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CulturaMúsica

Ensaio sobre o Videoclip

O videoclip musical é um processo comunicativo na cultura de massas. É com essa premissa que quero começar este texto, é com esta ideia basilar que quero moldar este ensaio.

Porém, se formos mais longe, o videoclip é, uma configuração aprimorada e assente no progresso tecnológico de comunicação. Trata-se de um filme curto, possuidor de elementos essenciais como a música, a sua letra inerente e uma imagem de interacção consonante, que visa uma provocação da produção de sentido.

A sua produção em termos profissionais tem analogias escleróticas com a indústria cinematográfica, sendo similarmente indispensável a estruturação de um story-board, ou de um roteiro para os trabalhos confluírem no seu rumo inato e congénito. A criatividade é, uma vez mais, o sustentáculo da qualidade de uma expressão artística de evasão. Nem tudo o que é esteticamente aprazível é produtivamente eficiente, essa ideia esta sobrepujada e demanda uma actualização aos nossos tempos contemporâneos. A noção de que um videoclip fornece essencialmente condições para materializar a música é primordial. O videoclip é uma mercadoria que necessita de ser vendida para obter, não tanto o lucro, mas sim a propaganda e a aquiescência do público.

A interpretação das mensagens subjacentes ao vídeo musical não é nunca consciencializada da mesma forma por todos os receptores, tal fenómeno sobrevém amiúde com vários processos interpretativos. O melhor exemplo disso são poemas e quadros que se revestem de factores abstractos mais facilmente. A origem da problemática para nos depararmos com tais fenómenos interpretativos está na colossal elaboração que o videoclip actual prescreve, sem a indispensabilidade de ser súbdito à música, mas, pelo contrário, com a possibilidade de lhe conferir novas gestas, inovados contextos e emancipados sentidos que permaneciam recônditos nas entrelinhas semiológicas das narrativas.

A formação, em 1981, de um dos maiores fenómenos culturais interligados ao videoclip foi a epígrafe para a estética que ainda assistimos nos dias de hoje. Falo da fundação da Music Television. Com esta criação, proliferaram novos gostos e novas tendências que se perfilharam, durante gerações. Os jovens passaram a ser os principais potenciais consumidores deste tipo de produto, aliás, o videoclip como produto gerou muitos outros derivados que se introduziram no mercado, criando uma sequência mercantilizada infalível. Este é o mote irrepreensível para a introdução do conceito de Indústria Cultural, neste contexto específico.

Na perspectiva de Theodor Adorno, a indústria é uma racionalização das técnicas de distribuição e de transmissão, tornando-se a cultura comercializada como uma coisa qualquer. Os processos artísticos perdem, então, a sua aura e o seu contexto de aqui e agora, o homem – seja ele emissor ou receptor – torna-se num passivo instrumento de trabalho e de consumo. Mais uma vez, a camada mais afectada por serem mais propícios a mudanças opinativas são os mais jovens. Eles passaram a receber, passivamente e sem espírito critico algum, uma mensagem propalada pelos meios de comunicação, através de uma linguagem estrategicamente atractiva e que representa este novo estilo: o estilo MTV. Dentro do conceito proposto por Adorno, o consumidor não tem de pensar, apenas se limita a escolher, pois tudo lhe é oferecido, dado e indirectamente impingido.

Em conclusão deste ponto, os videoclips contemporâneos arrojam modas, artísticas, ou comerciais, induzindo ao consumidor a vestir-se como a sua banda preferida, a falar de determinada forma, a apropriar-se de estilos, num claro exemplo do sistema capitalista a dominar a cultura.

São muitos os artistas que têm inovado e acarretado elementos inovadores para a indústria do videoclip. Pharrell Williams, Bob Dylan e Muse são três exemplos perfeitos para o que se pretende ilustrar. Todos eles utilizam o videoclip como se de um filme se tratasse. Ou, melhor, tornam o videoclip numa experiência multimédia incomparável com qualquer outra experiência, seja ela cinematográfica, ou, somente, musical. As sensações fervilham-nos no sangue, temos cores conjugadas com técnicas de luzes perfeitas, temos filme, temos música, temos elementos dotados de capacidade de atracção. Essa atracção pode ganhar forma tanto no corpo da mulher, para os homens, na mensagem política e social, para os mais activistas, e, também, na complexidade artística, para os mais estruturalistas.

Vamos analisar, com um certo detalhe, dois videoclips da banda Muse, que servem de exemplo à complexidade que o videoclip nos oferece nos dias de hoje.

Caso 1 – “Sing for Absolution

Acompanhada duma sonoridade nostálgica e, numa primeira análise à letra, destaca-se o lado sombrio de um amor impossível, que outrora fora proibido. Havendo uma alusão à morte (“os lábios estão a tornar-se azuis”), o azul dos lábios ilustra a frieza, como se dum cadáver se tratasse. O impedimento de um novo beijo (“Um beijo que não se pode renovar”), de uma possibilidade remota, alimentam o sonho, sonho este desconhecido para a sua “musa”. Ele canta pelo perdão e pede que a sua musa também o faça. Os erros cometidos por ambos, esses ficarão por corrigir. As suas almas não irão de encontro com à “luz”, à paz eterna.

