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[Fevereiro] Diga Bom Dia com a Rádio

Com as palavras “Olá, daqui Nova Iorque a chamar”, a Voice of America (VOA), uma rádio norte-americana, começou as suas transmissões para a União Soviética (URSS). Com a Guerra Fria a desenvolver-se a pleno gás, os responsáveis norte-americanos estavam conscientes de que as populações das catorze repúblicas anexadas ao lado comunista do mundo eram o lar de um grande ressentimento nacional para com os seus governantes de Moscovo. Por essa razão, o Departamento de Estado decide iniciar as transmissões da VOA nas línguas faladas nos países do Cáucaso e na Ásia Central, onde a visão distorcida da sociedade e da cultura americana poderia ser combatida com uma aproximação às minorias dessas regiões nas suas próprias línguas. Este esforço fez parte da campanha de propaganda dos Estados Unidos da América contra os seus inimigos ideológicos, durante a Guerra Fria.

“There are many people in the world who really don’t understand, or say they don’t, what is the great issue between the free world and the Communist world. Let them come to Berlin. There are some who say that communism is the wave of the future. Let them come to Berlin. And there are some who say in Europe and elsewhere we can work with the Communists. Let them come to Berlin. And there are even a few who say that it is true that communism is an evil system, but it permits us to make economic progress. Lass’ sie nach Berlin kommen. Let them come to Berlin.”

 (John F. Kennedy)

A VOA começou a sua transmissão para fora do território norte-americano em 1947, com o objectivo de explicar as políticas dos EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, e para transmitir apoio aos seus aliados espalhados pela Europa, pela Ásia, pelo Médio Oriente e por África. Quando a guerra terminou, esta rádio continuou as suas transmissões como forma de arma de propaganda direccionada, especialmente, para a audiência da Europa de Leste, nos anos da Guerra Fria. Em Fevereiro de 1947, a VOA começou as suas primeiras emissões em russo directamente na URSS, dando uma visão aos seus ouvintes comunistas da vida que é possível ter nos EUA, através da música, de novas histórias e de uma presença mais humana na comunicação. Deste modo, atingia-se o seu grande propósito de dar aos ouvintes russos a “genuína e inadulterada verdade” sobre a vida fora da esfera comunista, na esperança de que as linhas de entendimento e de amizade entre os dois extremos da Guerra Fria aumentasse.

“We are living in an age when communication has achieved fabulous importance. There is a new decisive force in the human race, more powerful than all the tyrants. It is the force of massed thought-thought which has been provoked by words, strongly spoken.”

(Robert Sherwood)

Os primeiros programas a irem para o ar lidavam apenas com pequenos sumários dos principais eventos a ocorrerem no mundo, eram feitos debates sobre o orçamento e as políticas norte-americanas e era feita a análise a uma nova substância química sintética chamada de Piribenzamina. No que toca a música, esta estação de rádio tinha um alinhamento muito ecléctico, passando desde Turkey in the Straw a Night and Day, de Cole Porter. De entre os primeiros colaboradores, encontra-se o diplomata Charles Thayer e Kathleen Harriman, filha do ex-embaixador dos EUA na União Soviética, Averell Harriman. Curiosamente, Thayer acabaria por ser dispensado dos seus serviços para o governo norte-americano, durante a caça às bruxas levada a cabo pelo senador McCarthy.

“A high-level government agent was arrested today for selling secrets to Russia. They now have all of the exact locations of our back-to-school headquarters.”

(David Letterman)

Em 1952, a Voice of America criou um estúdio a bordo de um navio da guarda costeira dos EUA, rebaptizado de Courier, para poder combater os efeitos que o clima deixava nas transmissões dos seus programas. Apesar deste navio ter sido convertido em estação de rádio sobre os mares, tal como a estratégia norte-americana pós-Segunda Guerra Mundial estipulou, o Courier acabaria por atracar no porto de uma ilha na Grécia, para evitar ser considerado de rádio pirata. Esta sucursal da VOA esteve em funcionamento até à década de 60, altura em que foram construídas instalações na ilha com o apoio dos engenheiros responsáveis pelas emissões no Courier e marcando o início da construção de várias estações da VOA pela Europa. Estes avanços logísticos, aliados aos avanços técnicos das transmissões por satélite, permitiram uma melhoria no alinhamento de programas, durante o fim da década de 50 e toda a década de 60, com um maior destaque a ser dado ao Jazz norte-americano, que começava a ser muito popular a nível global. Por exemplo, todas as noites eram reservadas duas horas para este género musical, para além da criação de programas especiais, como o The Newport Jazz Festival, sendo que todas estas estratégias de programação estavam alinhadas com as tours de músicos patrocinados pelo Departamento de Estado norte-americano – os Dizzy Gillespie, Louis Armstrong e Duke Ellington, para nomear alguns.

