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Ensinar a pescar e nesta escola há barcos

Educar é um acto de amor. Não só pela continuidade e passagem de conhecimentos como também pela responsabilidade que implica. Ser pai é uma mais valia, um prolongamento do eu, um renovar de geração que se pretende melhorada e apta a enfrentar os desafios do devir. Adelino Calado é um PAI, exactamente assim, com as letras todas maiúsculas. E todos os anos tem novos filhos que o entendem, que o ouvem e que o gostam. Gostam porque o estimam, lhe retribuem o amor que ele espalha e gostam porque lhe dão satisfação e muita clarividência.

Mas quem é este homem e o que tem de tão especial para ser mencionado deste modo peculiar? É director do Agrupamento de Escolas de Carcavelos. ” Cada segundo é o tempo de mudar para sempre ” é o lema da escola. E a vida completa-se, segundo a segundo, onde a diferença faz todo o sentido. Como alguém dizia, a princípio estranha-se e depois entranha-se. E tem sido assim desde 2003, quando este professor de Educação Física se candidatou, mais a sua equipa, ao Conselho da Escola, depois de ter sabido que a anterior direcção estava de saída. O que encontrou foi uma escola de 2000 alunos, sendo 150 com necessidades especiais, caótica e com uma taxa de insucesso elevada.

Arregaçar as mangas e colocar mãos à obra foi o mote deste corpo docente perante a adversidade que se apresentava. O primeiro passo foi criar a diferença e várias medidas, todas elas inovadoras e originais, no sistema de ensino português, foram implementadas. Adelino foi o pioneiro. Para grandes males, grandes remédios. Começou a fumar para se enturmar com os gangues, conhecê-los, entender o seu funcionamento e encontrar uma solução sustentável. Da raiva passou à admiração. Objectivo conseguido. Levou o seu tempo, como tudo, mas os dividendos foram satisfatórios. Envolveu toda a comunidade, o que significa que responsabilizou os encarregados de educação. O professor tem um papel ingrato, já o referi anteriormente, além de instrutor é educador. A educação deve vir de casa, a escola fornece a instrução, mas as duas estão de mãos dadas, a par e passo, aliados fiéis.

Não foi fácil pois encontrou resistência e já se esperava que assim fosse. Tudo o que é inovador provoca relutância. as revoluções não são fáceis, alteram o ritmo estabelecido e provocam ” desarrumações ” que são necessárias. Instituiu a autonomia. É da máxima importância que as crianças e os adolescentes sejam independentes e se saibam movimentar. É para seu benefício. Até os alunos mais jovens, com 3 anos, tomam decisões. É de pequenino que se torce o pepino. E tem funcionado. Começou com a marcação dos almoços e alastrou a todos os campos envolvidos.

Outro ponto importante é a pontualidade. Neste momento só 0,7% alunos é que chegam atrasados e têm de justificar a falta, o que resulta num processo complexo e moroso. Inicialmente suscitou muitos incómodos e foi necessária a intervenção da polícia, mas, depois de toda a comunidade entender a importância da responsabilidade associada, é agora meramente residual. Este homem explica e muito bem, que nos nossos dias uma criança de 10 anos tem mais conhecimento do que um imperador romano chegava a ter. Só precisa de o organizar e orientar. Somos cada vez mais sábios, mas igualmente dispersos e com prioridades muito discutíveis. Tudo é confuso e cabe ao educador/instrutor fornecer os armários e as prateleiras onde tudo se possa encaixar. Mas o trabalho terá de ser repartido com a família, com os encarregados de educação. A responsabilidade é de toda a comunidade e ninguém pode sacudir a água do capote. Só assim se conseguem os resultados pretendidos.

A inteligência é definida, pela psicologia como ” uma medida de capacidade em aprender ” e tem origem no termo latino intelligentia que significa compreensão, faculdade de compreender. Durante muito tempo foi prática comum dividi-la em inteligência prática, social e abstracta ou conceptual. De facto, não existe uma só inteligência, mas várias: lógico-matemática, linguística, musical, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal, naturalista, existencial, emocional e prática. Com base neste conhecimento são elaborados os currículos alternativos das escolas. Por cada tipo diferente de inteligência haverá um leque considerável de alunos que se enquadram. Por isso no fim de cada período são feitas as provas de aferição de modo a se avaliar o conhecimento de cada aluno. Não se avança para outra matéria se a anterior não estiver aprendida. Claro que implica um trabalho conjunto de aluno e professor, mas os visados entendem que serão os beneficiários.

Os trabalhos de casa têm uma função específica, que é avaliar as respectivas aprendizagens não só em conteúdo como também em prática. Nesta escola foram abolidos. Desenganem-se os que pensam que não se trabalha em casa. Antes pelo contrário. Há trabalho voluntário e não forçado. Os alunos têm cadernos para o trabalho doméstico e vão usando o mesmo sempre que sintam necessidade. É o seu barómetro de conhecimento. E são os pais que afirmam que há vontade da parte dos filhos, uma vez que não é obrigatório. Desaparecendo a pressão funciona de modo suave e empírico.

Não haver reprovações está justificado pelo facto de ensinar aos alunos que eles é que são os responsáveis pela sua formação. Ficar retido implica que teriam de estudar as mesmas matérias e pode funcionar em sistema inverso, ou seja, criar uma resistência ainda maior. Não quer dizer que a vida lhes seja facilitada, pelo contrário, têm de provar que o mereceram e servir de exemplo para os outros. Na realidade a ausência de toques de campainha ainda vai permitir que estejam mais atentos aos horários e que se saibam organizar dentro do tempo útil. Não é o que acontece na vida real? Prazos a cumprir, deadlines que são impostas. Mais vale irem já treinando, just in case

Todos são tidos e achados. A consideração e o respeito são essenciais numa sociedade e esta reúne de 3 em 3 meses com os pais e com os alunos mensalmente. São as vozes que se fazem ouvir, sem discriminação e tenta-se sempre encontrar as soluções que se adaptem aos problemas levantados. Tudo é fruto de muita paciência e trabalho porque facilitar não é educar, é dificultar a realidade. E assim aos poucos, como quem não quer a coisa, o trabalho vai ficando feito, numa relação de igualdade e companheirismo

Outra inovação é o uso do telemóvel, dentro das salas de aula, desde que devidamente justificado, para copiar algo do quadro ou que seja necessário para um trabalho, como consultar a net. No entanto existem limites, que são respeitados e nada foge aos regulamentos impostos pela lei. Tudo é feito legalmente, mas com muito boa vontade. A lei é cumprida na sua íntegra.

Estamos a falar de Carcavelos, o que sugere praia, areia, sol e água. Esta escola tem actividades naúticas, o que é perfeitamente justificado pelo geografia e localização. Há uma sala onde estão arrumados os barcos e se olharmos melhor é uma extraordinária metáfora da vida: ensinam a pescar. Esta pesca é o conhecimento, o intelectual e o prático. Mas, acima de tudo é o conhecimento de si próprio, a sua capacidade de se testar e de se conhecer. É por isso que os alunos gostam de estar na escola e que a usufruem com toda a satisfação, pois esta é a sua casa.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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