Porém, esta é uma das mais interessantes músicas e dos mais interessantes vídeos da banda. O que parece uma bela canção de amor mundano mortal não o é. Sing for Absolution tem como tema central a repetição dos erros do homem que prejudicam o planeta Terra. O cenário é pós-apocalíptico, o nosso planeta já não está habitado e existe uma viagem humana de regresso, com a esperança de que o planeta se tenha regenerado. Tal não acontece, a viagem culmina com um cenário de destruição total, facilmente reconhecemos uma cidade, neste caso Londres, totalmente destruída. Conseguimos perceber por entre os destroços, o famoso Big Ben e a ponte de St. Westminster.

Pelo meio do vídeo, ainda temos a possibilidade (subsequente de uma análise atenta) de apreender uma, ou mais mensagens subliminares, sendo a mais importante indicada pelo verso “Be prepared the ice age is coming”, que sublinha a ideia existente que o planeta Terra está a aquecer, para depois congelar. Temos presente aqui a temática social de alerta para as alterações climáticas.

Em suma, temos presente algo insólito como uma música de amor ao próprio planeta Terra, os lábios azuis como símbolo da morte e do fim. A banda pede um perdão divino como está indicado no próprio título da música – “Absolution”, a absolvição – culpando-se pelos erros que toda a humanidade cometeu e que voltariam a cometer, se tivessem na realidade uma segunda oportunidade…

Caso 2- “Uprising

Este é o tema da banda que possui uma maior conotação política. No vídeo anterior, tal não foi necessário, visto que se trata de uma criação mais artística e a subjectividade de interpretação é mais facilmente fomentada.

Este tema pertence ao álbum Resistance e tem como temática central a revolta do povo.

Como que numa evocação ao espírito da Revolução Francesa, com a qual existe algum paralelismo em certas partes do vídeo, é feito um apelo para a formação de uma nova ordem mundial baseada nas ideias anarquistas. O grande mal aqui identificado são os “Gatos Gordos”, que são nada mais que uma representação dos grandes interesses capitalistas e de sistemas políticos corruptos. Há uma forte contestação contra estas duas forças, dando desde logo a ideia de que estas tentam, em todo o momento, sedar a população com falsas promessas, que na verdade nunca chegam a concretizar-se, e com as quais tentam neutralizar reacções revolucionárias.

Como é possível observar pelo videoclip, vão surgindo mensagens de forma muito sublime. Uma das quais é um cartaz com a seguinte mensagem: “Going out of business” e que está afixado na entrada de um pequeno estabelecimento que sucumbiu à crise económica, dando a ideia de que apenas as grandes empresas conseguem subsistir, no contexto referido.

Outra mensagem igualmente relevante diz respeito a um outdoor em que consta “Building for the future”. É um cartaz em tudo semelhante aos utilizados em campanhas políticas, sempre revestidos de falsas promessas de um futuro melhor. Outra abordagem possível é como o modelo representativo dos grandes investimentos capitalistas domina por completo o mundo. Capitalismo este que tem a sua maior expressividade nas grandes empresas e nos sistemas de monopólio, onde não é deixado espaço para os mais fracos. Para esta última interpretação é valido também o cartaz “Quality Condos”.

Aos 2 minutos e 15 segundos, surge em cena uma montra com uma série de televisões, nas quais aparecem os “Gatos Gordos” mais uma vez como protagonistas, pois só para eles há lugar na sociedade. Numa das televisões, pode ler-se carnívoro por cima de um “Gato Gordo”, com a intenção de, mais uma vez, demonstrar a voracidade dos grandes interesses capitalistas. É ainda possível estabelecer uma certa intertextualidade entre os “Gatos Gordos” e uma figura do cinema nipónico – Godzilla. Tendo surgido num contexto histórico de pós-Segunda Guerra, esta criatura foi considerada a personificação do medo das armas nucleares. O seu tamanho, força e capacidade destrutiva relembra a impetuosidade das bombas lançadas em Hiroxima e Nagasaki. Por sua vez em “Uprising”, os “Gatos Gordos” surgem igualmente como gigantes, com grande capacidade destrutiva, e são apresentados como a personificação do capitalismo voraz.

Todo o vídeo é ainda um apelo à anarquia, pois fomenta a ideia de que o “We” sairá vitorioso, quando não tiver ninguém no poder.

Depois da análise destes dois exemplos, podemos concluir que mais do que exclusivamente imagem, música e letra associada, o videoclip pode ser considerado por si só uma nova forma de linguagem. É uma língua atractiva e que manipula – positiva e negativamente – os consumidores não apropriados devidamente das suas aplicações na vida real social.

Os Muse, enquanto banda focada em oferecer uma experiência musical totalmente fora do comum, com uma elevada carga dramática e conspirativa, são um contributo valioso em termos artísticos. Até, porque poderá ter contribuído para despertar o interesse de pessoas menos familiarizadas com esta forma de fazer música para além da própria.

A música tenta cada vez mais chegar a distintos públicos, a ser mais do que uma simples expressão artística. Esta forma de entretenimento procura novos mundos e novas complexidades, aproximando-se, talvez, de uma nova era explorada por certos artistas que viram, mais rápido do que outros, as suas verdadeiras potencialidades.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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