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Valete: “Sinto que cresci como Artista”

Valete está de volta. Ainda não com o tão aguardado sucessor de Serviço Público, o seu último álbum de originais datado de 2006, mas a sua voz promete ouvir-se com impacto em 2017. Entre o estúdio e os palcos, o músico tem reservado tempo para estudar e aprimorar a sua arte. Para já anuncia nova música, chama-se Rap Consciente e promete tranquilizar os seus seguidores, ávidos por novidades. Nesta conversa, que decorreu nas ainda provisórias instalações da associação Periferia, Valete prova que cresceu também como homem. Atento à realidade, sobretudo à que lhe é mais próxima, decidiu erguer esta associação como forma de dar resposta a algumas das necessidades da população mais fragilizada da Damaia. Este e outros sonhos foram partilhados na entrevista que se segue.

O teu último registo discográfico data de 2006. Para quando um novo álbum?
Eu estive muito tempo afastado sem fazer música, mas agora estou com muita regularidade no estúdio e então vou iniciar um processo que é o de estar a fazer muitas músicas no estúdio. Algumas obviamente vou guardá-las para o álbum, desde que se encaixem nesse conceito, outras vou lançando. Por isso, no que diz respeito a ausência de Valete, isso vai terminar. Já em Fevereiro vais-me sentir muito mais activo.

Então vem aí nova música em Fevereiro?
Sim, em principio em Fevereiro está aí nova música.

E já nos podes dizer que música é?
Posso, é uma música que se chama Rap Consciente e fala sobre o estado actual do hip hop, pelo menos do que eu sinto sobre o estado actual do hip hop.

Como é que definirias o estado actual do hip hop?
Acho que tem coisas muito boas. Hoje o hip hop é muito mais musical, é muito mais fácil para pessoas que não estão muito familiarizadas com o estilo ouvirem hip hop. Os beats têm mais groove, são muito mais dançáveis, é muito mais fácil. Mas acho que, também por causa disso e não só, liricamente está um bocado mais estéril.

Estás a falar do hip hop em termos globais?
Sim, globais. E posso falar mesmo em termos globais porque o que está a acontecer é muito parecido em todo o lado, o hip hop está-se a aproximar da cultura pop, é uma coisa muito radiofónica, muito dançável, e tem chegado a muita gente porque está com uma cara muito pop.

E em Portugal, sentes que há alguma especificidade? Em que estado é que está o hip hop português neste momento?
Neste momento é difícil caracterizar, mas eu repartiria em 3 partes. Tu tens alguns rappers que já são profissionais da música e estão num registo mais radiofónico, mais convencional. Tu tens uma geração de miúdos que naturalmente segue o que se vai fazendo nos Estados Unidos, então estão numa onda que eles chamam ‘trap’, que é uma onda hip hop electrónico, mais dançável, com um groove de 70 bpm’s. E, infelizmente, eu sinto que a minha escola de rappers, que é sempre uma coisa mais lírica e de rap mais reflexivo, nós fizemos poucos filhos. Todas as outras ramificações do hip hop têm filhos que nunca mais acabam e nós creio que fizemos poucos, se calhar muito por culpa nossa. Sinto que faltam mais dos nossos.

Há bocado falavas do novo álbum. Não temos datas?
Não, não.

Qual é a ideia? Ainda é o mesmo conceito do Homo Libero de que falavas aqui há uns anos?
Não, já não é esse conceito. Eu tive de ter um banho de humildade e isso foi muito importante para mim. O conceito do Homo Libero soava muito pretensioso, ‘agora aqui vai o Valete dizer como é que será, vai aqui fazer um ensaio sobre o próximo homem, o homem novo’. Não, não tenho condições nem capacidade para uma coisa dessas. Então a ideia é fazer um álbum mais terra-a-terra, uma coisa mais humilde e creio que também por isso mais bonita.

E em que medida é que este álbum se aproxima ou se distancia do Serviço Público, que é o teu último registo discográfico?
Há sempre uma coisa que fica, uma coisa muito minha que é a preocupação com os outros. O Serviço Público também tem isso, uma coisa de denunciar, de contestar, que vem muito de um altruísmo que eu acho que tenho e creio que vou manter até terminar a minha carreira no rap. Mas acho que há diferenças enormes, primeiro porque o Serviço Público tem ali uma ligação muito forte e radical a uma extrema esquerda e isso já não vai existir.