“American foreign policy was a mirror image of Russian foreign policy: whatever the Russians did, we did in reverse. American domestic policies were conducted under a kind of upside-down Russian veto: no man could be elected to public office unless he was on record as detesting the Russians, and no proposal could be enacted, from a peace plan at one end to a military budget at the other, unless it could be demonstrated that the Russians wouldn’t like it.”

(Archibald MacLeish)

As audiências da Voice of America melhoraram ao longo dos anos, principalmente por causa do papel proeminente que a música ia tendo no alinhamento de programas da estação. Cientes do apetite quase insaciável que as populações da União Soviética tinham pela música norte-americana, em particular pelo Jazz, os dirigentes dos Estados Unidos da América investiram na expansão das suas transmissões de rádio e, deste modo, continuarem a partilhar com o resto do mundo o estilo de vida americano. Actualmente, esta rádio continua a ser transmitida, na maioria dos casos através da Internet, e mantém vivo o seu objectivo original, principalmente, com as suas transmissões para Cuba, onde ainda reina o comunismo.

“Goooooooood morning Vietnam! It’s 0600 hours. What does the “O” stand for? O my God, it’s early! Speaking of early, let’s hear it for that Marty Lee Drywitz. Silky smooth sounds, making me sound like Peggy Lee…”

(Robin Williams)

Foi desta forma tão simples que o piloto transformado em DJ de rádio, Adrian Cronauer, conquistou a fama na rádio militar transmitida em Saigon, corria o ano de 1965, no filme Good Morning Vietnam. Até à sua chegada, os militares destacados para esta zona do globo só podiam ouvir os instrumentais de Paolo Mantovani e de Percy Faith e informações sobre como conseguir tirar livros da biblioteca do exército, num ciclo vicioso que era interrompido, de vez em quando, por informações relacionadas com cuidados de saneamento. Esta programação é o reflexo da realidade em que estas tropas vivem, cinzenta e sem Sol, neste local que é sentido como sendo o fim do mundo. Contudo, em poucos dias à frente da rádio, Adrian Cronauer torna-se na maior e mais controversa personalidade no Vietname, ao retirar do seu alinhamento tudo o que fosse de Mantovani, Percy Faith, Bing Crosby e Perry Como, que foram substituídos pelo lamento rouco e pelas urgentes insinuações de James Brown, Martha Reeves and the Vandellas e Wayne Fontana, entre outros. No meio destes blocos musicais, Cronauer aventura-se pelas paisagens da sua mente excêntrica e aborda temas como o sexo, o drama que são as previsões do tempo num ambiente tropical, as funções de determinadas partes do corpo, o regulamento do exército, as questões políticas que mais lhe interessam e discorre sobre o presidente norte-americano da altura, Richard Nixon. Por vezes, ele conduz entrevistas com personalidades que habitam o lado mais louco da sua mente, incluindo um designer de moda do exército que não concorda com a escolha do tecido usado nos uniformes de camuflagem e questiona a razão que impede que se usem tiras com um padrão axadrezado, quando se vai para o campo de batalha.

“I just want to begin by saying to Roosevelt E. Roosevelt, what it is, what it shall be, what it was. The weather out there today is hot and shitty with continued hot and shitty in the afternoon. Tomorrow a chance of continued crappy with a pissy weather front coming down from the north. Basically, it’s hotter than a snake’s ass in a wagon rut.”

