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Escondidas

O mundo fica mais bonito quando o Sol se põe. As cores do fim da tarde aconchegam-me a alma e eu sinto que poderia ficar a olhar para o pôr-do-sol para sempre. Suspensa no segundo antes do sol desaparecer, quando o céu parece incendiar o mundo, terra quente, mar em fogo.

Suspiro.

O teu braço abraça-me o peito e o pescoço, e eu toco-te, sinto-te a pele e o cheiro. Ficamos assim muito tempo, sem nada para dizer, ou talvez a dizer tudo.

“Vem”, dizes, soltando-me. Tu sabes que se me soltares, eu corro para ti. Tens tudo pensado, calculado. “Vamos”, sorris quando eu te sigo.

Já é noite quando chegamos ao carro. Tens aquele brilho sedutor no olhar, de quem esteve a pensar em sexo. Passas a língua nos lábios, mordes o lábio inferior – ligeiramente, sedutor, quase como se fosse por acaso – e olhas para mim. Arrepio-me, sei o nosso caminho e o nosso destino.

“Então?”

“Então o quê?” pergunto, para provocar, como se não soubesse.

“Vamos ou ainda queres dar uma volta?” entras no jogo. Ou talvez não, contigo às vezes é difícil de saber.

“Quero dar uma volta”, decido.

Claro que decido adiar, por mais vontade que tenha. Nós mulheres somos assim; o que é bom, faz-se esperar, seja telefonemas, beijos ou sexo. Quero que continues a tentar seduzir-me, a tentar adivinhar todos os pontos que me podem enlouquecer. A dizer todas as palavras certas, que me fazem derreter de prazer sem que me toques. Que me toques em todos os lugares essenciais – que são todos, porque basta-me um roçar da tua pele. Tu sabes. Dás-me a mão, quase inocentemente, como dois namorados que ainda se estão a conhecer – e não somos eternos namorados, que passam a vida toda a tentar conhecer-se? Não somos todos assim? Ignoro o pensamento filosófico quando me tocas levemente, as pontas dos dedos na palma da minha mão, a fazer-me cócegas. Quase que te sinto tremer, mas deve ser só impressão; talvez seja eu quem treme, quem está nervosa.

Sem me aperceber, estou contra uma parede. Empurras-me com a força suficiente para me excitar sem me magoar. Beijas-me, e beijas-me, e beijas-me, e eu beijo-te, e não é suficiente, e brincas com a minha língua, e as minhas pernas tremem de desejo, e beijas-me. Respiramos a mesma respiração, eu a tua e tu a minha, respiramos esse hálito quente dos beijos, esse hálito quente que excita, que no inverno ferve, como se fôssemos vulcões. Porque somos.

Levantas-me o vestido com uma mão, com a outra tocas-me no braço, no cabelo, nas costas, e eu sorrio contra os teus lábios – sabia que era boa ideia trazer vestido. Sem cuecas. Sim, sou muito manhosa. Quando me levantas o vestido e notas a minha travessura, sorris também, e isso ainda me excita mais. Puxo-te para mim, cruzo os meus braços atrás do teu pescoço e ainda te puxo mais para mim, como se pudéssemos estar mais perto. Tocas-me, enquanto eu te agarro e não te largo; tocas-me, e tocas, e brincas com esses dedos que há pouco me faziam cócegas nas mãos. Brincas comigo, esta é a tua travessura. Fecho os olhos de prazer. Prazer no peito, na pele, nos braços e nas pernas sem força, na barriga fria. Eu não te consigo soltar, não quero que pares, beijo-te ainda mais, ofegante, quase a gemer, baixinho, para ser só nosso. Afastas-te por momentos e olhas para mim, enquanto sinto os teus dedos lá em baixo, a mexer, a provocar. Ficas muito sensual a observar-me. Quero fechar os olhos de prazer, deixar-me ir, mas até o estar ao ar livre me deixa mais ofegante, mais excitada, e beijo-te de novo. E tu beijas-me outra vez. Os teus dedos fogem de mim, fogem do meu sexo. Protesto, mordendo-te o lábio. Sinto arrepios. Oiço o teu cinto, oiço o fecho da braguilha. Oiço e sei. Sei e arrepio-me ainda mais. Sinto as tuas mãos nas minhas nádegas, sinto que as apertas, como se não as conhecesses. E eu também te toco, desta vez é a minha vez de brincar contigo. Toco-te, toco-te excitado, erecto, e mordo-te o lábio. Brinco com os meus dedos, aperto, sinto-te a quereres-me ainda mais. Agora sou eu que brinco com a tua língua, que te toca, e quero continuar a brincar, vou continuar…

De repente levantas-me.

Olhas para mim, com esse sorriso, esse sorriso, esse sorriso. E depois, como resposta ao meu desespero, sinto-te a ti. A ti, dentro, único, acalmando-me e excitando-me ainda mais. Quero gemer com toda a vontade, quero…

“Hey! Hey!” ouvimos ao longe. Só vemos a lanterna, uma lanterna a vir ter connosco num passo de corrida.

Também começamos a correr, desajeitadamente. Eu tento baixar o vestido enquanto corro, e tu ajeitas as calças. Os dois tentamos arranjar-nos só com uma mão, porque a outra está presa ao outro, a puxá-lo, a não largar. Já não sei se correm atrás de nós, só oiço o som das minhas gargalhadas e a tua promessa quase sussurada:

“Não pensas que acabou, pois não?”

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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