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ContosCultura

Falar com ela

– Dizes-me sempre que nós não funcionamos.

– Sim, é verdade. Sabes porquê.

– Amanhã é sempre longe demais.

– Simples teoria, não tentes simplificar.

– Nada disto é simples. Nem complexo. Não é fácil nem difícil. És tu e tu é tudo.

– Nunca consegui perceber todo esse sentimento que dizes ter por mim.

– Nunca perguntaste.

– Não tenho que.

– Eu sei que não.

Silêncio entre olhares que falavam. Ele continua.

– Tenho uma recordação que me ficou tatuada na linha do tempo. O dia em que te conheci. Estava a ouvir-vos, ainda não nos falávamos. Perguntavas “loira ou morena?” e esperavas a resposta. “Alta ou baixa?”, “atlética ou elegante?” Naquela parafernália de clichés eu construía a cada resposta uma imagem que a tudo correspondia ao meu ideal de beleza. Formei em instantes a mulher mais bela entre as mulheres. Quando terminaram e eu acordei de tal exercício, vi essa pessoa que acabara de idealizar. Estava na minha frente. Eras tu.

– Não será um exagero afirmares eu ser a mulher mais bela entre as mulheres?

– É provável que sim mas fica a verdade de que tu és o meu ideal de beleza e isso não está ao teu alcance de negares porque é algo muito íntimo meu.

– Falas do físico, de uma grande atracção. É muito diferente do que me dizes.

– As grandes paixões nascem com o encantamento. É claro que o tempo zero desta história foi uma fortíssima atracção física que me fez querer ter-te na minha existência. Mas qual Big Bang, do zero deu-se uma violenta explosão e uma constante expansão. Do nada surgiu algo tão maravilho como o universo. Surgiu uma paixão que nunca mais deixou de se expandir com o que de ti fui conhecendo, descobrindo e sentido. E mais importante foi a forma com alteraste a minha vida desde esse dia.

– Nada fiz para isso ser verdade.

– Fizeste só que nunca deste por isso. A verdade é que ajudaste-me a escrever melhor. As tuas opiniões honestas, as tuas críticas frontais, as tuas apreciações foram todas elas o maior impulso que alguma vez tive para escrever. O peso das tuas palavras em mim são brutais.

– Apenas te dei opiniões conforme me pediste.

– E essas opiniões melhoraram-me. Não há maior impacto que esse numa pessoa!

– Tenho dificuldade em ver isso.

– Não precisas de o ver. Não fazes nada mais senão existir. Repara que uma simples opinião revelou todo um lado diferente da minha escrita que até eu desconhecia. Tu soubeste vê-lo e revelaste-me algo novo sobre mim próprio. Influenciaste-me de uma forma mágica. Importância e influência são duas palavras juntas que por não o saberes revelam o que tens sido para mim. Não poderás nunca compreender porque nada fazes senão existir para que isto seja uma realidade.

– Recuso-me a acreditar que eu seja isso tudo apenas com simples opiniões.

– Estas opiniões tornam-te em alguém extremamente importante para mim. Fazem de ti a minha musa. Não é o que dizes a mim, mas o que eu ouço de ti. Cada palavra que dizes, a forma como as dizes, a pessoas que és, o espaço que ocupas na minha vida.

– Musa? Não quero ser um tema para ti.

– Não és. Uma musa não é aquela pessoa em quem alguém se inspira. Uma musa é aquela pessoa que só por existir na vida de uma pessoa fá-la ser Mais do que já era. Ninguém escreve sobre uma musa. Eu não escrevo sobre ti, não é para ti que escrevo, não é por ti que escrevo. És tão só a razão porque escrevo.

– Estás-me a endeusar e eu sou muito humana. E falaste-me de amor, de paixão e ainda não vi como tal pode caber numa conversa em que o tema somos nós dois.

– Ao mesmo tempo que foram acontecendo estes invisíveis sentimentos, fui conhecendo essa pessoa que és. Ainda que pouco conheça do teu íntimo, não foste capaz de esconder a pessoa belíssima que és. A forma verdadeiramente extraordinária como sempre lidaste comigo. A magia que espalhas na distância que mantens entre nós e na forma como procuras manter essa distância, não me deixando aproximar em demasia, mas sem que corra o risco de ficar longe ao ponto de deixar de sentir o espectro da tua pessoa. Assim consegui apreender a tua forma de sentir a vida e a tua arte de seres vida para mim.

– Tenho muitos defeitos.

– Isso é perfeito porque te torna humana e permite-me admirar-te como pessoa. Além de me ter apaixonado por ti!

– Que foi essa perda de sorriso tão rápida?

– Cometi um pecado porque não consegui ser racional quando te toquei. Naquele momento senti que tinha que te tocar. Foi um impulso subjugado que estava ao meu sentimento por ti.

– Eu percebi.

– E eu pequei porque te toquei. Pequei porque toquei na minha musa e todo o ser arrisca-se a perder a sua musa quando a toca. Perder-te seria perder as palavras que tenho dentro de mim. Poderiam ficar outras, mas não teriam paixão, encantamento, humanidade. Teria que dissecar letras e formar puzzles para fazer nascer palavras. Amei quando te toquei porque vivo no limbo de estar apaixonado pelo ser sobre-humano que sem o saber tem sido parte da minha vida. Beijar-te seria tornar-te humana e perder a tua orientação.

– Podia correr mal.

– Beijar-te podia correr mal mas é não só o meu maior desejo como é o último propósito da minha simples existência. É um desejo que é a necessidade de gritar o que sinto por ti. Tenho esta característica que resulta numa destruição auto-infligida. Talvez por ser um romântico incorrigível ou talvez apenas por te amar.

– Fico sem palavras.

– Fiquemos no silêncio.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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