Porque já não te revês nisso, ou porque achas que não faz sentido isso estar num álbum?
Revejo-me, obviamente vou ser sempre um homem de esquerda, mas a questão da forma é muito importante e a forma como o farei acho que será mais cuidada e mais inteligente. As coisas obviamente vão ser mais ponderadas, mais pensadas e mais justas. Quero tentar sair do registo fanático, mas manter o radicalismo. Acho que o radicalismo é das coisas mais belas que a minha geração tinha e que se vê pouco no hip hop. Radicalismo no sentido de tu teres uma postura coerente, seres um homem íntegro, e manteres isso ao máximo na música, na tua postura, na interacção com os outros, na interacção com a rádio, em tudo. Manter essa firmeza.

E como é que tens lidado com a pressão em função de 10 anos sem um álbum? Sobretudo, quando de alguma forma foste alimentando a ideia de que viria um álbum, com datas. Como é que tem disso lidar com a pressão das pessoas que continuamente te perguntam quando é que sai?
Eu gosto. Gosto de sentir que as pessoas estão à espera. É lindo, é lindíssimo.

Mas não há o receio de que as pessoas deixem de estar à espera?
Isso vai acontecer com alguns, é inevitável. Outros vão esperar. Mas também acredito que, quando sair, alguns voltarão. Os que não voltarem é porque nunca deveriam estar perto de mim, estão melhor longe. Acho que vai ser tudo natural, vai ser tudo muito natural. Mas eu preciso muito dessa coisa das pessoas perguntarem quando é que sai, estarem à espera, para mim é importante porque sinto que tenho alguma relevância, isso é bonito.

Mas não condiciona o teu trabalho?
Zero. Até porque eu acredito que as pessoas querem que o Valete seja espontâneo, genuíno, acredito muito nisso. As pessoas esperam isso do Valete. O próprio público tranquiliza-me.

Como artista, tens inseguranças?
Eu não diria inseguranças. Eu diria é, tenho muita pena de só ter aprendido certas coisas agora. Ao nível da técnica, da forma, há coisas que gostava de ter aprendido antes. Mas pronto, não há de ser mau porque quando eu apresentar essas coisas novas as pessoas vão sentir ali uma diferença, vão sentir ali alguma coisa nova e isso é bom.

Naquilo que vais apresentar a partir de agora, já sentes que há diferenças?
Sim, se calhar as pessoas nem vão notar, mas pelo menos isso já faz com que eu goste muito mais das minhas músicas e já aconteceu eu lançar músicas e não ter assim uma grande ligação com elas, e isso é lixado.

Sentes que cresceste como artista?
Eu sinto que sim, sem dúvida. De repente as pessoas podem não sentir isso, mas eu sinto.

E sentes que estás a fazer música para o mesmo público de há 10 anos atrás que eventualmente cresceu contigo, ou que estás a fazer música para um novo público?
Eu vou fazer música para um perfil de pessoas. Mais do que fazer para uma faixa etária, é um perfil. Se tu és uma pessoa que gosta de música alternativa, quando eu digo alternativa é uma música que é diferente do que tu estás a ouvir na rádio, se tu és uma pessoa que gosta de música reflexiva, que gosta de música arriscada, é para esse tipo de pessoas que eu estou a fazer música, quer tu tenhas 14 ou 34 ou 44 anos. É mais o perfil.

Tendo em conta esse perfil de pessoas para quem tu agora estás a fazer música e tendo em conta o perfil das pessoas que vão aos teus concertos ao vivo, sentes que há uma ligação?
Sim. A questão é, naturalmente as pessoas que têm mais apetência e excitação para ir a concertos é pessoal mais novo, é o normal. Eu creio que o perfil está lá, mas também há coisas que não consegues evitar, às vezes tu tens uma musica que tem a ver contigo, que tem a ver com a tua identidade, mas por uma ou outra circunstância a música fura e chega a pessoas que não preenchem esse perfil de publico alternativo, de público de música de reflexão, acontece. E às vezes essas pessoas enchem os teus concertos. Eu gostava de não ter esse público, porque é uma cena enganadora e acaba por não valorizar a tua obra. Eu sinto isso. Não me interessa muito ter muitas pessoas na plateia que só conhecem uma música minha.

Tens feito agora muita estrada, tens dado muitos concertos. Tem sido gratificante ou tem sido um exercício de manutenção? Ou as duas coisas, eventualmente?
É sempre gratificante, principalmente tem sido uma grande universidade. Tenho aprendido imenso.

