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Estrada sem vida

O convite a um longo descanso bem merecido, atirou-os para uma pequena aventura que há muito ansiavam. Escolheram um local do mapa ao acaso, um local que fosse confortável chegar mas tão inóspito quanto esse conforto permitia.

Decisões tomadas e sorriram ao chegar àquele sítio que não conheciam. Escolheram-no apenas pela ausência de nomes escritos nos mapas num raio razoavelmente grande. Queriam andar sós, estar sós, percorrer estradas solitárias e pisar terrenos em que as pessoas fossem raras. Sonharam agora encontraram ali um pedaço de mundo só para eles.

Ao volante do carro seguiram sem se preocuparem onde iriam chegar nem a que horas. Cruzaram-se com um e dois carros, depois outro, muito movimento para o que desejavam. Viraram então uma pequena estrada sem qualquer placa a indiciar um qualquer destino. Começaram a percorrer a estrada e logo perceberam o isolamento. As pequena estrada não reflectia uso, não ouviam outros carros ou qualquer ruído humano que fosse. E por fim as cores mudaram e os sorrisos abriram-se. A disposição boa acentuou-se e o ritmo abrandou. Seguiram mais devagar e também o tempo pareceu ter ficado mais lento. Apenas viram o azul intenso do céu, o verde pastel da ocasional vegetação que compunha a paisagem e o castanho das montanhas secas que os rodeavam. Longos minutos passaram e a estrada parecia não ter fim, mesmo como o desejaram. A estrada aos poucos começou a fundir-se na secura da paisagem e eles sorriram ao mesmo tempo que contemplavam aquele mundo que parecia ser apenas deles.

Uma única visão de civilização surgiu-lhes na frente quando viram uma parede caída do que em tempos teria sido uma casa, mesmo encostada à estrada. Abrandaram e deixaram-se e observaram atentamente deixando-se envolverem pelo ambiente. Ele ao volante fixou os olhos nas pedras olhando a estrada ao mesmo tempo. De repente viu surgir algo num canto do olhos. Por detrás da parede surgiu uma figura que correu para a estrada pondo-se em frente ao carro, assustando-os obrigando-o a travar bruscamente. Ainda mal recompostos viram na sua frente um mulher de vestido branco ensanguentado e rosto que era a imagem do desespero vestido de terror. Antes de conseguirem reagir, a mulher gritou por ajuda:

– Socorro, ajudem-me, depressa!

– Que se passa? – responderam eles.

– Ali à frente, perdi o controlo do carro… os meus filhos!

Saíram do carro e correram com a mulher a segui-los com dificuldade. Um pouco à frente viram marcas de pneus queimados a saírem da estrada. Alguns metros depois um carro esmagado contra uma parede rochosa. Um absoluto silêncio abateu-se durante aquele segundo em que pararam e perceberam que a mulher havia desaparecido. Olharam-se e decidiram ali. Ela voltou atrás para ajudar a mulher e ele correu para o carro quando já ouvia duas crianças a chorar em dor. Entre os destroços retirou-as cuidadosamente e deitou-as no chão reconfortando-as. Apesar de alguns ferimentos percebeu que não corriam perigo, por isso voltou a atenção para o carro e para o lugar do condutor. Estarreceu, ficou petrificado com olhos a reflectirem puro terror. Nem conseguiu olhar para a namorada quando ela regressou assustada a dizer que estranhamente que não conseguia encontrar a mulher nem vestígios dela.

Ele apenas disse “ela está aqui” levantando a cabeça sem vida dessa mesma mulher, morta ao volante, sepultada no carro.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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