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Entrevista a José Cid: Cantar e Encantar “enquanto tiver voz”

Cantor. Compositor. Músico. Prodígio. Qualquer uma destas quatro palavras encaixa no perfil de José Cid. Nascido em 1942, na Chamusca, é a ‘mãe’ do rock português (se Rui Veloso for mesmo o pai, claro), e é também o homem que nos trouxe canções intemporais como ‘Um grande grande amor‘, ‘Na cabana junto à praia‘, ‘A minha música‘, entre muitas outras.

Canta desde 1956, mas continua a conquistar galardões passados 60 anos de carreira. O mais recente foi o Prémio Pedro Osório – da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Autores –  que laureia um nome e um trabalho relevante da música portuguesa. Foi com esse mote central que o Repórter Sombra falou com José Cid, numa conversa informal que passou por vários temas, sempre com um sorriso na cara de quem já não tem nada a provar a ninguém, mas ainda tem tudo para cantar ao mundo inteiro.

FP – Já ganhou diversos prémios ao longo da carreira. O facto de este ter o nome do maestro Pedro Osório, que foi uma pessoa que o José Cid conheceu e com quem privou, traz um significado especial ao prémio?

JC – Traz. Repara, eu conheço o Pedro Osório desde 1957, eu como vocalista dos Babies em Coimbra e ele vinha do Porto com o seu conjunto. Houve imediatamente uma empatia muito grande, porque ele simpatizou logo comigo. Depois eu passei para vocalista do grupo de Jazz Conjunto Orfeão, onde já estava o José Niza, e nesse instante o Pedro Osório percebeu que havia muita coisa em comum. Uns anos mais tarde eu começo primeiro a cantar em português com o 1111, mas pouco tempo depois o Pedro Osório já está na música portuguesa, orquestra o primeiro álbum a solo que eu faço, que é um álbum que eu gravo na Valentim de Carvalho, em 1971 em que eu estou com uma capa de palha, saiu em vinil há dois anos. Isso foi uma cumplicidade que nós tivemos ao longo de toda a vida.

Um facto muito engraçado: até parece que nós tivemos em barricadas diferentes, mas não estávamos. Eu era um cantor que o antigo regime, salazarista e marcelista, censurou imenso, o Pedro Osório já vem a aparecer mais tarde e o que é engraçado é que ele está numa linha mais Ary dos Santos, Tordo… e eu não, eu estava numa linha Natália Correia e essa linha chocava um bocadinho com a linha Ary dos Santos. Era uma linha que tinha menos força, o Ary dos Santos tinha mais impacto na sua geração, porque tinha grandes cantores da sua época a cantar a sua poesia e a Natália só me tinha a mim. Então parece que estávamos em barricadas diferentes mas não estávamos.

Outra situação engraçada é a da Eurovisão, quando lá fui fiquei em sétimo lugar, que era a melhor classificação de sempre de um português na Eurovisão, a Dulce Pontes tinha um oitavo. E de repente aparece o maestro Pedro Osório com um sexto lugar, com a Lúcia Moniz a cantar. E o Pedro dizia-me “vês, vês, fiquei à tua frente na Eurovisão”. E eu disse, “claro que ficaste, mas se fosses tu a cantar a música ficavas em último”. (risos) Nós estávamos sempre a rir, os dois na brincadeira e na galhofa. Ele ria, ria, ria. Por acaso foi a Lúcia Moniz que cantou (a música de Pedro Osório) muito bem. Portanto, houve toda uma vida, várias décadas. Já estamos na década 50 quando nós nos encontramos muito, muito jovens, em Coimbra, e, depois ao longo do tempo. Isso é muito engraçado, muito, muito engraçado.

FP – Acha que ele ficaria orgulhoso de si por ter conquistado este prémio?

JC – Completamente! A verdade é esta, Pedro Osório tem muito a ver comigo desde o princípio. E nem sequer é em Lisboa, é antes de Lisboa, os dois muito jovens já a tocar. Portanto, para mim é um privilégio imenso receber este prémio que tem o nome do maestro Pedro Osório e estou muito contente por isso.

