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Entristece-me o meu país

Estas semanas, depois do que foi o 2 de Março, depois de ler mais sobre o perdão da dívida alemã, depois de tanta coisa li isto: Um pai, em Viana do Castelo, falido, sufocado em dívidas, atira-se a um poço com um filho de dois anos nos braços.

E, lembrei-me do outro lado da notícia.

Abismada. Entristece-me muita coisa, mas entristece a muita gente muito mais.

Só me apetece desligar, desaparecer, fazer sumir, ensurdecer, esbardalhar-me contra a parede da hipocrisia dos homens do meu país e do mundo.

Só me apetece gritar, dizer, sussurrar, talvez segredar os murmúrios de um povo que já não sabe calar.

Haja respeito, haja solidariedade, haja fraternidade, haja liberdade, mas já nada disto se consegue à custa da honradez do subserviente do estado. Este estado democrático e liberal afinal, já nem é tanto assim. Faziam hoje aqui falta as “Redacções da Guidinha”. Não é assim?

Pelos idos 1871, a tão aclamada Geração da altura proclamava em Conferências (Democráticas) o saber do que seria melhor para um estado social e democrático – e cristão, altas patentes intelectuais uniam-se e reuniam-se no Casino Lisbonense numa reflexão sabe-se, hoje, infinita. E outros vieram, na mesma época, para esquadrejarem e deitarem abaixo o intuito da verdadeira renovação política e intelectual. Apelidá-la-ia de mocidade intelectual revolucionária de então, não será nenhum favor que lhe faço. A Geração de 70. Constituíam o grupo do Cenáculo: Oliveira Martins, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Augusto Soromenho, Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis, entre outros. Mas, hoje, também se sabe que há tamanha incompatibilidade de uns e outros, que raramente se misturam ou, são vistos sequer em lugar comum, leia-se intelectuais e políticos.

Se calhar, precisamos, de novo, de reler alguns dos folhetos publicados na época, por Antero de Quental com a ajuda de Eça de Queiroz e outros. Eça teria os seus vinte e cinco anos, quando fez parte deste grupo. Quantos jovens com a mesma idade estão sem emprego neste país hoje? E nenhum pensa? Só me apetece dizer ao mundo, o quanto o mundo se deixa enganar, o meu país se deixar enganar todos os dias, se deixa arrastar, o quanto quase gosta de ser enganado, o quanto refila, mas nada de concreto faz. Este povo roubado. Este povo está triste e com fome. Este povo morre aos poucos. Este povo que se fez ao mar incógnito pungente. Este povo está a mirrar e a ser comprado aos poucos. Mesmo, assim, mesmo assim, este povo consegue unir-se e vir um milhão e meio para a rua dizer BASTA. Basta de fome, basta de analfabetos, basta de exploração dos precários, basta de faltas na educação, basta de alterações à língua e à gramática disparatadas, basta de apertar o cinto, basta de aumentos, taxas, impostos e outros mascarados de tais. Basta! Viemos dizer-vos, basta-nos, apre, que já chega!

Alguém ouviu, alguém viu algum poderoso a mexer uma palha sequer nas holdings, nos paraísos fiscais, nas reformas milionárias, nas contratações farsolas de cunhas atrás de cunhas, famílias inteiras em Câmaras Municipais, como nas falsas habilitações, nos banqueiros que agiram de má fé e arruinaram o país, nos políticos que agiram em prejuízo do país, nos bancos de investimento instalados no país, alguém viu algum ministro preocupado com tudo isto? Alguém viu alguém mexer uma palha sequer?

Eu não. Mas, se calhar tenho de ir ao oculista.

E no meio de todo este aparente caos de pessoas sôfregas, por comida e muito mais, um pai atira-se a um poço com o seu filho nos braços… e eu pergunto… incrédula: no meu país?

Há por aí algum Salgueiro Maia? Alguém a quem se lhe tire o sono com todas estas coisas.

Há por aí algum político desprendido da fome bafienta do poder? Vício tantas vezes delatado, pelo menos, desde Luiz Vaz de Camões que morreu algures por mil quinhentos e setenta e tal.

Cento e quarenta e dois anos depois da Geração de 70 e quatrocentos e quarenta e tal anos depois de Camões ter avisado El-rei n’ Os Lusíadas contra os perigos da inebriante deleitação do poder e continuamos a gostar de afundar o país e a pôr a cabecinha entre as orelhas para ir passear a França.

Mas, se calhar não basta irmos todos para a rua, é que deviam levar os políticos ao otorrinolaringologista.

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Filipa Mar

Neste sítio vindo do nada e do aqui constroem-se sonhos, distraem-se sensações mais fortes, dizem-se no som do búzio ao ouvido, as coisas jamais ditas por vós.

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