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Eu sou Racista e Tu também

O racismo é definido como “teoria, sem base científica, fundada na crença da superioridade de certas raças humanas, que defende o direito de estas dominarem ou mesmo exterminarem as consideradas inferiores e proíbe o cruzamento da suposta raça superior com as inferiores; teoria da hierarquia racial”, ou “intensificação do sentimento racial de um grupo étnico em relação a outro ou outros”. Na literatura científica, é comum encontrarmos definições ambíguas de racismo, em que são especificadas as dimensões comuns e diferenciadoras entre o conceito de racismo e outros que lhe são frequentemente associados, como por exemplo, etnocentrismo, intolerância, xenofobia e preconceito.

Ao longo da história, o racismo tem variado muito nos seus alvos (negros, índios, ciganos, brasileiros, etc.), nos mitos que o legitimam (inferioridade intelectual ou moral, perigosidade, incompatibilidade de culturas, etc.), nos interesses que serve (exploração de mão-de-obra, manutenção da pureza racial, preservação da identidade nacional, etc.) e nos modos de actuação (extermínio, perseguição, expulsão, segregação ou exclusão simbólica). Em quase todos os estudos psicológicos realizados sobre este tema, a conclusão é que a intolerância, ou o racismo é um fenómeno complexo, que influencia e é influenciado por tudo aquilo que pensamos, sentimos e a forma como nos comportamos. Por isso, costumam distinguir-se três componentes: a cognitiva ou estereotipada, isto é, o conjunto de crenças sobre as peculiaridades dos membros de um dado grupo que se tornam explícitas através de etiquetas verbais; a afectiva ou emocional, a avaliação negativa de um grupo aliada a sentimentos de hostilidade em relação aos seus membros; e a comportamental, constituída por uma predisposição para  a conduta negativa e/ou uma tendência para condutas hostis e de marginalização em relação aos membros do grupo.  Também devemos olhar para o racismo como estando influenciado pela educação. Os processos de discriminação revelam que a escola tradicional tem sido orientada, em função da homogeneidade, para um aluno médio, que, na realidade, nunca existiu, excluindo de forma autoritária quem não corresponda às expectativas criadas pelo sistema escolar e conceptualizando a diversidade e a discrepância como problemas e fracassos do individuo. Contudo, sabe-se hoje em dia que o forte aumento da heterogeneidade verificado nas últimas décadas ajudou a revelar que quem, afinal, acabava por fracassar era o próprio sistema escolar.

É partir deste pilar da sociedade, que questiono-me, sobre a necessidade de se mudar mentalidades, para que, num futuro próximo, não tenhamos que ouvir discursos racistas, como os que ainda ouvimos nos meios de comunicação nacionais e internacionais. Partindo dessa premissa de mudança de mentalidades, parece-me importante situar a educação para a tolerância dentro de uma perspectiva mais ampla, desenvolvendo inovações educativas que permitam: erradicar a exclusão que, com frequência, se produz na escola tradicional; promover uma adequada compreensão e aceitação de cada um, ensinando competências capazes de ajudar a tolerar a incerteza; favorecer a empatia e a capacidade para se pôr no lugar do outro, como sendo o motor básico de todo o desenvolvimento sócio-emocional. Ao incluir a prevenção do racismo e intolerância dentro de uma perspectiva mais ampla, conceptualizando esses problemas como uma grave ameaça aos direitos humanos, incentiva-se a sua compreensão como um problema que nos afecta a todos e a todas, porque coloca em perigo o nível de justiça necessário para que se respeitem também os nossos direitos. Contudo, a intervenção educativa não é suficiente para modificar os problemas cujas causas se situam em todos os níveis da interação social. É necessário situar a intervenção a partir de uma perspectiva que inclua os diversos microssistemas em que o individuo se desenvolve, assim como as interações que se estabelecem entre esses microssistemas e o conjunto do macrossistema social. Para terminar este artigo, convido a todos os leitores a visitarem a exposição 7 Milhões de Outros, no Museu da Eletricidade, de modo a que possa ser promovida a mudança de mentalidades ao nível do macrossistema social.

Cuida de Ti, Cuida da Tua Saúde Mental

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Bruno Braz

Sou psicólogo, terapeuta familiar (crianças, adolescentes e suas famílias) e formador, com uma sede pelo saber. Procuro compreender sobre as relações humanas, sob um olhar sistémico. Entender os problemas da mente, sempre a partir de hipóteses e nunca de uma forma causal ou linear.
Gosto de muitas coisas, mas as que gosto mais, são capoeira e kitesurf, que permitem desligar-me deste mundo em constante transformação e dos problemas dos meus clientes.

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