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Inteligência Artificial – Estamos a humanizar robôs, ou a robotizar os humanos? Até onde irá (e nos levará) a sede de evolução da sociedade tecnológica do século XXI? Não, não estamos a apontar para o apocalipse tecnológico, tampouco é nossa pretensão dissertar sobre os males necessários da evolução assente na tecnologia. Falamos de evolução, sim, mas da mais elementar e primária – a do ser humano no que às sensações e comportamentos que o compõem diz respeito.

Nas últimas décadas a robótica tem sido alvo de uma extraordinária evolução, alicerçada sobretudo na capacidade de dotar as máquinas de funções até então exclusivamente humanas. No rol das mais surpreendentes pode certamente incluir-se o iCub, um robô com um metro de altura e de braços e pernas articulados, concebido pela RobotCub Consortium. O objectivo, dizem os criadores, é “perceber o funcionamento do cérebro humano através da reprodução numa máquina, de alguns dos processos que nele ocorrem durante a aprendizagem”. O iCub pode ver, ouvir, movimentar-se e executar funções simples como agarrar objectos, depois de “observar” um humano a fazê-lo. “Só podemos entender o cérebro humano quando o conseguirmos reproduzir. Esperamos que o iCub aprenda a adaptar o seu comportamento às circunstâncias mutáveis, oferecendo novas percepções sobre o desenvolvimento da consciência humana”, esclarece Giorgio Metta, administrador do laboratório de robótica humanóide do Instituto Italiano de Tecnologia, responsável pela criação do iCub.

Esta insistência – que muitos defendem ser evolução – em capacitar as máquinas de funções humanas talvez mais não seja do que a manifestação de um qualquer complexo de Criador que nos faz almejar ter um “ser” criado à nossa imagem e semelhança, mas, desta feita, perfeito. Dotar máquinas de raciocínio e até mesmo de sentimentos é actualmente visto (e enaltecido!) como uma dádiva consequente da união feliz entre ciência e tecnologia, mas não nos podemos esquecer que à tecnologia precede a natureza onde, já se sabe, “tudo se transforma” – nós, seres humanos incluídos. Na prática, programar robôs a bel-prazer consoante as nossas necessidades e ambições traduz uma vontade que certamente todos nós já tivemos num determinado momento: accionar um botãozinho que nos permitisse adaptar as nossas reacções e comportamentos consoante as situações.

Pensemos tão-somente naquela entrevista de emprego em que as pernas ficaram irrequietas, as mãos suavam e não encontravam pouso e a língua teimava em não articular as palavras pela ordem correcta. O stress aumenta, a postura descompõe-se e, no mesmo instante, assalta-nos a certeza de que acabamos de perder uma oportunidade de emprego. Naquele momento, dois desejos se materializam: que um buraco se abra sob os nossos pés e que tudo em nós tivesse sido diferente. Partindo do princípio que ainda não nos deu o universo a capacidade de desaparecer por artes mágicas, resta-nos a esperança de que, numa próxima vez, tudo em nós possa efectivamente ser diferente. O segredo para atingir este objectivo pode estar na postura corporal que adoptamos.

Amy Cuddy, psicóloga social, investigadora e professora na Escola de Negócios de Harvad estudou o efeito de determinadas posturas na sensação de poder das pessoas. Partindo da premissa de que a nossa linguagem corporal diz muito de nós a quem nos observa, esta investigadora lançou-se no desafio de tentar perceber se essa mesma linguagem pode influenciar a maneira como nós próprios nos vemos. As conclusões a que chegou apontam para uma influência directa da nossa postura corporal nas nossas emoções – manter uma postura de poder (braços abertos em forma de V, por exemplo) durante dois minutos tem o condão de nós fazer sentir mais poderosos e confiantes. A justificação é científica: “posturas de poder causam alterações neuroendócrinas e mudanças de comportamento. Poses de domínio desencadeiam aumento da testosterona (aumento da sensação de poder) e diminuição do cortisol (diminuição do stress), o que provoca a sensação de poder e maior tolerância ao risco”, explica Amy Cuddy.

Significa portanto que, mudando a nossa postura física podemos preparar a nossa mente para suportar determinadas situações de stress e as reacções fisiológicas consequentes. “Finja até que consiga fazê-lo” é a dica que a investigadora deixa, assegurando que a prática continuada de posturas de poder pode mesmo conduzir a uma mudança comportamental, melhorando a saúde e o bem-estar de uma pessoa.

A questão permanece – estaremos a humanizar os robôs ou a robotizar humanos? – e talvez as respostas tardem a ser definitivas no domínio da robótica, mas, se nos debruçarmos somente no poder que conseguimos ter sobre o nosso comportamento, os próximos dois minutos e uma postura de poder podem fazer toda a diferença!

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Liliana Marinho

“Sou do tamanho do que vejo [e escrevo] e não, do tamanho da minha altura…”

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