FP – Aliado ao facto de ser um prémio de autores para autor…

JC – Sim, porque é totalmente diferente. As pessoas que nos estão a entregar o prémio ouvem música, fazem música, escrevem música, cantam música, leem poesia, fazem poesia. São pessoas que estão na arte, na estética. É completamente diferente de, por exemplo, gente que me julga. Há uma revista de música portuguesa que, quando eu gravei o “Menino Prodígio” me deu, de um a cinco, três. Eu fiquei a rir para dentro, é que nem me revoltei, comecei a rir-me à gargalhada para dentro. Eles devem estar surdos ou a precisar de ir a um otorrino com toda a certeza. A verdade é que se lhe fez justiça – ao álbum – porque estas são pessoas que ouvem música e são pessoas que sabem muito de música e eu estou muito contente obviamente. Mais um troféu para pôr ao lado de outro troféu que a SPA me deu de consagração de carreira em 2011.

FP – Disse em entrevistas anteriores que a sonoridade deste álbum (Menino Prodígio), é o que se aproxima mais, desde há algum tempo, do seu som. Essa aproximação torna justo dizer que o José Cid ainda está no auge da carreira?

JC – No auge não. Eu estou a continuar a fazer aquilo que é o meu projecto de vida. Este é o meu som porque eu continuo analógico e este álbum é todo gravado em fita. Não tem um computador lá metido a não ser um loop que está disparado no Don’t Wanna Miss a Thing, mas que é um loop que eu tiro de um teclado meu e meto na fita. Portanto, este álbum é todo gravado em fita, não tem correcções de computador, não entra um computador neste álbum, os músicos tocaram mesmo, não há correcções aos músicos que tocaram. Claro, podemos fazer takes, um take é uma coisa, outra coisa é a correcção por afinação de computador que não tem nada a ver, caso contrário a minha própria porteira pode fazer um disco com uma afinação dessas em computador. E fazem. Não são só porteiras, são coisas próximas pelo país inteiro e não só, no mundo inteiro. São os Justin Bieber’s e essa gente toda do planeta.

O álbum é feito só por três músicos, com som completamente analógico e masterizado analógico que é um som muito mais quente, um som muito mais real. Esse é o meu som. Houve uma editora que não gostou do som do álbum, uma editora cá em Portugal, e eu também me ri. Devo ser eu que estou surdo com certeza. Também é um álbum de rotura com a editora onde eu estava, disse mesmo “adeus, eu não estou aqui bem, não me sinto bem, não é isto que eu quero fazer. Eu não gravo mais baladas destas e vou gravar baladas de outras”.

FP – Esse lado de rotura está realmente muito vincado, pelo que me está a dizer foi mesmo uma das principais prioridades do álbum?

JC – Eu disse mesmo “eu morro! eu morro se não faço um álbum de rock”. Morro, morro, dá-me uma coisa. Eu tenho de fazer um álbum de rock, eu estou farto de gravar baladas de novela, estou farto, eu quero voltar aquilo que eu sou. Agradeço à editora, eles puseram o meu nome cá em cima, mas a certa altura os nossos interesses chocavam completamente e eu sai para fazer aquilo que eu queria e o que eu queria… eu tinha absoluta razão! Isto veio provar que eu tinha razão. Este é um álbum brutal, não só cá em Portugal, é um álbum brutal em qualquer parte do mundo.

Atenção, eu oiço muito do que se passa lá fora e não deveria ser eu a dizer isto, mas eu já fiz isto uma vez, foi com este álbum que está aqui, que se chama 10.000 anos depois entre Vénus e Marte, que ninguém me ligou nenhuma em Portugal e que passados muitos anos é nomeado entre os cinco melhores álbuns do mundo. E eu tenho a certeza que o Menino Prodígio é um grande álbum de rock, em qualquer parte do mundo. Tenho pena é que o facto de ser cantado em português seja um handicap. Mas não interessa, porque o álbum está feito, tem grande poesia, eu canto José Régio, eu fui buscar ao Quarteto 1111 três ou quatro temas para recuperar e depois acrescentei com a minha própria criatividade. Isso tudo dá-me a certeza que eu vou ter de fazer rapidamente outro álbum destes.

