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CrónicasDesporto

Euro 2016

Eu não gosto de futebol. Dito desta maneira, assim, sem anestesia nem nada, até soa a palavrão. É a mais pura das verdades. Tanto se me dá que ganhe a selecção de Portugal ou de um outro país qualquer. É-me indiferente. Em nada irá alterar a minha vida e tudo continuará na mesma. Se as pessoas se deixam enfeitiçar pelos resultados é uma escolha, consciente ou não, da sua parte. O desemprego continuará em alta, os idosos continuarão a ser esquecidos nos hospitais para as famílias irem de férias, os alunos continuarão a ser preguiçosos e a não querem aprender nem estudar, os animais continuarão a ser abandonados e as prioridades de cada um não sofrerão nenhuma alteração.

A meu ver é uma época de total fanatismo, de alienação, em que o importante passa a secundário e o acessório a prioritário. O certo é que movimenta milhões, quer de pessoas, quer de divisas. As pessoas fazem os impossíveis para acompanhar tudo. Não vão trabalhar, tiram férias, endividam-se para ver a sua selecção a jogar, querem estar a viver o momento. Não há paralelo com um acontecimento cultural não só na falta de disponibilidade como na monetária. Opções. Os milhões de divisas, de dinheiro, é um caso muito sério. Aliás é uma situação que merece toda a atenção. De onde vem esse dinheiro? Como se pode pagar tanto dinheiro a um jogador de futebol? O que é que ele fez em prol da humanidade? Qual foi o seu contributo? Simplesmente o desvio da realidade concreta. E causar inveja no cidadão comum. Querem todos ter aquilo que eles têm, usufruir de uma vida de papel e não de uma vida verdadeira e útil.

O que sinto é uma falta de estrutura sólida que aguente todas as pontas sem arames. Quer isto dizer que as pessoas estão cada vez mais ocas, mais vazias e mais esquecidas do que é realmente importante. Os valores desapareceram e deram lugar ao materialismo, ao fácil em detrimento do pensado e calculado. Uma vida sem problemas é mais apelativa do que uma vida que implique sacrifícios. Ninguém quer sofrer, sentir dor e muito menos esforçar-se para conseguir seja o que for. Todos querem o imediato, o já, o agora. Que educação irão passar aos seus descendentes? Se não a têm como podem ensinar um total vazio? Se dar chutos numa bola é mais importante que ensinar, então não faço ideia que sociedade estará para vir. Há um total alheamento do correcto, do absoluto, do óbvio que se torna assustador.

E voltamos aos jogadores de futebol. De onde é que vem tanto dinheiro para lhes pagar, já se interrogaram? É capaz de dar mais trabalho fazer contas, aliás é preciso saber fazê-las e isso não está ao alcance de qualquer um. Não será do dinheiro das quotas dos sócios, nem do pagamento dos bilhetes para os jogos. Eu posso ter uma ideia, mas fico com ela para mim. E sinto-me injustiçada porque eu trabalho, esforço-me, tento fazer algo em prol dos outros e não consigo chegar àqueles honorários. É não ter noção da vida, é gozar com o trabalho sério, com aquilo que faz avançar um país, evoluir uma sociedade. Não é, com toda a certeza, a dar toques numa objecto redondo. Até aí são preguiçosos: rebola, não dá trabalho nenhum. É aproveitar o ritmo, o movimento circular. Ai! Mas é preciso saber o que é isso para entender.

Na realidade a trigonometria será útil para se obter um bom resultado. Recorrendo à ” anatomia ” do triângulo rectângulo, o lado maior chama-se hipotenusa e é a rampa, aquele lado que desliza e os outros são os catetos. Um deles é o cateto oposto, à hipotenusa e o outro é o cateto adjacente. Com estes três lados calculamos as chamadas razões trigonométricas: o seno, o coseno e a tangente. Como? Para calcular a tangente divide-se o comprimento do cateto oposto pelo comprimento do cateto adjacente, para o seno a divisão é efectuada com o cateto oposto pelo comprimento da hipotenusa e o coseno encontra-se através da repartição do cateto adjacente pelo comprimento da hipotenusa. Como se trata de um triângulo rectângulo, um dos ângulos mede 90º e os outros são agudos. Usando esta estratégia lógica e racional, conseguem-se calcular as probabilidades, outra palavra matemática) de ” acertar ” na baliza. Mas tudo isto exige conhecimento e estudo. Não se enquadra naquilo que o futebol contempla, a facilidade.

Não estou, de modo algum contra os amantes do futebol. Cada um dedica-se ao que entender, ao que gosta e que lhe dá satisfação. Eu não gosto e volto a dizê-lo. Não me incomoda que os outros gostem, só não quero que mo imponham. Isso é que não é correcto. A liberdade de expressão é exactamente isso: o poder expressar o seu fanatismo, o seu desagrado, os seus pensamentos, mas de modo que não choque com quem não partilha dos mesmos ideais. As minhas melhores amigas são completamente apaixonadas por futebol, em campos opostos e não deixamos de ser amigas por isso. Até serve para fazer umas piaditas. É salutar.

Não gosto de futebol e não tenho problema nenhum em admitir que só tenho motivos para continuar a não gostar. Fui presentada com um clube de futebol no quarteirão onde moro. É ver os pais, grandes treinadores de bancada e os futuros craques, à porta, bem cedo, antes da sua abertura, antes das 8 horas. Estão frescos e fofos, prontos para a batalha. Para a escola chegam atrasados, sem motivação e com os pais a desvalorizarem os professores e as matérias.  Se um professor precisa de incutir disciplina num aluno é um malandro, se um mister gritar com o menino, está a fazer dele um homem. Em miúda fui atleta de um clube e conquistei todas as medalhas possíveis. Era de ginástica e a minha classe abria os jogos e animava os intervalos. Nem assim funcionou. Acho que a dose foi muito pequena ou eu sou muito resistente, não sei. No entanto surpreende-me que sejam todos tão ” lúcidos ” quando toca a clubes, treinadores e árbitros. Num segundo é bestial e no seguinte é uma besta. Maravilhoso.

Não me levam a mal, levem-me, não ao futebol, mas a um local onde se saiba falar e escrever e onde não se confunda trocar com destrocar, coiso com o nome adequado e sentir orgulho em algo verdadeiramente fantástico. Também é bom saber que não se diz thank you very nice, mas sim thank you very much. Para mim é a diferença entre há-des e hás-de.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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