Thursday, Jun 29, 2017
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Filhas de um deus menor

O corpo também se avaria, deixa de funcionar em condições e precisa de um especialista. Tal como o carro, que chama pelo mecânico, o corpo humano anseia pelo médico. Não é um bruxo, não faz milagres e não tem todas as soluções. Necessita de auxiliares, de exames que possam chegar a conclusões para elaborar o diagnóstico mais adequado. Quando este chega nem sempre é fácil comunicar ao doente o que encontrou e as palavras podem ser balas que ferem tão fundo como a própria doença em si. Apesar de muitos médicos terem prática nestas situações, será sempre muito complicado informar um doente que é portador de uma doença grave e dos inúmeros tratamentos a que terá de ser submetido.

Após um cenário pouco agradável, mas realista, a doente tem sempre opções e cada uma escolhe a que lhe for menos penosa. Aceitar pode e deve ser o melhor caminho, mas não é, de modo algum, fácil. Sobretudo se esse mesmo caminho implicar um calvário de tratamentos e de alterações na sua vida. É o caso do cancro, aquela palavra que se está a tornar tão comum, mas que continua a não ser entendida correctamente. Receber uma notícia destas não é uma sentença de morte, mas sim um alerta para os tempos que se avizinham. Desengane-se se pensa que pode ter de volta a sua vida no fim do ciclo, porque não é verdade. A sobrevivente é sempre outra pessoa que soube enfrentar medos, monstros e se equipou com super-poderes para conseguir chegar à nova galáxia: a vida.

A maneira como os outros reagem perante a notícia pode ser tão traumatizante como a própria doença. A pessoa está fragilizada e vulnerável, precisa de apoio e não de maus exemplos ou de situações limite. As palavras de conforto são muito importantes e necessárias. Nunca o seu contrário. O choque pode, na verdade, toldar as mentes e os vocábulos que saem das bocas talvez não sejam os mais correctos. Soltam-se disparates que, apesar de bem-intencionados perfuram a carapaça que se coloca para continuar a luta. Muitas das vezes os mais próximos são os que menos cuidado têm na escolha das palavras, muito provavelmente, porque se torna melindroso lidar com algo que lhes custa ou não querem aceitar. A luta vai ter que ser dura e são necessárias todas as armas.

“Cada vez há mais”, “Estás com óptimo aspecto”, “Ninguém diria”, “Não me leves a mal, mas ouvi dizer que os maridos se separam das mulheres que têm estas doenças”, “Já não se morre de cancro”, “O cabelo curto fica-te bem”, “O cancro não dói”, “Até vens a andar, não podes estar doente”, “Estás inchada e não ficas com rugas”, “Ficas mais leve”, “Se fosse uma perna era bem pior”. Tudo isto são pérolas que se ouvem e não apresentam qualquer nexo. Se não consegue dizer nada que não pareça um cliché ou um disparate, fique calado. Esteja presente e ofereça a sua ajuda. Quando se sofre desta doença o que menos se quer ouvir são os lugares comuns. Sabe-se que as pessoas estão bem-intencionados, mas perfuram a alma e fazem sangrar tanto que as poças nunca mais secam.

Ao ouvir a tal palavra, aquela que apesar de vulgar ainda é dita em tom mais baixo, o mundo desaba. O tapete sai dos pés, a cabeça quase que se solta do pescoço, a garganta fecha-se, o estômago revolve-se, as mãos esticam e o coração salta descontrolado. É o meu nome? Ouvi bem? A realidade entra pelos ouvidos e a pessoa fica sem reacção. Vou morrer. A verdade é que todos morremos, de uma ou de outra maneira, mas não somos chamados à realidade como naquele momento. Ainda se associa uma palavra à outra e depois soltam-se as emoções. Interrogam-se, porque foram as lesadas, o que aconteceu para que tal tenha acontecido, a vida vai escorrer entre os dedos, não vão ver os filhos a crescer, não vão ter os filhos que queriam, os casamentos vão terminar e os amigos vão-se afastar.

