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Era do Luto Digital

Vivemos uma Era de enlutados. Enluta-se por quase tudo, como sempre se enlutou. Fala-se do luto, como sempre se falou.

A explosão digital, onde abarca toda a tecnologia de ponta, que a cada segundo fica obsoleta e progride em inovação, trouxe consigo novas formas de relações sociais. Passámos de crianças felizes e reguilas que viam os “Jogos Sem Fronteiras” e se sujavam até à lua brilhar com as estrelas, a crianças cibernautas, deixando orgulhosos os pais, mais cibernautas e menos felizes que elas. Passámos de passeios de fim de tarde, a caminhadas rápidas e sem perder tempo, para perder peso. Passámos de adultos socias a sociais adultos.

As chamadas redes sociais transportam o charme enganador de uma vida feliz com amigos, em amena cavaqueira, mas, neste caso, pregado ao ecrã de um tablet, ou coisa parecida. Entretanto e enquanto isto, a vida vai acontecendo, deixando no seu trilho não só avanços e vitórias, como perdas e recomeços.

Convém, agora, perceber o que é o luto. Que forma essa de espírito?

Quando se fala de luto, associa-se, naturalmente a uma perda quase irreparável, ligada a uma pessoa, ou animal emocionalmente muito ligado. O luto é composto por 5 fases, que permitem caracterizar a etapa psico-emocional que se vivencia: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Se antes se vivia o luto em recolhimento, hoje em dia busca-se uma espécie de empatia e de almofada onde deitar o ombro, a amizades de bits e bites. Redes como o Facebook vêem-se enlutadas todos os dias, a todo o momento.

Compreenda-se que o luto não é apenas o retratar de uma perda de vida de alguém querido, como também acontece em toda e qualquer situação em que se pressuponha mudança com mágoa, abandono. Uma relação que termine, uma série de arrependimentos, um bom colega de trabalho que mudou de serviço, são exemplos de situações enlutáveis.

Assim será correcto dizer que o Facebook é uma excelente ferramenta para lutos e choradeiras.

O luto existe, tira tranquilidade. Homens e mulheres buscam conforto em amizades que tantas vezes nem conhecem. Tornou-se habitual viver o luto de amor terminado, como que fazendo, ou querendo fazer um funeral público, transformada em campanha eleitoral do ‘eu sou melhor que aquele que perdi’.

Seja qual for a situação, escolhem-se fotos a condizer com o sentimento no momento, enquanto ‘likes’ se esperam num número aceitável, revelando uma quase empatia. Comentários são o desbloquear da etapa. Com mais ou menos alento, vão dando reforços positivos (e muito bem) em situações de vida difíceis, para quem a expõe e vive.

Na era digital, o luto por tudo e por nada acontece na mesma como na vida real, somente numa dimensão bem levedada.

Luto. Essa luta e batalha pela perda que sente. Chega sem avisar, mesmo que se faça anunciar.

Luto. Uma falta que não volta, pelo menos na falta desse instante.

Luto. Ciclone de emoções que afasta do coração aquilo que lhe dá vida.

Luto, portanto, é tudo isso.

É uma ancora, quando o barco naufraga, segurando-o à vida, mesmo na vontade de emergir.

Luto é lutar. Luto é saber que se perdeu.

Luto é a forma mais sentida e instintiva que temos, para exprimir a catadupa de sentimentos e emoções que não queremos deixar partir.

Luto é a manifestação apegada aos limites das emoções, do reconhecimento e da entrega em coração a alguém, ou situação.

Luto é a entrega às emoções e a esperança de que fique resolvido.

Por curiosidade, o mais cobiçado tesouro da história do Egipto escreve-se pelo nome de Tutankamon. A exuberância de adornos evidencia a emergência de tudo fazer, num luto, por um ser que um dia viveu e marcou. A história da humanidade recolhesse, aos poucos e por todo o mundo, com descobertas de cerimoniais fúnebres simples, o luto depois da morte.

O luto está mais que evidente e marcado na rotina das redes sociais. O luto digital é uma realidade tão crua, quanto exuberante.

Enluta-se descaradamente por trivialidades e grandes perdas. No entanto, mesmo que virtual, o ombro amigo acontece e aconchega e, quanto e quantas vezes apenas uma simples palavra basta, da pessoa certa ou da mais improvável, para resolver-se de um luto e voltar à vida.

E, garanto, enquanto leu este artigo, mais um amigo, ou conhecido seu postou um qualquer motivo de luto e estará a aguardar a sua palavra amiga. Já agora, faça ‘like’!

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Ana Cláudia Domingos

Talvez por ter nascido na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, vivo com a cabeça nas nuvens (quase) a tempo inteiro. Para quem vive na cabeça nas nuvens, só isso, não chega. Falta o charme de exprimir emoções e sensações. Enquanto escolha, foi na saúde a minha aposta de vida. Na escrita e outras artes, como na música, encontro aconchego e pó mágico para esta vida. Longe de ser perfeita, enfim.... sou eu!

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