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Esquerda e Direita: uma realidade desfasada?

Desde sempre que estamos habituados aos conceitos de esquerda e direita na política. A história dos últimos dois séculos está cheia de episódios onde esta dualidade é uma variável muito importante e significativa da equação política mundial. No entanto, tenho-me questionado sobre a relevância desta dualidade, que tem dado provas de, muitas vezes, ter sido a causa em vez da solução para os problemas sociais e económicos das populações dos países e das regiões do globo, e creio que, hoje em dia, num mundo pleno de transformações e alterações a todos os níveis, é urgente compreender se ainda se justifica um pensamento bicéfalo sobre a política, ou se, efectivamente, este é um modelo diminuído no seu potencial e senão mesmo totalmente ultrapassado. Este modelo conceptual, desde há alguns anos, revela-se desajustado e ineficaz para resolver as questões e as problemáticas dum mundo que muda cada vez mais depressa e que necessita de respostas rápidas, claras e directas. Independentemente dos sistemas políticos democráticos vigentes, a alternância entre esquerda e direita apenas tem trazido à tona as transformações e rupturas das próprias sociedades, as quais necessitam cada vez mais de novas visões para um mundo global, mas que ainda se encontra muito fechado nas “quatro paredes” do Nacionalismo.

Juramento na sala Jeu de Paume
Desenho a tinta – 1791 – “Juramento na sala Jeu de Paume 29 Julho 1789”, Jaques-Louis David – Versailles – Musée National du Château

Note-se que a origem das expressões “Esquerda” e “Direita” tem lugar em pleno final do século XVIII, no espectro da Revolução Francesa, quando membros da Assembleia Nacional naturalmente se dividiram entre os que apoiavam o rei (sentados à direita do Presidente da Assembleia) e os que apoiavam a revolução (sentados à esquerda). Com a vitória final da revolução, embora ainda sem a conotação política actual, a Assembleia mudou de figura, mantendo-se os mais conservadores do lado direito e os mais independentes e inovadores do lado esquerdo. É apenas no final do século XIX que os termos Esquerda e Direita começam a ser usados nos nomes dos partidos políticos franceses, progredindo depois para um pensamento político global no século XX, surgindo em cada país os partidos de Esquerda e de Direita. Apesar de se falar em partidos de centro, por norma são conotados com centro-esquerda e centro-direita, nunca tendo uma posição realmente de equilíbrio entre os dois pólos.

Muitos politólogos têm-se questionado sobre a relevância deste pensamento político, denotando sempre que existe essa clara divisão dentro do espectro partidário dos países e das Assembleias e Parlamentos, pelo que as razões são mais pró dualidade do que contra. O problema não está no conceito, mas sim na forma como ele é aplicado, sendo aí precisamente que o modelo político actual falha na resposta às necessidades nacionais e supra-nacionais. Não se trata claramente da diferença de pensamento ou ideologia de cada indivíduo e a necessidade social de nos agruparmos aos que partilham da mesma visão. Isso é natural e talvez nunca mude de todo. Trata-se fundamentalmente da estrutura política e da forma como ela aplica na prática esta diferença ideológica.

A grande questão que os modelos políticos se deveriam colocar no momento presente é: Para quem se direcciona a política? Será para os egocentrismos ideológicos (sejam eles de Esquerda ou de Direita) como fundamentalmente tem acontecido? Ou será efectivamente para o país, para as suas populações e para as suas necessidades sociais e económicas?

Veja-se que, cada vez que os governos mudam de cor política, existem uma série de assuntos que automaticamente levam outros rumos e legislação que é mudada sobre temas já debatidos e trabalhados,  levando a avanços e retrocessos constantes e que tantas vezes criam cisões e faíscas sociais. Note-se também que a própria nomenclatura que é usada nas Assembleias e Parlamentos, chamando a uns Governo (e Partido do Governo) e a outros oposição, dá-nos automaticamente a ideia da luta, do confronto, da dualidade, mas, principalmente, do não compromisso.

Este é o formato duma política de egocentrismos ideológicos que, como mostram as adesões aos actos eleitorais e o crescente desacreditar das populações, nomeadamente das camadas mais jovens, já não corresponde nem adere à realidade das necessidades dos povos. A conceptualização política de divisão entre Esquerda e Direita já não faz sentido no mundo de hoje, pois não está focada no que é realmente importante na política: as Pessoas.

É curioso que, no início dos anos 90 do século passado, surgiu uma ideologia social-democrata que esperava ser uma alternativa a esta forte dualidade e uma reconciliação entre Esquerda e Direita: a Terceira Via. Embora tivesse a intenção de, por si só, conciliar os dois lados desta moeda, o sucesso deste conceito teve uma vida curta. Depois dum final da década de 90 e de um início do século XXI (de alguma forma) prósperos, os líderes e defensores da Terceira via começaram a sofrer, por todo o mundo, derrotas sucessivas. Recordemo-nos, por exemplo, que nos Estados Unidos da América, Bill Clinton é obrigado a afastar-se da Presidência, após o escândalo sexual com Monica Lewinsky; em França, Lionel Jospin perde as Eleições Presidenciais, mas ganha as legislativas, sendo Primeiro-Ministro por apenas um mandato; em Portugal, António Guterres demite-se a meio do segundo mandato, devido aos maus resultados do Partido Socialista nas autárquicas. Provavelmente o caso de maior sucesso da Terceira Via tenha sido Tony Blair, no Reino Unido, que consegue a vitória do Partido Trabalhista por três mandatos, afastando-se por vontade própria, quando a sua imagem ficou afectada pela polémica da segunda Guerra do Iraque liderada por George W. Bush, Presidente dos Estados Unidos.

Efectivamente, não existem fórmulas mágicas, muito menos em política, mas não é através da criação de mais uma facção, como na verdade foi a Terceira Via, que se resolvem os problemas já referidos. Acredito que o que realmente falta no pensamento político mundial é o conceito de integração e compromisso entre as diferentes linhas ideológicas. Isto pressupõe um diálogo e uma união em favor dum bem comum, exigindo uma abertura ideológica e um compromisso a longo prazo de todas as facções políticas. Utópico? O que, por um lado, parece um ideal de perfeição, que é difícil de alcançar, por outro, pode ser um passo extremamente importante para a sustentabilidade política e económica. Não se trata de pôr em causa o sistema democrático que, por norma, dá força a um ou a uma coligação de partidos e com isso define uma tendência duma legislatura, mas sim de tentar que os vários grupos consigam ultrapassar as limitações ideológicas e criarem diálogo e integração de soluções,  de forma a criarem soluções concertadas e sustentáveis para os vários problemas das sociedades mundiais. Quem sabe se não poderemos um dia ter Governos verdadeiramente integrados, compostos por todas as áreas políticas eleitas, a dialogar e a trabalhar em conjunto para o desenvolvimento sustentável dos países?

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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