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Estás dependente da pressão da sociedade?

Desejamos todos competir por algo que possa valer apena. Para ti, pode ser um trabalho. Um trabalho que garanta uma posição para a qual estudaste, para a qual possas até ter talento. Um trabalho que possa colocar-te na senda do sucesso. Que te possa fazer ganhar dinheiro. Dinheiro esse que te pode fazer comprar coisas que tantos no mundo já possuem. Porém, não podes ficar atrás. Um carro mais bonito. Uma casa melhor. Um conjunto de viagens. Podemos condimentar a qualidade de vida com umas idas ao restaurante, ao cinema, teatro, bares, passeios, escapadinhas de fim de semana. Contudo, fazer isto sozinho não tem graça.

É necessário uma parceira ou para não ferir suscetibilidades, um parceiro. Mas para ter uma parceira ou outro, precisas de estar equilibrado. Precisas de dar segurança, precisas em muitos casos de provir. Não podemos ficar mal na fotografia da vida. É necessário tirar a senha da felicidade. No meio de tantas senhas que retiras desse pote, são várias aquelas que ficam por tirar. Terás tempo. Terás tempo para tirar a senha da incoerência, do egoísmo, da insatisfação, da ambição. As senhas são inúmeras. Compras, vendas, amores, desamores, consolo, tristeza, relaxamento, intuição, produtividade, humilhação, fornicação, riqueza, pobreza, avareza, luxúria, teimosia, abraços, beijos, saudades, vinganças, esperanças, memórias e tantas histórias. Em cada uma das senhas que retiras, é um pedaço de história, daquilo que nunca foste e daquilo que jamais serás.

Somos obrigatoriamente robotizados e coordenados socialmente para agir seguindo os parâmetros da sociedade. Neste mundo louco quem pensa que é… jamais o foi. Ninguém é absolutamente ninguém a não ser a pessoa que sonhou ser. Ninguém carrega o seu verdadeiro nome. O nome é imposto, as regras são ensinadas, a moralidade é criada de forma a sustentar o teu equilíbrio. Não podes desde cedo tomar para ti um conjunto de ideias que te personifiquem exatamente na pessoa que és. E já te questionaste quem verdadeiramente és? Ou de quem és? És da mãe? És do pai? És do mundo? És a imagem do consumo? Já reparaste que és sempre de alguém mas nunca és verdadeiramente de ti? És o aluno da professora. És o filho querido e amado, que carregas o nome de pai e de mãe. És o empregado de A, B ou C. Pertences à instituição X. És o namorado, amante, marido, mulher de alguém. És viúvo ou viúva daquele que se foi. És dependente do dinheiro, és dependente do trabalho, és dependente do que produzes e crias. És dependente dos amores que tantas vezes são infratores, mas és de quem afinal? De ti? Dos outros? Ou que se lixe… e não és de ninguém?

Esta pressão de estar dependente, de ser dependente gritando que a liberdade é o cunho pessoal da montra de regras que carregamos como, se dela fossemos pássaros, não é mais do que uma imagem desfocada do que gostaríamos de ser e não somos, do que sonhamos ser e não fomos. O tempo passou muito depressa e demasiadamente acutilante para muitos. Foi-se o desejo intenso, o sonho de ser, porque se trocou esse amor por nós, pela intensa pressão da ideia dos outros. Roubaram-nos de nós. Essa é a verdade.  Competimos pela sobrevivência material e a pressão de ser determina o nome que dado por outros, possa reluzir como motivo de orgulho de conquistas tidas por nós e falhadas por outros.

Nesta selva de betão, somos leões domesticados. Pressionados sistematicamente ao jugo do outro. Eis a liberdade de não ser quem somos: “Faço sim senhor, produzo sim senhor, chegarei cedo e sem ardor! Certo! E para quando meu senhor?”; “Amo sim senhor, perco em toda a minha dor. Assim farei meu amor! Não te zangues por favor”; “Estarei pronto sim senhor! Assim será feito e essa meta cortarei”; “Peço desculpa, peço perdão, tentarei outro tipo de Ação.”

Esta sistematização de moralidade falseada, robotização e vazio espiritual que apenas é traduzida num favorecimento de submissão ao conjunto das regras da vida, retira de ti a total liberdade que um dia submetida nos braços de bocas devoradoras, dependentes da tua energia para a produção do seu brilho, dificilmente será alcançada, dificilmente será reconquistada, dificilmente será novamente encontrada.

A pressão que nos submetemos a profissões, amores, degraus que tem de ser alcançados o quanto antes produzem um certo tipo de loucura intensa e desejo desmedido de mais e mais. O problema é que pensamos demasiadamente no ato de ter, mas nunca no ato de ser. É um pluralismo acentuado que hierarquiza os outros e te destitui de ti. Ainda que penses,  que és tu o comandante dessa tua vida, onde tudo te foi liminarmente ensinado.

As regras, os focos, as formas, os conceitos, as ideologias. É assim que funciona a selva. Cega-te, deixa-te amestrado e o único antídoto que possa fazer efeito de forma a seres tu é a mudança que tarda em chegar, que tarda em brilhar. Essa dependência de trabalhos, filhos, dinheiro, casas, carros, que te aprisionam a uma falsa ideia de felicidade, não é mais do que sintomas adjacentes de uma doença sem cura à vista. Emancipar-te dessa prisão, dessa vida tresloucada que sempre te foi roubada é o passo que marca a diferença.

É preciso aprender a respirar, é preciso aprender a refletir, é preciso aprender a ser. A adornar a vida com conceitos de melhorias internas, a desfazermo-nos dessa pressão, dessa robotização que nos engole para os esgotos de sociedades ávidas e pérfidas em marcar-te apenas com um número. Essa pressão de conseguir, de ter, de fazer para o outro, de retornar amor pelo outro, de enriquecer a vida do outro à custa da dureza do teu sangue e suor… não é nenhum tipo identificado de pressão que se digne registar como humanizada. É apenas apego à ideia de uma felicidade liquida. Para a sociedade és um número, para os outros um amigo, um amor. Para ti a pressão, a falha do tempo, a imagem esbatida com o passar dos anos é uma memória de uma triste história.

Pressiona-te para teres tempo de ver o pôr do sol. Faz-te acompanhar pelos amores, pelos amigos e quem sabe pelos infractores. Pressiona-te para contares histórias de vida. Pressiona-te para ajudares quem necessita e por ti grita. Pressiona-te para estenderes a mão a quem te clama por ela e sente a sua chama, fruto do seu drama. Pressiona-te para enxaguares lágrimas, ainda que oiças vaias. Pressiona-te para beberes da vida tudo aquilo que lhe dê sentido.Não sejas um candidato do sistema, um número de mais um tema. Não sejas apenas aquele que passa o chip no metro, no autocarro, no comboio e na vida. Sê sempre um pouco mais. Porque de menos…já todos somos.

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Bruno Fernandes

Nascido a 29 de Dezembro de 1975, natural de Lisboa, Bruno Fernandes, bloggler ativo há já alguns anos, dedica-se essencialmente à luta pela mudança interior e novas formas de entender o ser humano através da sua experiência de vida. Cinéfilo ativo e leitor assíduo.

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