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Esperando o tempo que não chegava

Como num ritual, começas por calçar as collants brancas como a tua pele, devagar para não romper, enquanto cantas baixinho a minha música preferida. Um som familiar e quente numa altura fria e triste. Vestes a saia preta justa, que contrasta com a tua pele muito branca – e ainda mais branca por causa das collants – e uma camisa vermelha de cetim com decote em V. É essa a minha preferida, pensas orgulhosa; tens a certeza! Arranjas o cabelo num apanhado elaborado, primeiro fazendo uma trança e a seguir um coque, e olhas-te ao espelho, primeiro virando a cabeça para o lado direito e a seguir para o esquerdo, para garantires que está como queres. Apanhas alguns cabelos soltos com ganchos, frustrada por nunca conseguires a perfeição à primeira. Pões algum creme hidratante na cara, olhando-te ao espelho, e de seguida decides maquilhar-te: batom vermelho e um longo risco preto nos olhos que te dá esse ar exótico que eu sempre adorei. Vacilas aos veres uns sapatos vermelhos, mas acabas por calçar os sapatos pretos de verniz com salto agulha. Finalizas com um pouco de perfume, como todos os dias, e vais para a sala decidida.

Apoias-te no parapeito da janela, com o vidro aberto, pelo centésimo dia consecutivo.  O vento sopra mais forte hoje, o frio instala-se na cidade. O inverno chega. Sentes um arrepio, mas nem ligas; aliás, o teu corpo sente um arrepio, tu apenas suspiras e preparas-te para esperar, sempre com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos. De certeza que eu estou a chegar. De certeza. É hoje!

Olhas de relance para o pacote de cigarros que deixaste à janela na noite anterior. Não resistes; tiras um e acendes. Quando eu voltar, vais deixar de fumar. Vamos os dois, como nos tínhamos prometido um ao outro. Algumas pessoas fazem votos de casamentos; nós, aparentemente, fazemos votos de largar vícios. “Prometemos amar-nos com paixão para sempre e abandonar juntos o tabaco”.

Uma pequena luz vermelha brilha no telefone, piscando incessantemente. Ignoras. Sabes que, se não souberes, não existe. É só isso: basta não ouvires, não saberes. Fazes orelhas moucas às mensagens do trabalho e da família, em tom preocupado e aflito, que ouves sem querer quando não atendes as chamadas. Ignoras o pó que se acumula por toda a casa e o ar de abandono que a cada dia vai adquirindo – a casa, mas também tu. Não queres olhar para os vizinhos que fazem comentários e abanam a cabeça com pena, compaixão, incompreensão. Nada te interessa. Eu vou voltar. Não queres saber o que te dizem, eu não posso ter morrido! Para ti, é impossível, inconcebível! E se fechares os olhos com força suficiente, essa realidade irreal desaparece. Ignorar. Não saber é não existir.

E pensas que se fizeres tudo correcto, se vestires as roupas certas, na ordem certa, com o ritual certo, e esperares tempo suficiente, eu vou voltar para ti. E hoje tens a certeza: vai ser neste dia!

Continuas à espera, cigarro após cigarro, com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos. Não te apercebes que te estou a abraçar, longe e perto, eternamente, enquanto pensas em mim.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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