O que é que tens aprendido?
Número 1 ao nível dos concertos, como melhorar, como passar a mensagem que tu queres ao vivo e também conhecer as pessoas, perceber o que é que as pessoas querem, quais são as angústias, quais são as ambições, quais são os sonhos, ao vivo tu percebes bem melhor.

“O que eu mais quero agora é envelhecer”

Ainda é estimulante rimar alguns hits mais antigos? E não sentes que o público também sente necessidade de novidades?
Sem dúvida, o público cobra isso, querem coisas novas. Eu não consigo ter uma relação muito forte com as minhas músicas mais antigas, é normal, passou muito tempo. Há musicas que eu ainda canto e que fiz tinha 20 anos, obviamente que tu sentes que há muita coisa que está torta naquelas musicas. Mas é lindo ver como mesmo com aquela tua ingenuidade, mesmo fazendo as coisas tortas, a música tocou certas pessoas. Então o concerto vai servir como um momento de celebração dessa coisa, como é que um miúdo de 20 anos conseguiu afectar as pessoas com músicas tão despretensiosas.

Mas que de alguma forma se tornaram clássicos. Estou a pensar nas músicas do Educação Visual, há algumas que são clássicos do hip hop.
Sim, isso é bonito. Acho que é uma cena bonita, mas que também me fez algum mal.

Como assim?
Fez-me algum mal porque eu acho que não merecia com aquela idade, com aquela obra, com aquela impreparação, ter tido tantos resultados no hip hop.

E porque é que achas que tiveste esses resultados?
Eu acho que tenho uma apetência muito natural para fazer rap e as pessoas sentem isso, sentem que há talento. Isso também seduz as pessoas, aproxima, mas havia muitas coisas que podiam ser muito mais cuidadas, tendo também a noção que com 20, 20 e tal anos não podia fazer muito melhor.

Tu na verdade tens 2 álbuns, mas a sensação que dá é a de que tens já um percurso muito longo, tens o respeito dos teus pares, tens o respeito do público que apesar desta longa espera continua a seguir-te e a acompanhar-te. Sentes-te em paz com o teu percurso ou achas que poderias, nestes 15 anos de carreira, ter feito mais ou ter feito diferente?
Das coisas que eu mais quero agora é envelhecer. Eu acredito mesmo que para o rap que eu quero fazer, quanto mais velho melhor. E eu até, de certa forma, estou ansiosíssimo para chegar aos 50 anos e perceber o que é que eu vou estar a falar e a rimar com 50 anos. Porque eu quase que não ouço rappers com 50 anos, há poucos, mesmo lá fora, muitos ou desistiram ou não fazem músicas como se tivessem 50 anos. O que eu quero é, obviamente que o meu rap reflita a minha idade, e conseguir estar a falar de coisas e trazer uma experiência e uma vivência para as letras que seja fascinante, e acredito que com 50 anos, 40 e tal anos vou poder falar de coisas fascinantes para as pessoas e com uma experiencia adquirida que elas vão legitimar. Por isso obviamente sinto que algumas coisas deveria ter feito diferente, algumas coisas deveria ter feito melhor, mas sinto que agora com esta idade vou realmente conseguir ser o MC que sempre quis ser. Agora sim.

Quando tu falas dessa experiência que queres transportar para a música lá para os 50 anos, o que é que sentes que estás a fazer hoje, eu diria fora da música, para conseguires ter essa bagagem?
É mais estudar. Por exemplo, eu antigamente se quisesse falar de um tema não ia estudar. Estudar pra quê? Apetecia-me falar disso, eu falava disso. Agora estou muito interessado em falar de muitas coisas. Acredito mesmo que a música tem uma força impressionante. Provavelmente é o sítio onde tu mais e melhor podes transformar pessoas, acredito mesmo nisso, na música.

A musica em geral ou o hip hop em particular?
A música em geral. O hip hop em particular porque tu numa música de rap podes pôr mais palavras, então o teu texto vai estar mais arrumado, mais completo. Eu acredito que isto é uma arma poderosíssima e quero aproveitar isso ao máximo, e preciso de preparação, preciso de estudar, falar das coisas mas estar bem preparado, bem documentado, é isso que mudou muito e eu não tinha antes.

Tu entendes o hip hop como um estilo musical de intervenção?
Não, de todo. Acho que das coisas mais belas que o hip hop tem é a diversidade, é lindíssimo.

Diversidade como assim?
Tu tens um miúdo de Cascais de classe média alta que está a rimar sobre 6ªs feiras de surf. Fixe. Tu tens outros miúdos dos Açores que estão a rimar sobre fumar ganzas.