Se os amigos se afastam é, porque não eram amigos e ainda bem que acontece logo no início, porque se evita gastar energias com quem não as merece, os casamentos navegam em vagas altas e muito tumultuosas, mas são sempre ultrapassáveis, os filhos são o bálsamo necessário para a continuidade e ter acontecido a esta ou aquela mulher é absolutamente irrelevante. Aconteceu e o caminho é tratar e acabar com ele de vez. São estes os momentos chave da vida de cada um e as filtrações que são feitas servem para retirar as lições necessárias. Os amigos vão ser peças chave e a família que sabe amar é determinante. Só interessa quem se interessa.

“Não se morre só de cancro”, “Não sei como tu consegues”, “Estás podre”, “O teu cancro não é como os outros”, “Estás com tão bom aspecto”, “O teu foi dos fracos”, “O do fulano era bem pior”, “Lembras-te do colega tal? Também morreu de cancro”, “Não estás curada? Eu tenho pior aspecto”, “Aproveita o tempo todo para estares com este ou aquele”, “Esse tratamento vai servir-te de alguma coisa?”, “Tanto trabalho para nada. Vais morrer não tarda nada!”, “Não tens vergonha de andar assim careca à frente dos teus filhos?”, ” Não é contagioso, pois não?”. Contudo, a pior de todas é “Cancerosa”. Errado! NÃO SE DIZ! É uma carga muito pesada que a doente já carrega e não há necessidade de a tornar mais dura.

Uma mulher jovem que se vê obrigada a retirar os ovários para salvar a sua vida fica completamente melindrada e assustada com o futuro. Se não teve os filhos que queria sabe que não os poderá ter, pelo menos biológicos. É uma dor que se instala naquele local e continua a chamar a atenção. Algumas acabam por se sentir incompletas e estão no seu direito. Foi-lhes negado algo que desejavam. Esta doença é oportunista e ataca todos os órgãos. Pulmões, estômago, fígado, ovários, útero, mama, sangue. Nenhum escapa e todos podem, aleatoriamente, sofrer a sua invasão. Uns mais visíveis do que outros, mas o que se pretende é a solução, amenizar o mal e controlar a doença. Não fica dizimada nem arrumada, mas controlada. Não existem armários onde se possa fechar, a sete chaves, para não sair, mas a sensibilidade de cada um consegue encontrar um lugar onde fique “esquecida” durante uns tempos.

A taxa de sobrevivência é cada vez maior, mas nada deve ser descurado. Ele continua à espreita, à espera de um pequeno deslize para voltar a agarrar-se com toda a força. Os ombros ficam sempre encolhidos, mas tudo é encarado de modo diferente. Aquilo que era considerado como um dado adquirido ganha um outro valor, uma outra cor e um outro sabor, especial, o da vitória. No caso da mama ainda é mais pertinente, porque é uma parte, um símbolo feminino que desaparece, que é cortado. Instalam-se tantos sentimentos, tantas variantes de negatividade. A rejeição, o desconforto, a insegurança e a ausência de auto-estima prevalecem criando os chamados “macaquinhos no sótão”. Muitas decidem que não voltarão a colocar novos seios, mas outras querem recuperar tudo aquilo a que têm direito. É o seu corpo. Opções legítimas. Novo calvário de cirurgias e tratamentos até à etapa final.

“Mamas novas? Olha que sorte!”, “O que tu fazes para dar nas vistas”, “Pareces ter 20 anos novamente”, “Para que foste fazer isso na tua idade?”, “Só pensas em ti. És mesmo egoísta!”, “Isso não foi doença”, “Estás curada! Com esse corpo não queres é trabalhar!”, “Foi uma crise de meia idade para chamar à atenção”. Nunca, mas nunca repita estas barbaridades, esta espécie de diarreia verbal que sai muito fluída e que se instala nos ouvidos de quem a ouve. Ter cancro é um processo complicado e longo até ficar num ponto em que se possa respirar mais fundo. Essas pessoas não têm noção do mal que estão a fazer. Estão interessados em trocar de lugar para saber qual é a sensação? Parece que não.

