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Existem coisas que nos unem

A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos.

– Cícero

A história das histórias que nos ligam faz de nós elementos integrantes da mesma experiência e transforma-nos muitas vezes em companheiros de luta e defensores de causas associadas às histórias que vivemos em conjunto, e que integram a nossa própria história de vida.

Existem histórias que nos unem e que nos tornam mais próximos de quem connosco as compartilha. As histórias que vivemos na infância com os nossos amigos, por exemplo, e que mesmo 20 anos após o seu acontecimento ainda são motivo de conversa e até de sorrisos ou mesmo de umas boas gargalhadas.

Quando a lembrança destas histórias surge, somos de repente tele transportados novamente para a nossa infância e para os tempos deliciosos em que a ingenuidade e a alegria eram os principais alicerces da nossa existência.

E de repente os olhos brilham mais intensamente… as memórias floreiam no nosso espírito, como se tivéssemos acabado de viver aquelas situações naquele instante, e a simples e doce lembrança daquelas histórias torna-nos mais dóceis e até mais humanos.

Costuma dizer-se que os verdadeiros amigos se conhecem nas adversidades da vida, quantos de nós não reconhecem por experiência própria, a veracidade desta afirmação? De facto, as dificuldades aproximam as pessoas e são elas também histórias que acabam por nos enredar nos seus caprichosos e misteriosos capítulos.

Se avançarmos para o contexto patriótico e falarmos no caso de Portugal, por exemplo, e da sociedade portuguesa, será claro de perceber que qualquer português que encontre um conterrâneo seu fora de Portugal, e que com ele chegue à conversa, encontrará naturalmente histórias sobre que falar, nomeadamente sobre o ser-se português, e o orgulho que o conceito encerra em si próprio.

Temos na história de Portugal, muitas histórias que nos unem e que nos aproximam de qualquer português, quer seja em Portugal, ou em qualquer lugar do universo. Ser português é fazer parte da história de um povo que fez História no mundo, os bravos e heróicos portugueses que conquistaram terra desconhecida até então.

A época dos descobrimentos é com certeza uma das nossas histórias enquanto povo, que mais nos enche o peito, quando se fala da História de Portugal e do imenso orgulho em ser Português. Enquanto portugueses, as histórias que partilhamos são o fio condutor e o elo que nos liga com orgulho ao nosso pais e aos seus feitos.

Se falarmos por exemplo em futebol e nomeadamente na Seleção Nacional, voltamos a ter histórias que contar e que nos envaidecem, enquanto nação. São muitas as narrativas que nos ligam, a conquista do Euro 2016 em França foi um marco avassalador para a auto estima, para o orgulho e o brio nacional, sem qualquer dúvida … quem não sorri quando se recorda deste acontecimento?

Há outras questões mais importantes? Há com certeza, mas estes pequenos momentos vividos ajudam-nos a ter uma identidade enquanto nação e enquanto portugueses, sobretudo, são eles que nos motivam, que nos mobilizam em momentos de dificuldade, quando as forças se desvanecem e resistir parece ser quase impossível.

Contudo, ser português é ser diferente e a cultura que nos envolve e que faz do português aquilo que ele é, um ser especial, resulta justamente da súmula de todos estes momentos e peripécias. A nossa vida enquanto povo tem feito de nós seres diferentes, enquanto pessoas individuais.

Importa também ter presente que outras histórias, como sejam as de encantar e ou de aventuras são importantes referências quer para nós mais crescidos, quer para as nossas crianças, filhos, netos, sobrinhos, afilhados… todos os espíritos necessitam de sonhar e de viajar no universo maravilhoso da fantasia que nos conduz ao limiar da utopia e do melhor que a vida tem.

O acesso facilitado que temos hoje em dia ao mundo digital, em que quase tudo funciona por touch, mas que é tão impessoal que consegue colocar várias pessoas no mesmo espaço sem que elas interajam entre si, é uma grande barreira que se nos coloca na passagem de testemunhos de vida e partilha de histórias, para quem ficará depois de nós.

Estes ambientes interactivos em que vivemos actualmente fazem perder um pouco a magia de antigamente, quando a família se reunia em volta da lareira, ou mesmo em volta da mesa, depois de uma refeição familiar. Um dos mais velhos começava a contar histórias e episódios vividos pelos antigos da nossa família e/ou dos nossos conhecimentos, e os episódios sucediam-se uns atrás dos outros, quase em catadupa e o tempo corria desalmadamente sem que nos apercebêssemos.

Estas lendas e contos eram o nosso deleite de uma tarde inteira, ou mesmo de um longo serão, onde nos deliciávamos com a forma encantadora como nos relatavam estas passagens de testemunho e de vivências antigas que nos eram contadas, e que com toda a certeza ajudaram a alicerçar a nossa personalidade e o nosso carácter enquanto seres humanos.

Hoje em dia, estas histórias já quase nem existem, ninguém tem tempo para nada, já mal se vive, andamos ou deambulamos pela vida. Perdemos o encanto dos avós que contam histórias aos seus netos e que ajudam os seus filhos a recordar com nostalgia, estes relatos que estão associados a tão boas recordações.

Torna-se importante que nos reorganizemos enquanto sociedade em geral, e enquanto cidadãos em particular, porque se não o fizermos, vamos ter uma história sem história, pelo menos sem histórias relatadas pelos humanos e pelas suas experiências de convívios e das partilhas que tiveram com outras pessoas. Torna-se importante que recuperemos o hábito antigo, mas milenar de contar histórias às nossas crianças, para que as guardem para si, para mais tarde as contarem aos seus filhos, e assim sucessivamente.

Se nos deixarmos seduzir pelas máquinas e pela tecnologia e nos deslumbrarmos pela vida fácil, mas vazia destas histórias, então daqui a uns anos já não haverá homens nem mulheres sobre quem contar histórias ou episódios bonitos ou até mesmo caricatos. Teremos seres humanos a comportarem-se como máquinas, a ensinar os seus filhos, através dos seus comportamentos e exemplos de vida, a ser indivíduos insensíveis, que não conhecem as emoções de uma história de amor, as lágrimas de um bom drama ou mesmo de uma divinal comédia que nos leva ao delírio físico de tanto rir.

Isto é ser humano, é ter emoção, sentimentos e vivências partilhadas, boas ou más mas vividas, afinal a história é testemunha do passado que podemos transpor a quem vem depois de nós, é luz da verdade que nos ensina a ser melhores e mais intensos, porque se transforma em vida da memória… a história é mesmo mestra da nossa alma. Por isso, importa não esquecer que a vida é sempre anunciadora dos tempos antigos e que dever ser contada no presente para se perpetuar no futuro.

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