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Há seis mil anos, o Homem descobria as potencialidades da roda, passando a usa-la para facilitar o transporte e as tarefas básicas do dia-a-dia. Já antes disso, no Paleolítico, compreendia que era possível produzir fogo manualmente sem necessitar de relâmpagos ou incêndios naturais. Estas duas descobertas são consideradas de modo quase consensual como as mais importantes da História da Humanidade, mas o que acontecerá se reduzirmos o intervalo de análise para os últimos 30 anos? Continuará a haver consenso?

Colocámos a questão “Qual a maior invenção dos últimos 30 anos?” nas redes sociais e ficámos à espera. A única condição era que as respostas fossem dadas por pessoas com idades entre os 30 e os 40 anos. Estes foram os resultados:

Rosário Afonso e a WWW: o mundo à distância de um clique

Rosário Afonso, de 34 anos, foi a primeira a expressar a sua opinião. Nem a rapidez da resposta, nem a invenção escolhida – World Wide Web – serão de estranhar, já que, como confessa, passa “muito tempo ligada à net

Com vários anos dedicados ao estudo – uma licenciatura em Física e Química, um mestrado, uma pós-graduação e uma segunda licenciatura (quase a terminar) na área de Metrologia e Instrumentação – a pesquisa e tratamento de dados tornaram-se tarefas rotineiras na vida desta futura engenheira. Nesse contexto, a WWW é um instrumento com utilidade prática que lhe permite “estar rapidamente informada sobre qualquer assunto”.

“Embora seja necessário saber filtrar alguma informação”, refere Rosário, “a WWW é uma fonte de conhecimentos praticamente inesgotável e, quando usada com bom senso, consegue ser uma ferramenta poderosíssima”. A rede global apresenta vantagens também ao nível da comunicação, permitindo-lhe, por exemplo, “manter contacto visual com familiares que estão longe”, através de ferramentas como o SKYPE.

Atingida pelo desemprego, problema que começa também a afectar as pessoas com elevadas habilitações, Rosário conta ainda com a ajuda da WWW para “agilizar pesquisas de trabalho”. Nesse sentido, consulta regularmente diversos sítios na Internet especializados no assunto.

A World Wide Web foi colocada à disposição do mundo em 1991, mas, para percebermos as suas raízes, temos que recuar até 1989, quando Tim Berners Lee, cientista do CERN, construiu um programa com o intuito de permitir aos seus colegas compartilharem trabalhos através de um sistema global de documentos de hipertexto. O sucesso da invenção foi de tal ordem que esta rapidamente atingiu um carater global.

Bruno Soares e Miguel Soares: as potencialidades da Biologia

Bruno e Miguel não são da mesma família. Aliás, nem sequer se conhecem. No entanto, têm em comum o sobrenome, vários amigos no Facebook e o fascínio por algumas descobertas no âmbito da Biologia.

Não é difícil perceber de onde vem o interesse de Bruno por esta área. Em Cambridge, depois de realizar um doutoramento na área da Física, este investigador teve oportunidade de desenvolver pesquisas envolvendo o ADN e aí se consolidou a paixão por esta molécula. Hoje, com 34 anos e a trabalhar na jovem empresa Coimbra Genomics defende que “a sequenciação integral do genoma humano é das invenções mais importantes dos últimos 30 anos”.

“O impacto da sequenciação do genoma é, de momento, imensurável e conduzirá a uma completa mudança na forma como pensamos e praticamos Medicina”, afirma Bruno. “Ao conseguirmos olhar pela primeira vez para a totalidade do nosso código genético, podemos finalmente começar a ultrapassar a grande barreira que a complexidade do nosso organismo tem colocado ao avanço de importantes áreas como o combate ao cancro ou o tratamento para a Doença de Alzheimer”, acrescenta ainda o investigador.

Bruno sabe do que fala. Segundo informações do National Human Genome Research Institute (NHGRI), graças ao Projeto Genoma Humano (criado em 1990 com o intuito sequenciar a totalidade da molécula de ADN)foram já descobertos “cerca de 8000 genes responsáveis por múltiplas doenças, abrindo caminho para uma potencial cura”.

Foi também a pensar na cura de muitas doenças que Miguel Soares, de 39 anos, formado em Engenharia Eletrónica e CEO de uma empresa (PARTTEAM) ligada à comercialização de quiosques multimédia, elegeu a crescente utilização de células estaminais como o principal avanço científico dos últimos 30 anos. Células estaminais são, segundo a Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (CPCE-TC), células que possuem a capacidade de produzir cópias de si mesmas (autorrenovação), mas que também são capazes de originar células especializadas (diferenciação). Graças a esta caraterística podem ser usadas na regeneração de tecidos danificados por envelhecimento ou doença.

Na opinião de Miguel Soares, os cientistas deverão continuar a investigar para que se torne cada vez mais fácil “produzir órgãos e partes do corpo humano através do cultivo de células estaminais”. O gestor afirma ainda que “o estudo de materiais que permitam o crescimento destas células, ou que possam ser usados para a sua hospedagem  quando forem reinstaladas no corpo humano” deverá ser aprofundado pela ciência.

Em Portugal, a pesquisa neste domínio tem dado passos importantes. Em 2009, por exemplo, no âmbito do programa MIT-Portugal, foi criada uma Rede de Investigação em Células Estaminais, Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, envolvendo vários hospitais e centros de investigação. O objetivo desta rede é desenvolver novas terapias celulares para tratamento do cancro. Segundo informações divulgadas na página do Ministério da Educação e Ciência, “vários pacientes portugueses do Instituto Português de Oncologia (IPO) já beneficiaram dos avanços alcançados através da aplicação de células estaminais e engenharia de tecidos”.

Cada dia que passa, surgem novas descobertas no campo da medicina regenerativa e das células estaminais, multiplicando-se os laboratórios e centros de investigação um pouco por todo o país. As boas notícias sucedem-se a bom ritmo. Miguel Soares (e todos aqueles que um dia poderão vir a beneficiar das potencialidades destas células) tem motivos para sorrir.

(continua…)

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Ana Raquel Soares

Um dia acordei a achar que podia mudar o mundo com as palavras. Hoje sei que as palavras (só) não chegam. Mas continuo a escrever.

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