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ContosCultura

Ficções

Nove e meia da manhã. O corpo, este corpo que ganhou o hábito de ser meu há vinte e oito anos, está ainda separado de mim à espera que eu acorde efetivamente. Chove tanto lá fora. Consigo ouvir daqui a chuva a sovar a rua e o vento de quando em quando a embater contra os estores. Ao meu lado, um molho de cabelos castanho-negro estende-se pela almofada. Ao meu lado, ela enrolada no sono. Apartada do que é real, habita paisagens próprias, perdeu-se de nós, da casa, deste sábado invernoso em que daqui o mundo parece ser, por instantes, só chuva a cair. Tenho a certeza que, neste preciso momento, se esqueceu onde adormeceu, não sabe quem sou, mas vai disfarçar o acordar sobressaltado com um sorriso ténue e um beijo despretensioso. ​Bom dia​, e espreguiçar-se-á enquanto balbucia qualquer coisa sobre o frio e o mau tempo. Sabes, sonhei muito e também eu acordei sobressaltado, há uma ponta de hipocrisia a latejar em mim. No momento em que abri os olhos esta manhã, à tua semelhança, eu não sabia quem tu eras. Na verdade, acho que nunca soube. Não vamos falar disto, é escusado, as minhas incertezas desmanchar-se-iam ao teu primeiro ​porquê?​. De mim para mim, quem sabe se não estou ainda contigo porque perdi a paciência para conhecer gente, manipular os outros e garantir neles um lugar só meu. Por outro lado, pouco me importa se um dia estragares esta nossa rotina e os nossos supostos planos. Fá-lo duma só vez. Avisa e pronto, outros cabelos emaranhados sobre a almofada vão encontrar o seu caminho para junto de mim. É um processo moroso conhecer alguém e chegar até onde chegámos, mas já me habituei. Eu não sei o que realmente quero, e ao que parece todos temos de querer algo e estar completamente certos acerca disso. Lembro-me de falar sobre estes estados de espírito com a médica, só que eu não seguia a medicação à risca e ouvia dela sempre ​oiça, não o quero pôr a dormir, mas se não toma os comprimidos, se não me vem cá dizer o que se passa, não o posso ajudar​. Então, hoje, sábado, quase dez da manhã, dou comigo para aqui entre o acordar e esquecer o que tem de ser esquecido ou fingir-me a dormir e deixar que cá por dentro chova também.

Ela vai ficar ferrada no sono pelo menos mais uma hora ou duas, e eu não me quero levantar por agora, ao menos um corpo quente ao meu lado ampara-me a ansiedade que teimo em arrastar comigo. Prefiro concordar com o que diz a médica, mais vale andar calmo, levar o tratamento até ao fim, tomar os medicamentos e endireitar-me. Por isso, enquanto não acordas, entretenho-me a olhar para o teto e imagino a sertralina a fazer efeito no meu cérebro. Na verdade, pouco percebo disso, lembro-me de ler para o que serve, creio ser um antidepressivo qualquer, e depois há o valproato semisódico, um estabilizador de humor, mais a risperidona no papel de antipsicótico. Quando nos conhecemos, eu tinha deixado de ir às consultas de psiquiatria há quase dois anos. Não é que estivesse bem, mas eu sabia como resolver os problemas, dava sempre a volta às situações. Só não era, muitas vezes, da forma mais correta. A família e os amigos mais próximos diziam ​não pode ser assim​, ​tem juízo​, ​tens de te acalmar​. Só que acabava por passar, eram episódios esporádicos e o dia a dia tratava de me encarreirar. Depois, enfim, conheci-te e fui a correr às consultas, queria tomar o que fosse preciso para isto correr bem. Mas isto o quê? Não interessa, passaram-se anos, não vale a pena ir buscar ao fundo da cabeça todas as dúvidas e desconfianças, antes quero empurrá-las para os recantos da memória. No fundo, nós, esta casa, a cama, as estantes, o quarto, a cozinha, a sala, este sábado, a chuva lá fora, a nossa rotina, são tudo ficções. E a nossa ficção tem corrido bem, eu tento calar-me o mais possível, tento não errar nos gestos e no tom das frases necessárias, não uso palavras a mais, há dias até que me limito a observar. Em algumas pessoas, isso acontece na velhice, resignam-se ao que são e ao que foram e ao abismo no meio disso e pronto. No meu caso, passou apenas por aprender a gostar dum certo tipo de silêncio.

