CrónicasSociedadeSociedade

Feridos de Morte

Desde o início do mês, nos Estados Unidos da América, surgiram mais notícias de tiroteios e de acidentes relacionados com armas de fogo. Ontem mesmo, enquanto almoçava, vi incrédulo a notícia de um menino de 11 anos que matou a tiro uma menina de 8 anos porque ela não lhe quis mostrar o cachorro.

No passado dia 2, no seguimento de mais um tiroteio, Barack Obama veio a público alertar para um verdadeiro flagelo no país, lembrando que as armas de fogo matam mais pessoas do que os ataques terroristas, algo que não é difícil de compreender nem nos deixa surpresos. O problema real é que não estamos só a falar de armas de fogo, nem sequer só dos Estados Unidos da América, estamos a falar de uma onda de violência global que afecta as camadas mais jovens das populações e que precisa de uma reflexão séria, importante e dedicada.

Há muito que refiro que precisamos de olhar para as crianças, para os jovens e para as famílias, que cada dia mais demonstram uma descompensação emocional profunda, derivada de uma enorme desresponsabilização que pode ter (já está, na verdade) consequências muito devastadoras. Não falamos só do reflexo de falta de condições económicas, pois essa é apenas uma das franjas do problema, mas sim da necessidade de revermos muitos dos nossos conceitos sociais.

Para além do que tantas vezes refiro, da necessidade de darmos mais atenção às nossas crianças, dum despachar constante e duma falta de paciência que, infelizmente, ainda existem, “desculpados” com as preocupações financeiras, com a falta de apoios e tudo o resto que bem conhecemos, precisamos de ser mais honestos connosco e compreender que existem diversos pontos a ter em conta. Somos permissivos no facto de termos crianças muito novas a lidarem com jogos, verem filmes e acederem a vídeos na Internet e a sites com níveis de violência excessivamente elevados. Podemos alegar que os miúdos são mais ligados às tecnologias, sem dúvida, mas cabe-nos a nós saber o que lhes queremos transmitir como valores.

Na cabeça de uma criança, matar um inimigo torna-se algo banal, destruir torna-se simples, e isso reflecte-se no adulto que irá ser, que espera facilidades, que constrói na sua cabeça um enredo de uma vida e não consegue criar um raciocínio, um pensamento lógico e construtivo. Ao crescer, essa criança vai lidar com as realidades da sociedade, nomeadamente as dos ideais, e torna-se mais permeável a extremismos sem nexo, nomeadamente os religiosos. Tudo isso, simplesmente, porque não fomentámos a responsabilidade, o raciocínio e, acima de tudo, o amor ao próximo, o sentimento de união, de partilha, de cuidado. As crianças mais emocionais tornam-se vítimas, maltratadas e desconectadas do mundo que as rodeia e, sem uma vivência familiar mais sólida, com amor e cuidado, tudo pode decorrer para o que vemos em cada dia.

Para além disso, não nos poderemos esquecer do óbvio, que é, sem dúvida, um problema do sistema norte-americano, mas também é nosso, o do acesso a armas de fogo e o do fomento do seu uso, do fascínio pelo poder que, teoricamente, elas nos dão. Se quisermos ir mais longe, pensemos que é precisamente esta a indústria que nos coloca, em cada dia, no mundo de guerra, de ódio e de estupidez de guerras e destruição em que vivemos. Um negócio, uma economia que vive e cresce da morte e da destruição é talvez o pior que temos enquanto seres humanos e que cabe a nós travar tal coisa. Não podemos continuar a fugir ao cerne da questão e a tentar pôr “paninhos quentes”, se não queremos que seres humanos matem outros, se não queremos que tiroteios aconteçam em escolas, hospitais ou outros locais, então devemos trabalhar a génese do problema, a necessidade de alimentar a aceitação, a inclusão, a tolerância, o amor ao próximo, a partilha, a ajuda e, acima de tudo, o respeito, pois essas são, primeiro e principalmente, as nossas feridas sociais, as nossas feridas de morte.

Tags
Show More

Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: