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ContosCultura

Estrada sem fim

A estrada desaparecia por baixo da roda da frente como as imagens eram atiradas para os confins da memória. Essa estrada, uma manta de retalhos da sua mente, quilómetro após quilómetro, mais perto de um fim que ele próprio desconhece. Um fim que quer encontrar. Um fim onde se quer encontrar.

O verde seco parecia descolorido de propósito para combinar com a cor morta do asfalto. O vento quente queimava o rosto dentro do capacete ao invés de o refrescar. Era meio dia e todo ele se queixava. Os pulsos endurecidos, os braços cansados, a boca seca como as areias de um deserto, a fome a gritar dentro de si. Procurava um oásis e encontrou-o ainda antes da próxima povoação.

Atravessou a faixa contrária e parou a moto em frente à janela suja de um café. Uma brisa ligeira trás o cheiro do carvão em brasa e abana as franjas de um toldo envelhecido. Entrou. O zumbido elétrico de uma mosca a ser queimada viva ecoou pela sala vazia.

– Bom dia, está alguém? – perguntou atirando a voz para além das persianas que escondiam uma aparente cozinha.

– Bom dia, meu senhor. Peço desculpa, estava lá atrás a preparar uma brasas para queimar um piano” – respondeu um homem, farto bigode e camisa aberta até baixo revelando uma proeminente barriga de alguém ferido pelo tempo.

– Não tem problema. Eu bem que senti o cheiro lá fora e a modos que ansiava pelo gosto da carne com carvão. Isto se servir refeições, claro.

– Claro que sim, tudo para o meu amigo. Venha comigo, não tem necessidade de ficar aí a contar as moscas assadas no momento.

Embora estranhando, toda a envolvência fazia-o considerar essa uma boa ideia. Chegara a um café sem vida numa estrada sem vida. Um café sem uma televisão e sem clientes que se vissem ou se adivinhassem.

– esta zona é mesmo isolada. – Disse ele enquanto o homem mexia nas brasas atiçando-as.

– Verdade, esta estrada antes ainda tinha algum movimento. Depois fizeram a auto-estrada e já ninguém passa aqui.

– Verdade, as pessoas preferem o caminho rápido.

– Exato, rápido e sem alma. Já ninguém se interessa pelo caminho, apenas se importam em lá chegar, seja onde for. E depois… – O homem fez uma pausa parecendo viajar para o passado.

– Aconteceu algo?

– Uma tragédia, a arriba ruiu… – Nova pousa. – Enfim, a estrada seguia ao longo da costa e na outra saída da aldeia havia um pequeno santuário junto no topo da arriba. Toda ela se desmoronou no mar com quase toda a aldeia a ir com ela.

– Lamento.

– Já foi há muitos anos. Fiquei eu e mais uma meia dúzia de pessoas que entretanto se foram embora.

– E o senhor ficou porquê?

– Senti que alguém tinha que alimentar as almas dos que partiram nesse dia.

– A sua história é muito triste. Espero enriquece-lo um pouco por aqui ter parado.

– Ainda bem que parou, se continuasse não iria a lado nenhum. A estrada nunca chegou a ser reconstruida, nem sei bem porque se meteu para aqui. Perdeu-se?

– Não de todo. Sigo sem destino, apenas pelo prazer de sentir a estrada e de deixar muitas coisas para trás.

– A procurar esquecer uma parte da sua vida, estou a ver.

– Sim, algo parecido. A procurar algo que me traga vida nova.

– Acho que está no caminho certo. Fique por agora, come comigo e depois procuramos um destino para si.

Foi depois desta frase que ele olhou os olhos do homem e viu-os sem vida, olhos negros e um fundo ainda mais escuro. Refletiam a morte vestida de ultima refeição, soavam ao carvão em brasa e emanavam a paz de uma estrada sem sim.25

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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