Há quanto tempo estamos juntos? Não te conheço, tenho uma estranha aqui deitada ao meu lado e tu tens um estranho ao teu lado. Passaram-se anos e apesar de nos termos aguentado juntos nesse tempo, somos espelhos distantes e turvos um do outro. Não tem mal. De certo modo, é interessante. Como é que duas pessoas se mantêm juntas neste jogo-sufoco, sem deixarem a bola cair, quando nos conhecemos houve alguém que mandou a bola ao ar e agora ela não pode tocar no chão. Vamo-nos safando. Eu é que me preocupo demais. Se não há nada para dizer, isso não deveria ser desconfortável, mas parece que tem de haver sempre alguma coisa a dizer, alguma coisa a fazer.

Estou relativamente confortável aqui deitado. Contudo, imóvel para não te acordar. Nem sequer te olho diretamente para não saberes que já acordei. Preciso destas alturas de silêncio enquanto sei que estás aqui mas não me dizes nada, e não é preciso, estou bem assim, a sério, eu estou bem, tens o sono pesado, deambulas por aí num lugar só teu, vislumbras futuros paralelos, e eu gosto de ti assim, longe, no vai e vem do sono enquanto estás aqui ao pé de mim.

Vou tentando montar nas ideias o teu acordar. Antecipo-me só para poder relembrar-me de que tenho razão quando penso que és previsível. Como já disse, talvez apenas abras os olhos e nesse momento, pressentindo-me acordado, sorris, espreguiças-te e dizes ​bom dia ​por entre um bocejo longo, ou então apenas um j​á estás acordado?. Também pode ser que acordes e de olhos semicerrados vejas as horas no despertador, dizes ​ainda é cedo​, ​vamos dormir mais​, e acabo com a tua cabeça encostada ao meu peito enquanto olho para o teto até adormecer de novo também tentando esquecer o desconforto e o braço dormente. Porém, sendo sábado, estando a chover tanto lá fora, não sabendo o tempo o que fazer de si, adivinho-te a acordar mas não a abrir os olhos, até que te vais aproveitar do facto de estares de costas para mim, vais aproximar-te do meu corpo e, demorada e pérfida, vais chamar-me para o meio dos nossos rituais e danças de cama ao sábado de manhã. Nessas alturas, espreito discretamente sobre ti, consigo sempre ver-te a morder o lábio, o canto da boca arqueia em sorriso viperino. Fico com a sensação que não abres os olhos de propósito e deixas-nos ir, sem palavras, para o epicentro destes nossos fogos matinais porque sabes que preciso de tempo e espaço para pôr a minha máscara e dizer a mim mesmo ​é hora de ser outro eu​. E tudo isto se passa até eu tomar as rédeas do assunto e qualquer pessoa sabe o que vem a seguir. No fim, penso apenas, ​isto é ridículo​, ​o que é que eu estou aqui a fazer​?

Nessa manhã, levantámo-nos por volta das onze e meia. (Meu deus, isto é horrível, só faltou começar com ​querido diário​.) Foi o habitual. A televisão da cozinha murmurava qualquer coisa, notícias e anúncios sobretudo, tu entraste a arrastar os pés, desgrenhada e de roupão cor-de-rosa e eu agarrado ao café e cigarros à janela a olhar para um gato gordo laranja esparramado numa marquise dum prédio em frente. Começo a compreender e a aceitar que a vida inteira gira à volta disto, de janelas, gatos, cafés, roupões cor-de-rosa, notícias repetidas até à exaustão. Tenho de me preparar. Mais hora menos hora ela vai perguntar-me ​o que vamos fazer hoje? E eu não sei, juro que não sei. Aliás, eu detesto ter esse tipo de responsabilidades, porque mais tarde vêm à tona amargos e enjoados ​tu é que sugeriste ou ​tu é que quiseste​. E eu não quis nada, eu nunca soube sequer o que querer. Se me deixasses em paz, se eu me deixasse em paz, só me meto em vidas destas, e eu não queria, juro que não. A minha geração é insuportável. Eu sei lá o que vamos fazer hoje, se me deixares a casa em sossego eu agradeço, de resto podes ir à tua vida.

Claro que engulo tudo isto, os dentes serram-se para sorrir ligeiramente, ponho uma cara de inocente aparvalhado, ​hoje?​, ​não sei​, ​não tinha pensado em nada​, ​se calhar ficamos ​aqui por casa ou diz-me tu​, ​o que te apetecia fazer?​. É isto, deixar nas mãos dela as decisões que ela quer que eu tome à força, às vezes tenho jeito a fingir que vou com a maré.