E achas tão legítima uma coisa como a outra?
Sem dúvida. Mas há uma coisa que é muito importante, o hip hop enquanto cultura é sempre uma contracultura. Sempre. E é uma contracultura e um movimento que se quer progressista, então de transformação do que existe. Quando o hip hop se adapta ao que existe e veste aquela cara pop já não é hip hop. O hip hop é hip hop quando é contracultura.

Então em que medida um miúdo de Cascais a rimar sobre surf é contracultura?
Porque é diferente. O hip hop vai exigir sempre que tu sejas honesto com a tua vida e com a tua realidade. Tu vais rimar o teu espaço, tu vais rimar a tua vida, o hip hop pede-te isso. E depois ele ao fazer isso está a ter um comportamento que é muito importante, ou que devia ser crucial nos músicos, que é o de dar ao público aquilo que tu és e não fazer o que o público pede. Aí o hip hop é contracultural, quando tu estás a dar ao público aquilo que tu és e o público depois vai-te seguir ou não. Para mim o público deve seguir o artista, o artista nunca deve seguir o público. Sempre que tu és um artista que faz o público seguir-te, tu és contracultural. E tu, miúdo de Cascais a rimar sobre a tua 6ª feira de surf, honesto com a tua vida e com a tua realidade, estás a ser contracultural. Tu nem estás preocupado se aquilo vai passar na rádio ou não, estás a cantar a tua vida. Agora de repente aquilo é um hit e tu estás a reproduzir o produto de sucesso, aí deixas de ser contracultural, aí estás a servir o público, és um entertainer, já não és um artista.

E do teu ponto de vista é errado servir o público?
Acho que não é errado, acho que temos de ter entertainers. Da mesma forma como era muito importante Robin Hood roubar aos ricos e dar aos pobres, também era importante todo o espectáculo circense que ia entreter a corte, a corte precisa de ser entretida, precisa dos bobos. Nada contra os bobos.

E achas que temos bobos no hip hop português?
Sempre tivemos bobos na música portuguesa, em todo o lado. O problema é quando não há Robin Hoods, esse é o grande problema. Ou temos bobos demais, tantos bobos que precisamos de criar muitas cortes.

“Tenho o sonho de ser Presidente da Junta de Freguesia da Damaia”

Falaste em Robin Wood, o tal que tira aos ricos para dar aos pobres. Eu sei que tens agora um projeto que ainda está a nascer, um projeto de cariz social que se chama Periferia. Queres nos falar um bocadinho sobre isso?

Vou tentar resumir porque é algo com vários tentáculos. Inicialmente criamos este projecto porque na minha zona vivem muitos adolescentes que passaram por centros de reinserção social, e muitos deles quando saem dos centros saem com uma muito baixa escolaridade, têm muita dificuldade de arranjar emprego e normalmente voltam para o crime, acontece muito. Então eu queria criar uma plataforma que ajudasse os miúdos em coisas simples, a preencher currículos, arranjar formação, encontrar emprego. A ideia começou aí. Eu consegui envolver mais gente para o projecto e agora somos 6 pessoas, e percebi que com 6 pessoas a trabalharem como voluntárias nós conseguimos fazer mesmo muito. A primeira coisa que vamos ter aqui (associação Periferia, na Damaia) é uma biblioteca comunitária onde as pessoas podem deixar livros e levar os livros que quiserem. Vamos ter também uma exposição de um artista plástico, que é o Youth, e vai ser um espaço wi-fi. E a partir daqui queremos fazer tudo, queremos preencher as necessidades das pessoas do bairro, principalmente as mais carenciadas. Ao nível da alimentação parece uma coisa relativamente simples, já começamos a tentar algum contacto com supermercados, e vamos ter comida para as pessoas, arroz, essas coisas todas, é fácil. E depois queremos tentar mais coisas, tentar criar um espaço que seja muito activo e que seja realmente importante para as pessoas, que afecte as suas vidas. Um espaço com gente preocupada e onde as pessoas podem encontrar soluções para os problemas. Eu acredito mesmo nisso.

E qual é a visão a longo prazo? É circunscrever esta iniciativa aqui à Damaia, ou eventualmente expandir?
Eu gostava mesmo, que a longo prazo, este espaço substituísse a inacreditável inércia da Junta de freguesia da Damaia. Eu gostava que as pessoas vissem a associação Periferia como a Junta de freguesia que não temos. Vamos precisar de muita cooperação das pessoas da Damaia, de pessoas de fora, de mecenas, de empresas, se calhar algum apoio estatal também, mas com a qualidade das pessoas que eu tenho, que eu consigo atrair, conseguimos criar uma plataforma que substitua a junta de freguesia da Damaia.

