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Esta velha idade

Eu via-a todos os dias, no parque infantil. Na minha velha idade, restavam-me pequenos prazeres diários, e observar as crianças do bairro a brincar era um deles. Invariavelmente, todas as tardes, aquela mulher – para mim, ainda uma menina – estava lá com a sua filha. Parecia feliz, serena com a vida, e gostei dela à primeira vista. Sentava-se sempre no mesmo banco, sozinha, a rir-se constantemente para a filha, mesmo quando a menina não olhava para a mãe. Um dia, aproximei-me e sentei-me.

“Sou a Lourdes” apresentei-me. Na minha velha idade, não temos tempo para ter vergonhas.

“E eu a Marta” sorriu-me. Não tinha ficado ofendida com a minha intrusão.

Não precisávamos de falar mais. Todas as tardes nos cumprimentávamos e sentávamos no mesmo banco, e ficávamos em silêncio. Ela, a ver a filha dela a brincar. Eu, a ver a infância e a alegria inocente.

Uns meses depois de a ter visto pela primeira vez, notei-lhe algumas diferenças. Parecia mais magra, e cansada. Provavelmente, era o trabalho, pensei. Mas quando nas semanas seguintes a vi de lenço na cabeça e sem sobrancelhas, percebi. A maldita doença que me tinha tirado tudo, tinha-lhe chegado ao corpo.

“Espero que esteja bem”, disse-lhe. Um desejo estúpido, certamente que não estava bem.

Ela olhou para mim. Não viu pena, viu apenas tristeza.

“Depois de me diagnosticarem, decidi vir com ela todos os dias ao parque. Não sei quanto tempo tenho. Os médicos estão optimistas, mas foi como se a doença me tivesse despertado… Nunca sabemos quanto tempo temos, com cancro ou sem cancro”.

O cancro. Chamava-lhe pelo nome, eram íntimos.

“Concordo” disse-lhe, apenas. E concordava, e não havia nada mais a dizer.

Tentei ajudar como consegui. Deixava-a dormir encostada ao meu ombro, com a promessa de que olharia pela filha dela. Nos dias em que estava mais em baixo, depois da quimioterapia – com o cancro, nunca sabemos o que é pior, se a doença ou a cura –, eu deixava-a chorar em silêncio, só com a minha mão para apertar. Mas eram mais os dias em que ela mantinha o sorriso e a energia, a boa-disposição, a cara alegre. Nunca lhe perguntei que tipo de cancro, e aquela foi a única conversa em voz alta que tivemos sobre aquela doença que ela evitava que a definisse.

Um dia, deixou de vir. Não vinha ela, nem a menina. Podiam estar doentes, ou ter vindo mais cedo. Esperei, e continuei a procurá-la cada vez que descia até ao parque. Mas depois de duas semanas sem voltar a ver nenhuma das duas, convenci-me que o inevitável tinha acontecido, e, a olhar para aquela infância, chorei. Não era minha filha, nem da minha família, mas era uma mulher cheia de vida e com uma criança pequena, merecia a oportunidade de a ver crescer.

Continuei a ir ao parque, claro. Mas aquele prazer que eu tinha parecia esmorecido. Era curioso como, com esta velha idade, nos conseguimos ainda surpreender. Com o mundo, com os sentimentos, connosco. Fui, em busca do prazer antigo que talvez não voltasse a ser igual. E um mês depois, vi-a. À menina, não à Marta. À menina, de mão dada com um rapaz, com ar cansado. Como por destino – ou talvez não –, ele sentou-se ao meu lado.

“Eu…” não sabia se usar o presente ou o passado. Qual seria a forma mais segura? “Eu costumava fazer companhia à Marta, quando ela cá vinha.”

Ele sorriu, um daqueles sorrisos para evitar mais conversas com velhos. Depois, olhou para a menina, e soube como é que eu o tinha reconhecido.

“O meu nome é Lourdes” arrisquei de novo.

Os olhos dele brilharam, como se me reconhecesse.

“Claro, a dona Lourdes! Não se preocupe, ela está bem. Foi operada e… foi complicado, com a recuperação e tudo… Bom, só daqui a uns meses é que poderá cá voltar. Mas vai tudo correr bem”. Será que ele tinha lido alguma coisa nos meus olhos?

“Folgo em sabê-lo” sorri-lhe.

“Ela vai ficar bem” repetiu ele, talvez para também se convencer. Que operação teria ela feito?

Ele olhou para mim, de repente com os olhos brilhante e brincalhões. Eu sorri-lhe, e era o meu sorriso mais sincero. Estava mesmo aliviada e feliz por aquela família que nem conhecia.

“Se quiser, venha jantar lá a casa amanhã” convidou-me. “De certeza que ela vai gostar de a ver.”

Aceitei, sem saber porquê.

Realmente, o mundo tem maneiras fantásticas de nos surpreender, até nesta velha idade.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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