(Robin Williams)

O seu programa é muito apreciado pelos restantes membros da estação de rádio e, principalmente, pelas tropas norte-americanas que o ouvem e ficaram conquistadas pelas tiradas cómicas que constrói, o seu humor político controverso e as sessões de Rock que põe no ar. O único problema é que a estrutura que o programa tem não vai ao encontro das expectativas que dois dos seus superiores têm para a rádio, ficando furiosos com o comportamento inconvencional e imprevisível do apresentador do programa matinal. Porém, enquanto está a viver no Vietname, Adrian Cronauer descobre uma nova forma de viver e fica fascinado com a beleza das mulheres vietnamitas, chegando a tentar conhecer uma, mas não o consegue fazer, por causa das diferenças culturais e de valores que os separam. Aliás, estes são os pontos fulcrais neste filme e sobre os quais toda a acção se desenvolve, ao demonstrar dois níveis dispares de diferenças culturais.

“You know, you’re very beautiful. You’re also very quiet. And I’m not used to girls being that quiet unless they’re medicated. Normally I go out with girls who talk so much you could hook them up to a wind turbine and they could power a small New Hampshire town.”

(Robin Williams)

O primeiro nível de diferença cultural ocorre entre Adrian Cronauer e os seus superiores no exército, já que ele não se revê nas regras impostas pelas autoridades responsáveis em Saigon. De facto, Adrian coloca no ar músicas que não foram aprovadas e faz piadas sobre os militares e o presidente norte-americano, algo que é absolutamente intolerável para os seus superiores, o Tenente Steve Hauk e o Sargento Dickerson. Para eles, apesar do seu papel ser o de animar as hostes militares, o DJ é demasiado inconvencional para ser controlado, principalmente, quando sente que está a fazer o correcto, altura em que diz e faz o que pretende, mesmo que não tenha a validação para tal. Exemplo disso é o momento em que decide relatar uma notícia censurada pelos seus superiores sobre uma bomba que explodiu, já que foi testemunha do acontecimento. Por essa razão, o principal apoio que tem provém dos seus colegas na rádio e dos soldados que o ouvem diariamente.

“Gooooooooood-byyyyyyye Vietnaaaaam! That’s right, I’m history… I’m outta here. I got the lucky ticket home, baby. Rollin, rollin, rollin’… keep them wagons rollin’, rawhide! Yeah, that’s right… the final Adrian Cronauer broadcast… and this one is brought to you by our friends at the Pentagon. Remember the people who brought you Korea? That’s right, the U.S. Army. If it’s being done correctly, here or abroad, it’s probably not being done by the Army.”

(Robin Williams)

O segundo nível de diferença cultural ocorre na interacção entre homens norte-americanos e as mulheres vietnamitas, que têm como elemento base na sua cultura a noção de respeito e, portanto, não admitem a confraternização entre os dois géneros. É interessante analisar a dinâmica entre estas duas culturas nas aulas de Inglês que Adrian dava aos vietnamitas, em que, numa ocasião, questiona como iria reagir um americano e um vietnamita, se fosse entornada sopa na roupa nova de cada um. Segundo ele, um americano iria ter uma reacção agressiva, recorrendo a asneiras para demonstrar todo o seu desagrado, enquanto que um vietnamita não iria demonstrar nenhuma reacção emocional. Ele confirma esta tese, quando questiona Wil, um velho vietnamita, que lhe responde que, caso se encontrasse nessa situação, não iria fazer nada e manter-se-ia impávido.

“Oh, I don’t know. There are plenty of things I can think of. Maybe go downtown and try to find a Vietnamese man named Phil.”

(Robin Williams)

Apesar do seu professor ser muito diferente deles, os vietnamitas ficam muito contentes por terem Adrian como professor de inglês deles. Com ele, aprendem muito sobre as diferenças que a cultura americana tem da deles e até chegam a realizar um jogo de basebol contra os militares americanos, planeado por Adrian. O importante deste jogo foi o facto de que pessoas de duas culturas diferentes trabalharam em conjunto para um bem comum. Todos participam neste jogo, americanos e vietnamitas a jogarem juntos, a aplaudirem juntos e a apreciarem o tempo que estão a passar juntos. É possível notar que a população local aprende muito com o seu contacto com Adrian e que este também aprende muito com eles. Neste contexto, é importante referir que Good Morning Vietnam ensina-nos que as diferenças entre cada um de nós não é algo que nos separa, mas que é antes algo que nos une e que nos torna especiais.

“Thank you for the lovely tune, that funky music will drive us till the dawn. Let’s go, let’s bugaloo till we puke!”

(Robin Williams)

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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