Mais tarde, na televisão, alguém estava a apresentar um livro sobre espiritualidades baratas, algo relacionado com autoajuda, nada de novo. Fiquei-me a ouvir. Por instantes pensei se essa não seria a solução para mim, um novo eu, cheio de luz e paz interior, pronto a enfrentar os solavancos da vida. Por fora, estava apenas a ouvir o que a televisão palrava, ia encolhendo os ombros e murmurando coisas azedas, concordo mas não quero concordar, e isto enquanto tu roías os cantos de uma torrada a escorrer manteiga. Isto é belo. Quem sabe se a arte da autoajuda não passa por reconhecer a beleza e santidade do que nos rodeia. Então perguntaste-me, ​acreditas em Deus?​, ou talvez tenha sido só, ​acreditas nestas coisas?​. Procurei um cliché daqueles certeiros nos bolsos, ​acredito em algo superior nós​, ​sim​, ​chamem-lhe universo ou Deus ou o que quiserem​. Mas podes tirar o cavalinho da chuva, não te vou dar as minhas ideias de barato, nem sequer me irias entender. O que responderias se te dissesse, em relação às minhas crenças, já acreditei em mim​, ​agora não sei​, ​e onde estará Deus a esta hora?​

Nesse sábado à noite, encontrámo-nos com antigos amigos num típico bar-e-restaurante aqui ao pé de casa, um sítio de mais ou menos bom gosto, jantámos lá muitas vezes quando nos estávamos a conhecer, juntámos os amigos de cada um nessa altura, depois alguns afastaram-se e não sei nada deles agora, ficaram uns poucos, e parecia-me ressoar um ​somos poucos mas bons!​. Que enjoo. Fomos todos jantar, porque a Mariana fazia vinte e sete anos. Há tanto tempo que não punha a minha máscara própria para jantares de amigos, nem é uma máscara sequer, passa mais por pintar a cara, passo a noite a ser o palhaço de serviço. Lá dentro, hambúrgueres e guarnições cobertas de molhos pastosos passavam em bandejas pretas que refletiam em contornos arredondados as luzes do bar, a mesa de snooker, as paredes escuras, etc. Sentados ao balcão, uns quantos homens e mulheres soltavam risos estridentes, os olhos deles não estavam sintonizados. Entretinham-se em bebida atrás de bebida enquanto, tal como nós, esperavam por mesa. Os poemas que tentei escrever há uns anos supostamente eram contra, mas também para estas pessoas, os que estão aqui a jantar, os pais, os filhos, os casais, os empregados, o ​barman​, o gerente. Nada disso me interessa agora. Cheguei a publicar um livro de poesia uma vez, aos vinte e dois anos. Meses depois rescindiu o contrato, o livro não prestava. Nem eu mais tarde consegui perceber o que aquilo queria dizer. As pessoas têm medo das palavras em ordem diferente da ordem das palavras ditas por necessidade. Incluindo eu. Também eu tenho agora medo de quase todas as palavras.

As raparigas do grupo, estávamos nós à espera por mesa, lembraram-se que se tinham esquecido de qualquer coisa no porta-bagagens do carro, provavelmente a bugiganga que tinham arranjado para dar como prenda à Mariana. Eram, sei lá, oito e tal da noite. Ficaram três de nós a falar na entrada do restaurante, à espera de mesa e à espera de quem ainda faltava chegar. Alguém me perguntou ​como estão as coisas com a Inês?​. ​Está tudo bem​. Não foi o que queriam ouvir, bem sei, e nem sequer esperavam traições ou grandes escândalos, só um ​vai-se andando chegava para alegrar toda a gente, estamos todos na mesma, ​pois vai-se andando​, ​elas são complicadas​. Nestas alturas fala-se muito do que é ou não típico de cada género. Como esta noite sou outro eu aqui, alinho em qualquer conversa que me atirem para cima. Aposto que quando elas foram ao carro, a Inês aproveitou para falar de mim, ele faz isto, aquilo, há dias que parece amorfo​, ​parece que não quer saber de mim​. Talvez não queira, de facto. E só não saio lá de casa nem sequer é por cobardia, estar sozinho custa mas é uma questão de hábito, e qualquer coisa duplicava a dose dos medicamentos, nem me ia custar. Não saio, ou melhor, não fujo dali porque és a melhor que me aturou nestes anos, e até te acho piada, quando estou bem, quando estou normal, acho até que o melhor é aguentar o barco e logo-se vê se vamos chegar a bom porto. Devo estar a amolecer.

