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Espontaneidade cultural portuguesa

Eventos de grande dimensão atraem milhares e satisfazem os seus primeiros instintos, de forma instantânea. Numa dimensão mais pequena, pintores, escultores, músicos, compositores aprimoram a sua arte para pequenos aglomerados humanos, com vista à gesticulação do espírito crítico. Daqui, deve partir uma reflexão sobre a adesão à espontaneidade cultural em Portugal.

Primeiramente, é de atentar o modo de como a arte é vista. As concepções artísticas da generalidade dos portugueses são reduzidas e redutoras. Por exemplo, no caso da imprensa, os jornais mais sensacionalistas, bem como a “prenza del corazón” apresentam-se-nos como os mais rentáveis. A uma grande massa está em falta a aquisição de uma perspectiva cultural, vaga e menosprezada. Isto leva a uma desvalorização da cultura, onde permanece o sentimento de estranheza e complexidade para a maioria. Aliás, há uns tempos, o próprio primeiro-ministro luso desvalorizou a única colecção de Joan Miró.

De seguida, a manutenção de uma cultura do visual. É a curiosidade e o interesse por saber que atraem milhares: os escandalosos títulos, as vistosas imagens, a intensa pictografia. A extravagância absorve a simplicidade, fazendo com que ganhe protagonismo. Neste sentido, o Marketing e a Publicidade revelam-se potenciadores desta realidade, especialmente no que toca ao incentivo ao consumismo exacerbado. Os E.U.A são apontados como uma grande indústria cinemática, detentora de enormes estúdios, que rentabiliza avultadas quantias monetárias, destacando-se pela criação de filmes com um enorme volume de efeitos especiais. Deste modo, a integração social vai colocar-se no primeiro posto. A partir deste exemplo, indique-se também a recepção além-fronteiras, da qual se cria a necessidade de se equiparar a outros países.

Além disso, é de destacar a vontade de querer mais e maior. Apesar de já ser algo inerente ao ser humano, o desejo de engrandecer já vem desde os tempos mais remotos da nossa História. Exemplificando, o absolutismo joanino, do século XVIII, apresentava-se poderoso e imponente, sem esquecer que o rei era o “missionário” de Deus. Numa sociedade profundamente religiosa, que, ainda hoje, mantém esses valores, embora cada vez menos visíveis, o rei era quase que a presença física de Deus na Terra. Sendo assim, a “arraia-miúda”, como diria Fernão Lopes, olhou essa grandeza com grandes e atentos olhos. De modo global, persistiu e persiste, ainda, um nível de vida pouco favorável, em Portugal. Assim, os objectivos de engrandecer continuam na mente, algo que explica, parcialmente, a enorme adesão aos festivais de Verão, ou aos concertos locais de música popular (frequentemente, recorrentes de uma linguagem típica do povo, por exemplo, em romarias). Novamente, prevalece a animação e a mera satisfação, visando a obtenção de momentos prazerosos, do que o apreciar de obras artísticas.

Continuando, atente-se naquilo a que se designam tipos de cultura, os quais se dividem entre a cultura de massas e a cultura de elite. Desde há muito tempo que se considera que as massas têm acesso a conteúdos culturais do foro popular e que as elites têm acesso a conteúdos culturais do foro intelectual. Hoje, assiste-se a uma tentativa de mistura de ambas por vários artistas contemporâneos, muito embora o debate sobre este tema seja muito reservado e pouco aberto, o que, de certo modo, priva, permita-se a expressão, “o comum dos mortais”, isto é, uma espécie de intelectualização generalizada. Por exemplo, certas bandas intérpretes de música pop tentam reutilizar certos sons, de forma a conjugar nos seus temas musicais, como é o caso do jazz, que, apesar de popularizado nos seus primórdios, gradualmente, se elitizou.

Pensando nos dias em que vivemos, as novas tecnologias ocupam, também, o seu lugar, cada vez mais. Por um lado, constituem um meio de modernização e de popularismo intensivos, o que coloca de lado os valores tradicionais. Por outro lado, constituem um meio de propagação e de expansão intelectual, se bem que lentamente, o que coloca à superfície um pouco de objectos musicais, cinemáticos, literários, entre outros de teor diversificado. No caso das redes sociais, a criação de páginas no ‘Facebook’ consegue mover milhares e, se for o caso, milhões de fãs, promovendo a massificação. Contudo, com menor relevância, as mesmas páginas também conseguem ser um meio para a divulgação de cultura intelectualizada, numa tentativa de fazer chegar a sua voz mais longe, captar outros públicos. É de notar na disponibilização de conteúdos informativos pelos mais diversos websites, havendo aqueles que para tal se especializam, chegando a transformar-se em verdadeiras enciclopédias online, como a Wikipedia.

Em jeito de conclusão, sumarizem-se os factores explicativos do ser espontâneo da cultura portuguesa: o cepticismo artístico, a preservação da visibilidade, a influência estrangeira, o desejo biológico de conquista, a divisão cultural, a expansão tecnológica. Possivelmente, um cenário que poderá ser visível, daqui a umas décadas, poderá passar por uma união da cultura juntamente com um aperfeiçoamento do conceito da arte, aliados à formação cada vez mais especializada nas mais diversas áreas juntamente com o conhecimento e a informação cada vez mais acessíveis.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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