E estás otimista de que conseguirás esses apoios de que precisam?
A cena é mesmo tentar. Se falharmos não haverá nenhum drama porque algumas vitórias teremos de certeza. Creio que já é uma vitória termos um espaço. Já é uma grande vitória um grupo de rapazes, jovens da Damaia, alugarem um espaço sem apoio estatal, porem do seu dinheiro para ter um espaço ao serviço da comunidade. Também já é uma grande vitória conseguirmos ter uma pessoa que vai estar aqui 5 dias por semana como voluntário. Já estamos a conseguir coisas e acredito que com o espaço aberto e com o passa palavra vamos ter muito mais vitórias.

E porque é que achas que te envolveste num projeto como este? Ou seja, é só o teu espirito altruísta a falar, é a necessidade de fazeres qualquer coisa porque sentes que de alguma forma recebes tanto apoio e tanto carinho e tens essa necessidade de dar ao outro, ou é alguma outra razão? O que é que leva uma pessoa a criar um espaço como este, a ter esta visão?
Primeiro, nós temos aqui um bairro na Damaia que é o bairro 6 de Maio de onde muitas pessoas já foram realojadas, eu creio que o 6 de Maio deve ter à volta de 200, 300 pessoas agora, não mais do que isso. Algumas pessoas do 6 de Maio estão bem, têm o seu emprego, o seu salário, estão relativamente bem. Imagina que tu tens 100 pessoas no 6 de Maio que têm mesmo dificuldade de comer, dificuldade de vestir, e têm dificuldade pra coisas simples como ter um explicador para os filhos, ter internet, coisas tão simples como essa. Imagina que tu percebes que podes resolver isso, facilmente. Eu com a música percebi mesmo que todos nós podemos afetar toda a gente e mudar toda a gente, e que muitas pessoas sofrem durante um período da vida apenas porque estão numa comunidade mais isolada. Porque eu estou-te a falar de problemas muito simples. O João, que é meu amigo, pode dar explicações de matemática. Não custa nada ao João tirar uma hora por semana e dar explicações de matemática àquele miúdo que não pode pagar explicações de matemática. Mas as pessoas estão mesmo isoladas, não comunicam e não existem redes, porque existindo redes muitos dos nossos problemas não existiriam. Há coisas que para mim são muito fáceis de resolver. Um miúdo que queira gravar uma música mas não tem condições nem dinheiro para gravar, eu consigo resolver o problema dele, mas o facto de eu estar às vezes na mesma rua que ele e não saber que ele tem esse problema faz com que ele por exemplo desista da música. Então a ideia grandiosa desta associação é principalmente essa, é a de nós conseguirmos nesta comunidade criar uma verdadeira rede onde as pessoas estão a par dos problemas de toda a gente e predispostas a solucionar. E aí precisas da consciencialização. Mas se tu estiveres a par dos problemas, que é isso que as pessoas não estão, é um passo gigante. A associação serve principalmente para isso.

E de que forma é que pretendem consciencializar?
Sem grande pretensão, nós não somos melhores do que ninguém, não sabemos mais do que ninguém, somos tão suburbanos como toda a gente que está aqui. Mas muita gente, muita gente mesmo não conhece o projeto ‘Vida grátis’. Muita gente não sabe que existe um espaço na internet onde as pessoas deixam uma mensagem a comunicar que têm coisas de que não precisam. O processo de consciencialização começa por isso, por informar. Nós vamos começar a fazer isso e depois tentar atrair mais pessoas com esse conhecimento para vir cá informar melhor. De certeza que há coisas muito mais eficazes e brilhantes do que isto.

És um homem atento à tua realidade, pelo menos da tua zona. Serás com certeza atento à realidade do teu país. Como é que vês o Portugal atual? Achas que estamos no bom caminho?
Eu gosto mesmo muito do quadro atual de governantes, nunca gostei tanto. Gosto do Presidente que temos e faz sentido ser um homem de direita, conservador mas com preocupação social, católico, o que acho que também é importante para o papel que desempenha, e um homem empático. Acho que temos um Presidente como nunca vi. Gosto do 1º Ministro, muito com o mesmo perfil do Presidente, diplomata, se calhar não tão carismático, mas preocupado em negociar, preocupado em ouvir. Gosto da presença do BE e do PCP na esfera governamental, também é importante para esses partidos experimentarem o que é a governação. Acho que temos o quadro perfeito e as coisas sentem-se mais serenas. Não me lembro de um Governo tão perto das pessoas como este. Gosto muito.

