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Filho ou carreira?

M. é uma jovem como tantas outras da sua geração. Os pais separaram-se quando ainda era muito pequena e habituou-se a viver, repartida entre duas casas. Nada de complicado. Cresceu a ver como a vida se apresenta, sem paninhos quentes nem palavras doces e começou a fazer as suas escolhas na vida. “Quero ser feliz”.

Estudante aplicada e curiosa, vai traçando o seu rumo com vista ao objectivo final. Levava consigo a força de uma infância e adolescência de saltimbanco e sabia que o futuro poderia não ser o sonhado, mas sim o real e verdadeiro, o que existe. Enquanto estudante universitária encontra o caminho a seguir e tudo se encaixa na perfeição, como num círculo perfeito.

A vida é como um rio e flui ao sabor da corrente. Os afectos, esses pequenos pormenores, são tão importantes e preenchem todas as necessidades. Nem sempre é logo perceptível, mas a vida encarrega-se de chamar a atenção na altura certa, mesmo que se pense que tudo está a ir até ao porto de abrigo que se procura. Como somos ignorantes e distraídos.

Uma carreira profissional é tão gratificante e é a melhor recompensa para o esforço que se faz nos anos frescos da vida, aqueles em que só se deseja que não existam obrigações e que a vida possa ser usufruída sem limites nem barreiras. Ideias tão ingénuas quanto a inexperiência daquilo a que se costuma chamar vida.

Uma oportunidade, daquelas que se anseia a vida inteira, surge. Grande, a chamar por ela, a segredar ao ouvido que é ali que deve ficar, que é o culminar da luta que parecia desigual. Provas, testes e tudo o que possa ser motivo de avaliação é superado. Falta a decisão final, aquele “Admitida” que massaja a alma e faz soltar as lágrimas guardadas para ocasiões especiais.

Instala-se a ansiedade. Os afectos estão certinhos, a rede estabelecida e o ser que a completa, a sua outra metade nunca falha. Tudo está a funcionar como nos sonhos, os verdadeiros e os possíveis. Até que não. A perfeição não existe e as pedras soltam-se no caminho para testar os mais afoitos. Entre pressões e expectativas o corpo decide tomar caminhos seus. Uma gravidez.

Pára tudo! Tanto a acontecer ao mesmo tempo e quando parecia que as peças ficavam arrumadas nos locais certos, solta-se uma que ainda não faz parte do jogo. Que fazer? Prosseguir com o que não estava planeado ou seguir uma carreira? Esta questão não devia nunca ser colocada, mas a sociedade assim obriga. Uma mulher ainda tem que ignorar uma parte sua para que possa ser reconhecida em termos profissionais.

Se a gravidez for avante não será, de todo, contratada e acaba uma carreira antes de ser iniciada. Incongruências de uma sociedade que se diz democrática e não discriminatória. A mulher carrega o filho, mas é somente o receptáculo e não o conteúdo. Como se pode valorizar tanto um espermatozóide e relegar para segundo plano um óvulo? Incompreensível.

Com a alma dorida e o coração apertado, a decisão é tomada em conjunto com o companheiro. Não é a altura certa. Nunca será, mas isso só vai perceber mais tarde, quando a memória a assolar e a consciência lhe fizer ver que tudo tem um lugar. Sem ressentimentos nem complexos, porque a vida está cheia de escolhas e de decisões difíceis de tomar.

Num dia claro tudo se resolveu e foi, supostamente, tapado da mente, com um pano tão transparente que deixava passar a luz da dor. Nada aconteceu e tudo voltou ao normal. Uma forma de contornar aquela montanha de emoções que decide ficar até já ser tão indiferente que não incomoda. Porém, fica e mesmo que não queira está lá pronta a saltar no momento menos oportuno.

“Um dia vai acontecer com decisão, com vontade de concretizar o desejo e vai ser perfeito”. Máxima que se lembra de segredar de quando em vez. Não é justo. Afinal onde está a liberdade de se usufruir do corpo? A mulher ainda é estigmatizada, vista como a cuidadora e não a produtora. Um filho costuma ser feito a dois, mas a penalização é de um só, a mãe. É esta a sociedade que queremos?

Fica sempre a migalha que não consegue ser varrida e deitada fora. A marca está impressa com sangue e por muitas lágrimas que se chorem nunca poderão limpar a mágoa da escolha. Mulher: mãe ou profissional? Não existe a resposta certa, mas sim a que se adapta ao momento. Portugal tem problemas de natalidade e perante estas realidades vai, certamente, permanecer com esse rótulo.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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