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Crónicas

Exmo. Sr Primeiro Ministro

Acredito que deverá receber inúmeras cartas bem como e-mails durante o dia, mas gostava honestamente que lesse este desabafo que lhe faço chegar. Escrevo-lhe este texto para lhe demonstrar a minha indignação perante a realidade que se vive em Lisboa. Eu sei, que tem entrado bastante dinheiro para os cofres, com toda esta bolha imobiliária, com os preços exorbitantes que estão a ser aplicados, mas caro, Sr. Primeiro Ministro, lembre-se de uma coisa: os turistas hoje estão cá, amanhã não estão. Você como Primeiro Ministro deveria zelar pelo bem dos seus habitantes em Lisboa. Sei que não me conhece de lado nenhum, mas eu apresento-me.

Chamo-me Cátia Costa e vivo há três anos em Lisboa. Vim para Lisboa com a intenção de fazer carreira e vida aqui na sua cidade, mas desde há um ano e pouco para cá que tem sido insustentável viver em Lisboa. Há mais de 2 meses que ando a ver os preços que estão a ser aplicados nos quartos em Lisboa, apenas por curiosidade. Sim, porque se precisasse mesmo, provavelmente estaria a dormir na rua. Sabia que há senhorios a pedirem 750 € por um quarto? Ou 300 € por um quarto partilhado? Sabe que, há uns anos, 300 € dava para alugar um T1 ou até mesmo um T0 bem jeitoso em Lisboa não sabe? Sabe que grande parte dos habitantes em Lisboa ganham pouco mais que o ordenado mínimo e que, ao primeiro dia que recebem o vencimento, ficam logo sem dinheiro para o resto do mês, ao pagarem apenas o preço ridículo da renda? Sabia que há pessoas que moram na sua cidade e se sujeitam a pagar 350 € por um quarto que têm de partilhar com uma pessoa que não conhecem de lado nenhum? Sabe que há pessoas a colocarem uma cama numa garagem e pedirem 500€? Já nem falo das rendas dos apartamentos, porque aí a situação ainda é mais deprimente.

É bonito de facto, os turistas falarem tão bem de Lisboa, famosos partilharem com os milhares de fãs as fotos lindas da cidade, mas é ainda mais triste ver pessoas a SOBREVIVEREM na sua cidade, só porque prefere dar mais importância aos turistas. Eu sei que existe o projeto das rendas convencionadas, sim eu sei. Já concorri em todos os que saíram e nunca me calhou nada. Sim, eu sei que existe forma de nos ajudarem a pagar no primeiro ano a renda de casa, através de um outro programa, penso que o arrendamento jovem, sim, eu sei, mas engraçado que nunca me calhou nada também. Esses programas realmente funcionam? Ou é só para fazer boa vista? É que são milhares a inscrever a meia dúzia de vagas. É como atirar um osso no meio de um canil.

Trabalhei como consultora imobiliária e sabe por que desisti dessa profissão? Porque, para mim, deixou de fazer sentido o que está a acontecer na venda e arrendamento das casas. Comecei a sentir murros no estômago, quando num arrendamento, me apareciam mais de 60 pessoas numa tarde para um open house. Custou-me ouvir pessoas a pedirem-me por favor, porque não têm para onde ir e que vão pedir dinheiro aos familiares para pagarem a renda para garantirem um tecto. Sabe que há jovens com 30 anos que vieram para Lisboa para conseguirem vingar na vida e têm de pedir dinheiro aos pais, porque sozinhos não conseguem sobreviver em Lisboa? Sabem como esses jovens se sentem? Sentem vergonha deles próprios. Cheguei a ter idosos a verem um apartamento do tamanho de muita salas de estar que já vi e a chorarem a pedirem para os ajudar, porque não tinham para onde ir? Jovens que partilham quartos com desconhecidos, porque senão estariam na rua? E sabe por que isto acontece?

Porque você, como Primeiro Ministro, não consegue controlar o que está a acontecer na sua própria cidade. Eu acompanhei o crescimento deste boom tão bom para o estado, mas péssimo para quem mora em Lisboa. Sabe que há idosos a serem despejados em Alfama, porque é giro ter Short Renting? É isso que você quer? Eu sei que para os turistas os preços que estão a ser aplicados são pechinchas, mas não se esqueça que uma cidade é feita pelos habitantes que nela moram 365 dias do ano. Que pagam transportes para irem trabalhar. Que pagam as creches para poderem ter sítio onde deixar os filhos. Os turistas vêm, deixam cá muito dinheiro em comrpa das casas, jantam e almoçam em restaurantes onde deixam o preço de uma renda para muitos. Que vão às Guess, à Prada, à Karen Millen, entre outras. De facto, é verdade. E não estou a dizer para discriminar os turistas. Não. Apenas digo que se poderá chegar a uma solução benéfica para os dois lados.

Não o importuno mais, pois calculo que deverá ter muito mais que fazer, mas pense de forma honesta neste desabafo. Existem dezenas e dezenas de pessoas a viverem esta situação.

Com todo o meu respeito,

Cátia Damas

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