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Essas pequenas coisas

Levantou-se e saiu de casa com a mochila de sempre. Sem pensar, foi até à praia e deu um mergulho. Era de madrugada, seis da manhã, mas a água chamava-a em sonhos, hipnotizando-a. Um mergulho. Ouviu o barulho silencioso da água, sentiu o toque frio e duro na pele, esqueceu-se dos sons que vinham da rua, lá, longe, onde ela não estava. Pôs a cabeça de fora. Respirou e sentiu frio na cara molhada. Mergulhou de novo e abriu os olhos. Aparte. Outra ela. Outro mundo. Outra ela noutro mundo.

E só depois desse mergulho é que se sentia acordada e viva.

Saiu da água e secou-se na mesma toalha de todos os dias. Estava cheia de sal, mas dava para a proteger um pouco do frio que ainda fazia àquela hora – era Agosto, e não tardaria muito em aquecer. Sentou-se na areia com a toalha enrolada nos ombros, e observou o mar – ou melhor, o oceano. Não pensava em nada e pensava em tudo, respirava o cheiro a maresia, fechava os olhos para ver bem.

Com um impulso pôs-se de pé. Começava a aquecer. Afastou-se da água, era hora de pisar o cimento, as pedras da calçada, de proteger os pés com sapatos bonitos, de estar nesse mundo de gritos inexplicáveis e de ritmo ensurdecedor, aniquilante, em fastforward. Calçou umas sabrinas e vestiu um vestido. Com uma escova, penteou o cabelo, deixou-o secar ao ar livre com sal, e lambeu os lábios para sentir o seu gosto.

Apanhou o comboio. Ainda podia ver o sossego, sentir-se calma. Fechou os olhos e adormeceu por dez minutos. Sonhou com a avó de um amigo, um sonho estranho sem sentido, uma vígilia, porque até no sonho sabia que estava a sonhar, e que na realidade estava acordada. Complexo e rápido, ela esqueceu-se assim que olhou pela janela fora. 40 minutos de viagem até Lisboa. A sua praia longe.

No metro, os empurrões. O apito das portas, a voz feminina que anuncia as estações demasiado alto. “Espere! Espere, não feche! Mas que raio…” uma senhora velha refilava, indignada, como se o maquinista do metro a conseguisse ouvir. “Oh Cláudia, entra lá!” gritava para uma rapariga nova, simples, que olhava para todos sem olhar realmente. Era estrábica, e parecia olhar para toda a gente ao mesmo tempo, enquanto se ria do ridículo da situação, como se tivesse acabado de receber a sua primeira declaração de amor. Outros riam-se da senhora, comentavam que o maquinista não a podia ouvir. As unhas compridas, de gel, brilhantes, as camisolas com cores de verão, o cheiro, mesmo de manhã, a suor, a cansaço, a pés e a sujo, misturado com champô, com aftershave, e perfume e base de mulher.

Suspirou, e pensou no mergulho daquela manhã.

A senhora do metro anunciou a sua estação – demasiado alto, havia feedback e doíam-lhe os ouvidos –, e ela preparou-se para sair. No reflexo da porta estava ela. Ela, de vestido e sabrinas, com o cabelo penteado, pronta para o trabalho. Ela, que ainda sabia a sal e cheirava a mar, que devia ter areia na mochila e o brilho do sol no corpo. As portas do metro abriram-se. Sentia-se exausta com o dia que aí vinha, e também estranhamente feliz com as pequenas coisas – com um mergulho, com uns risos no metro, com um tropeção no pequeno degrau ao chegar ao trabalho. Deixou cair a mochila para não cair ela, e conseguiu equilibrar-se. Só aí se apercebeu que se tinha esquecido da lancheira em casa.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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