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Escravos a cada clique

A Facebook Inc. continua a aumentar as suas receitas. E os utilizadores são a principal razão do lucro. O utilizador informa-se, entretém-se e fala com os amigos. A empresa ganha com a utilização. Alguns poderiam dizer que é uma troca, outros diriam que é uma exploração.

As receitas do segundo semestre deste ano da Facebook Inc. foram superiores a seis mil milhões de dólares. As receitas da publicidade foram um dos factores decisivos para este valor. O número de anunciantes aumentou desde de 2015 e, em Julho deste ano, a empresa norte-americana dizia ter três milhões de anunciantes regulares.

Porém, compensa às marcas apostar nesta plataforma? Sim. E qual é o seu atractivo? Os seus 1,71 mil milhões de utilizadores activos. Os dados gerados por estes são a mercadoria vendida, que torna as estratégias dos anunciantes mais eficazes. A “vigilância” e a publicidade direccionada são, então, dois elementos essenciais no modelo de negócio deste social media.

Os utilizadores criam, partilham conteúdos e comunicam com os seus amigos. Todas as acções são registadas e avaliadas. A sua actividade cria, então, uma imensidão de dados que são vendidos às marcas. Estas usam-nos para desenvolver as estratégias publicitárias, que, nos social media, são, na maioria das vezes, baseadas na publicidade direccionada, ou seja, os anúncios surgem em função dos interesses dos utilizadores. E esses interesses são indicados precisamente pela sua actividade.

O elemento essencial para o funcionamento deste modelo de negócio é, então, o utilizador. Com a redução do número de utilizadores, diminuiria o investimento publicitário e a empresa iria à falência.

E que recebe o utilizador em troca? O entretimento, a diversão, as conversas com os amigos. Contudo, não há qualquer retorno económico.

Christian Fuch considera que há uma exploração do trabalho. O investigador austríaco fala no surgimento do “playbour“, fusão de “leisure” (lazer) com “labour” (trabalho), porque o utilizador entende este “trabalho” que dá lucro às empresas como um momento de lazer, um momento de diversão. Não sente que está a trabalhar, mas, simultaneamente, está a criar valor económico para empresas como a Facebook Inc.. No entanto, será que nos sentimos verdadeiramente escravos destas grandes companhias?

Todos os serviços têm um preço, inclusive os gratuitos. O utilizador informa-se, entretém-se e fala com os amigos. A empresa ganha com a utilização. Alguns poderiam dizer que é uma troca, outros diriam que é uma exploração. Contudo, o problema não está naquilo que cada um lhe decide chamar. O problema é a falta de um consentimento esclarecido. O problema é que o utilizador nem sempre está consciente do preço que tem que pagar. Sem a consciência do preço, a cada clique somos escravos sem a escolha de entregar os frutos do nosso trabalho aos senhores da web.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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