Já falamos das tuas preocupações sociais, concretizadas através desta associação, por exemplo. Descreve-me como seria o mundo ideal do Valete?
Estás-me a obrigar a ser lírico. Eu acredito mesmo que nós podemos funcionar muito mais e melhor sem dinheiro. Obviamente que não vais tirar o dinheiro totalmente da equação na realidade que temos, mas nós podemos fazer muito mais coisas, podemos existir eu creio que até de uma forma mais produtiva e saudável com menos dinheiro. Acredito muito nisso e, como tínhamos falado há pouco, é importante tentar criar uma cultura de trocas e partilha. Eu acho que é fundamental para os próximos tempos.

Tu acreditas mesmo nisso?
Acredito, acredito.

E o teu mundo particular, quais são os teus sonhos, aqueles que possas partilhar?
Olha, eu disse-te que a ideia era conseguirmos que isto (associação Periferia) substituísse a Junta de freguesia da Damaia, é a nossa utopia. Mas eu tenho o sonho de ser Presidente da Junta de freguesia da Damaia. Mesmo. Eu tenho esse sonho.

E é um sonho com data?
Sempre que eu ponho data nas coisas falho. Mas eu quero mesmo isso e acredito que se eu fosse Presidente da Junta de Freguesia podia fazer muito e realmente afectar a vida das pessoas, que é coisa que não acontece de todo. Essa é a minha maior missão. Ser o Presidente da Junta de freguesia.

Serias um Presidente da Junta de Freguesia da Damaia ligado a que partido?
Não estou preocupado com isso, preocupação zero. Espero que na altura que eu me candidatar, daqui a uns bons anos, todas estas iniciativas independentes já estejam solidificadas e seja mais fácil para as pessoas também verem candidatos independentes. Preferia candidatar-me como independente, mas se tiver que ser por um partido, força.

Será seguramente um partido à esquerda?
Sim. Eu também não sei bem como é que funciona o sistema de candidaturas das Juntas, obviamente que vou ter que estudar, mas creio que é o meu maior sonho. É o meu maior sonho depois de já ter realizado o sonho da música, obviamente.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação.
Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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6 thoughts on “Valete: “Sinto que cresci como Artista””

  1. Gostei muito da entrevista. Foi bom conhecer um pouco mais do Valete. Na verdade pouco ou nada sabia sobre ele. Discordo de algumas coisas, por exemplo com o facto de ele aos 20 e poucos não saber nada, lembro-me da minha adolescência a ouvir as músicas dele e pensar que ele estava a anos luz de mim, as músicas dele incluíam muita cultura geral e isso não se tem só porque sim. Mas talvez seja esse “banho de humildade” que o faz pensar assim. É bom perceber que ele cresceu… se calhar eu também. Mas é um facto que aguardo ansiosamente um álbum dele, tenho até receio que com tanta expectativa acabe por não corresponder. Obrigada pela entrevista. Espero que 2017 seja o ano desse álbum.

    1. Obrigada pelo teu comentário S. e por teres lido com atenção esta entrevista. Eu também espero com ansiedade pelo novo álbum do Valete e algo me diz que não vai decepcionar. Beijinhos

  2. bom dia, tenho acompanho a carreira do valete ja ha mais de uma decada
    siceramente sinto que ele cresceu, como artistista e com ser humano, parabenizar a Telma Santos pela entrevista que é bastante rica, nunca li uma entrevista do valete tão longa e profunda.
    E que 2017 seja o Ano do Valete.

  3. Bom dia! Sou rapper do Brasil e acompanho o trabalho do Valete desde 2011, estou no aguardo do disco dele, parabéns pela entrevista, paz a todos!!

  4. É impressionante como um ser humano pode ser capaz de tocar o amâgo do seu próximo de forma tão profunda quanto transformadora, tal como o faz o Valete. Estou rendido e aguardo ansiosamente pelas novas músicas.

  5. Valete quanto ao homem que é me lembra Buda pelas utopias e isso ilumina
    Quanto ao rap me lembra o Pac, porque esse mano vai ficar para sempre na história da música feita em pt ao ponto de dizer coisas que farão sentido daqui a tantos anos;

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