. Porque, importa não esquecer, independentemente de tudo, tu és a melhor versão de ti mesmo e não vale a pena negar tamanha fatalidade. Deus está contigo. Seja(sê) o que tu quiseres (ser).

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Tiago Ferreira

Um jovem sonhador, com uma atitude sagaz e espírito crítico, que gosta de estar a par da actualidade e de, sobretudo, questionar as entrelinhas. Centrando-me no essencial, gosto de acrescentar uma visão muito pessoal às coisas e de, acima de tudo, partilhar a minha verdade. Apaixonado por cinema, devoro literatura — sobretudo fragmentos e poesia —, e a escrita é a paixão primordial desde sempre. O grande desígnio passa por fazer a diferença no mundo através da sensibilidade e humanidade que fazem de mim um poeta da simplicidade.

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