O próximo é já este ano, chama-se O Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid, está concluído, é um álbum de canções e eu acho que a SPA vai julgá-lo pelo menos entre os melhores cinco álbuns do ano de 2016 e depois logo se vê.

FP – Essas músicas de que falou, do Quarteto 1111 são de 1971. Que transformações lhes fez?

JC – São tocadas de outra forma, até porque os músicos são muito mais poderosos. Eu também evoluí como músico. Quando nós somos jovens escrevemos com mais liberdade de pensamento, somos mais livres a compor, menos preconceituosos. Arriscamos mais. E é o que acontece neste álbum.

FP – A versão dos Aerosmith que traz para o álbum traduz-se na ambição de ser mais reconhecido internacionalmente?

JC – De forma nenhuma. Onde eu sou reconhecido internacionalmente é com o meu álbum 10.000 Depois entre Vénus e Marte que vai sair já reformulado a nível mundial. Chama-se Live in Lisbon. Finalmente nós vamos mostrar às pessoas que andam na Internet há décadas a perguntar “Mas de quem é isto, que portugueses são estes, onde é que eles estão, quem é o José Cid, se já morreu ou não morreu, que músicos é que ele usa?” Então, eu gravei o Coliseu o ano passado e eu devo-te dizer, quando eu ouvi em 5.1, masterizado em Abbey Road, a nossa actuação no Coliseu, começaram-me a tremer as pernas, porque eu não acreditei. Porque este é um álbum – 10.000 Anos entre Vénus e Marte – que me ultrapassa a mim próprio. Por curiosidade, neste Live in Lisbon, que é um DVD que finalmente se pode mandar para o estrangeiro para eles perceberem quem é o José Cid e quem são os músicos que estão a tocar com ele, eu consegui reunir numa faixa, os músicos de origem. Consegui trazer o Ramon para a bateria, o Zé Nabo para a viola baixo e o Mike Sanger para a guitarra. Essa faixa é tocada só com eles.

FP – Essa cumplicidade que tem com esses músicos ajuda a que tudo se torne mais fluído?

JC – É muito engraçado. Nós depois no DVD aparecemos todos em palco no fim dessa música como se fossemos Fénixes renascidas. Porque há muita gente que já não se lembrava. O Ramon até já tinha deixado de tocar bateria, mas isso não se desaprende, nada disto se desaprende.

FP – No meio de tantos projectos e de tanta actividade musical, podemos contar com um novo álbum ainda este ano. Quando sairá cá para fora?

JC – O Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid sairá algures entre Setembro e Outubro.

FP – Quer compor e cantar até ao fim?

JC – Enquanto eu tiver voz é o que eu vou fazer. O limite para eu parar de cantar é quando a minha voz acabar. O ano passado fiz 50 ou 60 concertos de duas horas e meia, alguns deles em dias consecutivos, a abrir com a minha banda, por tudo o que era sítio, com viagens… Eu só tenho de dormir. Se eu dormir bem, a seguir a voz está lá. Posso chegar um bocadinho mais arrastado ao palco, posso já não saltar tanto porque me canso mais, mas estou lá a cantar. Isso é importante para mim.

FP – Desses concertos, há uma boa parte que são feitos nas Semanas Académicas, para um público muito mais jovem, que estão ali para ouvir José Cid e gostam de ouvir José Cid. Qual é a sensação de ter um público tão jovem e de outra geração, que não ouviu os seus trabalhos iniciais, a gostar da sua música?

JC – Eu levo grandes músicos comigo, jovens. Tocam muitíssimo. Eu sou um bocadinho provocador, faço outro tipo de músicas. Não vou tocar coisas mais populares, mas vou tocar rock. Toco outras cenas e a malta universitária adora. Depois pedem-me sempre para cantar o “Macaco gosta de banana”, que eu toco de forma completamente diferente do original e as pessoas jovens divertem-se. Enquanto eles saltarem à minha frente e cantarem comigo está tudo certo. Há cumplicidade entre nós e isso é muito bom para mim, porque muitas vezes eu vou para o concerto a pensar se vão gostar, se vou ser bem recebido, será que… Enfim. Eu não tenho razão nenhuma de queixa, muito pelo contrário. Se não tive até agora, não terei mais até ao fim.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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