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Finalmente, ligaram as máquinas

Neste momento, o barulho característico das rotativas e o cheiro a tinta fresca nas tipografias do BCE enchem caixotes e caixotes de notas de euros para comprar dívida pública.

Numa tarde fria de Janeiro, o BCE, pela voz do seu presidente, Mario Drahgi, deu um banho de água gelada à chanceler alemã. Na água do banho da senhora Merkel, foram os fundamentalistas da austeridade, neoliberais encartados e outros devotos do “livre funcionamento do mercado”. Neste ramalhete, entre nós, destaque especial para todos os que, no governo, a começar em Passos Coelho, ou nas suas redondezas, fizeram da senhora Merkel uma espécie de santa da Ladeira e da austeridade uma religião.

Neste momento, o barulho característico das rotativas e o cheiro a tinta fresca nas tipografias do BCE enchem caixotes e caixotes de notas de euros. O objectivo é imprimir 60 mil milhões de euros por mês, durante, pelo menos, 18 meses, para comprar aos bancos dívida pública e privada. Não é necessário consultar o manual de instruções para perceber que as medidas anunciadas por Mario Draghi, com início de execução marcado para Março, são a última solução ao alcance do BCE para retirar a economia europeia do poço para onde foi atirada pelos fundamentalistas da austeridade.

A solução imposta pela Alemanha para superar a “crise das dívidas soberanas”, nos últimos quatro anos, lançou a Europa numa agonia sem fim à vista. Uma economia estagnada, sem crescimento visível e a entrar em deflação. As consequências são dramáticas, sobretudo, para os povos do sul, desde a Grécia a Portugal, passando pela Espanha, Itália, ou França, atingindo níveis de desemprego, de empobrecimento das classes médias, de miséria crescente nunca vistos depois da II Guerra Mundial. Por sua vez, o Estado – em muitos casos por razões ideológicas – demitiu-se das suas funções essenciais na saúde, na educação, na solidariedade social. Os vendilhões diziam, então, que tinha de ser assim. Não havia outra maneira. “Não há dinheiro” e “vivemos acima das nossas posses” eram as frases que sustentavam o massacre da austeridade. Quem dissesse – e foram muitos os que o disseram – para o BCE pôr as tipografias a imprimir notas era tido por tresloucado. Quase um criminoso. As medidas agora anunciadas pelo BCE provam que outras soluções eram possíveis e desejáveis para superar a crise da dívida soberana. Só que os talibãs de Bruxelas e Berlim não permitiram. Agora, passados quatro anos, com o sistema bancário desacreditado, com os temores criados a famílias e empresários, estas medidas pecam por tardias.

A Europa está deprimida e dividida. Os povos europeus estão revoltados com os dirigentes políticos que nos conduziram para este lamaçal. O descontentamento e a revolta surgem por todo o lado. Os cidadãos europeus querem mudar os seus representantes políticos. Querem mais transparência, mais democracia, maior participação. Querem mudanças significativas. Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, escrevia há dias: “O problema não é a Grécia. O problema é a Europa. Esta loucura económica não pode continuar para sempre. A democracia não o permitirá”.

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Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de honestidade, cerveja, conquilhas e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância, o autoritarismo e vendedores de banha da cobra. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.

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