A que luta, a guerreira é uma sobrevivente. Engendra armas onde não existem, inventa cenários que são ultrapassados e descobre uma força que não imagina ter. A outra mulher, porque é de mulheres que estamos a falar, a que renasce, é uma estranha que se apoderou dum anterior corpo. Conquista-o e faz dele o que entende. Molda-o, revira-o e no fim é sempre uma pessoa poderosa e fantástica. Saber lidar com efeitos secundários adversos é uma arte que nem todos sabem dominar. O corpo deixa de ser seu para passar a ser da doença, dos tratamentos, dos medicamentos. Tudo se transforma e é uma incógnita que se renova todos os dias.

Todas as que passam por esta dor não saem ilesas. As marcas são medalhas, as fronteiras do possível foram ultrapassadas e sabem que conseguem ir muito mais além. Além da dor. É uma tempestade que arranca tudo o que encontra e, então, é necessário criar outras raízes, outras formas de ter segurança e de bem-estar. Quando amaina, porque nunca acaba, cada uma escolhe o que lhe fica e como lidar com os despojos. Umas renascem em amor, mas outras em maior dor. Dor que nunca vai desaparecer. O certo é que a vontade de ganhar, de vencer é prevalecente e dominante. O estúpido do cancro meteu-se com a pessoa errada e vai ver o que lhe vai acontecer!

“Tem cancro? Que disparate! E não morreu?” Não, não morreu, porque é forte, porque sabe, porque quer lutar e não deixa que certas palavras, que são uns autênticos punhais, fiquem espetadas no coração daquelas que sabem que nenhuma montanha nem nenhum vale é intransponível. A vida surge toda inteira, redonda e perfeita, como se fosse o primeiro dia, o dia da criação, da beleza e da justiça num mundo ideal. Aquilo que existia separado passa a estar unido e o corpo e a alma filosofam sobre o caminho a seguir. A esperança fica sempre ao lado daquelas que caminham no trilho da luz e da lucidez. Nunca mais volta a ser igual, mas afinal o que sabemos nós sobre a vida?

Prosperidade: um fut

margavale21@gmail.com

Licenciada em História e Estudos Portugueses. Sempre fascinada por Literatura e Jornalismo. A escrita é a minha paixão e as minhas crónicas podem ser lidas na plataforma Capazes e Quem conta um conto. Neste momento estão dois livros a acabar de ser escritos. Nunca parar é um bom mote de vida.

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8 COMMENTS
  • Catarina Seixas / 25/05/2017

    Inspira, expira…inspira…expira. Ai minha irmã, há coisas que não se explicam. Sentem-se. Eu que acabo de vir da retirada de tubos e pontos e neste momento não tenho nada no corpo que não seja meu, reitero cada sílaba, cada opinião, cada estado de alma. Bem haja pelas tuas palavras. És a voz de todas nós.

  • Luz Maria Marques Abreu / 25/05/2017

    Revi-me completamente no texto … como soubeste tão bem transmitir os nossos estados de alma. Estava a ler e a ver-nos a todas no texto, independentemente do cancro. Somos mesmo Irmãs do coração.
    Obrigada, Margarida.

  • Antonieta Côrte-Real / 25/05/2017

    Margarida, muitos Parabéns!
    Adorei o teu texto,revi-me em muitas das tuas palavras.
    Só quem passa por esta situação é que sabe bem avaliar, a nossa união é comum por isso somos Irmãs do coração.
    Obrigada,

  • Marta Matias / 25/05/2017

    O quadro perfeito de sentimentos aqui tão bem retratado!! Amei

  • Maria Fátima Santos / 26/05/2017

    Parabéns Margarida, excelente 😊
    Uma realidade que todas tão bem conhecemos.
    Vou partilhar 😘

  • Teresa Medeiros / 26/05/2017

    Parabéns!!!
    Está muito bem escrito!
    Cinco estrelas!
    Há certas passagens das quais me identifico a 100%.
    Beijinho grande 🙂

  • Carla de Sousa Pinto / 12/06/2017

    Dei tempo para acalmar… para ler mais a frio!
    Se calhar nunca vai esfriar!
    Gostei muito. Lamento sabermos tão bem do que falas.
    Beijinhos

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