Jantámos e várias gargalhadas foram estalando o ar inebriado e fumarento. Alguns apagavam as beatas em restos de gordura nos pratos ou nas chávenas sujas de café. A vida de uns e outros foi posta em dia, o que andávamos a fazer, se nos mantínhamos nos mesmos trabalhos ou não, se se mantinham os mesmos interesses e hobbies​, como tinham sido as viagens de alguns no verão, novas dietas e estilos de vida, quem tinha deixado quem, os desaparecidos em combate o que era feito deles, ​acreditam que o vi há dois meses já com outra namorada?​, ​vi-os a jantar perto da casa dele!​. Falou-se de um tipo que tinha ficado no carro a noite toda à porta do prédio da Mariana, um ex-namorado qualquer obcecado.

Não posso dizer que esteja completamente farto de pessoas, mas estou farto destas conversas que, por muito surpreendentes que pareçam, vão sempre dar a meia dúzia de risos ou caras falsamente espantadas, e a seguir vamos todos para casa tomar conta do vazio do costume. Porém, a certa altura dei-me conta que, no meio daquelas conversas, algo era indiscutivelmente verdadeiro, havia ali uma ponta de genuinidade. Eu percebi que estavam a vir à tona sentimentos reais, irritações… comecei a divagar, como se estivesse noutra mesa e não pertencesse ali, e isso de certeza que passou para a minha expressão e a Inês conhece-me há demasiado tempo para o perceber facilmente. Soube que assim que voltássemos para casa eu ia ouvir ​estavas chateado?​, ​passa-se alguma coisa?. E eu apesar de sempre ter dito não, ​está tudo bem​, não me apetecia mentir, mas sei que ela não tinha um lado emocional-literário ou abstrato para entender o que eu lhe queria realmente dizer. Talvez diga apenas isto passa​, ​estava só cansado​, devo estar a ficar doente ​. Perdi a conta a gripes e indisposições e cansaços que inventei. Eu vi-me muitas vezes como uma espécie de pilar, uma torre, um garante da nossa ficção. Era eu quem mentia e atuava, eu que punha as máscaras, eu que regulava as emoções conjuntas. Contudo, isso é capaz de ser mentira. Do teu lado é provável que vejas as coisas de forma semelhante, só não estás tão ciente disso quanto eu. Ou talvez até estejas. A verdade é que, duma forma ou doutra, lá nos entendemos.

– A Mariana está com melhor aspeto, reparaste? Não estou habituada a vê-la assim.

– Mhm.

– Mas ainda bem, gostei mesmo de ver que ela está bem. Finalmente está a recuperar do que o outro sacana lhe fez. Não bastava morrer-lhe a irmã há uns anos, e depois ainda tinha de lhe calhar aquele filho da mãe.

– Mhm.

– Estás cansado?

– Mhm, tenho de ir ver se durmo.

– No final do jantar estavas estranho, passa-se algo?

– Não. Está tudo bem.

– Vou tomar banho antes de me deitar, estou a precisar. Vens?

– Mhm.

Enquanto ela faz isto, isto que não tem um nome específico, não é provocar, é só tentar, tentar agitar as águas, como se dá bofetadas ao de leve a um desmaiado, acorda!​, ela tenta que sejamos o que éramos e isso irrita-me, é tão banal. Enquanto ela se perde nessas tentativas inocentes, (​eu tentei​, tu sabes que eu tentei​), e se afasta para sair do quarto, eu fico a suspirar, reviro os olhos, os meus dedos e a minha mão formam uma arma imaginária, apontada à cabeça, à boca, ao pescoço… sou tão dramático e exagerado. Mas e se eu morresse? Não digo hoje, mas se eu experimentasse morrer um dia destes, morrer a sério?

Uma voz no quarto, ​onde é que isto nos vai levar?​

Quando voltarmos do banho, vamos ser tantos aqui neste quarto. Eu, tu, aquele que tu achas que sou, aquela que eu acho que és, aquele que eu acho que sou, aquela que tu achas que és. Enfim, ficções, ficções sempre.

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Afonso Castro

Nascido em 1996; estudante de Direito; feroz apreciador de bitoques e grelhadas mistas; leitor incondicional dos livros de Jack Kerouac; e praticante da filosofia "A Vida É Um Livro do Bukowski".

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