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Enquanto dançava

Os olhos fecharam-se lentos, embalados pelo corpo e pelo fumo. Os pés mexiam-se num chão diferente, almofadado, gelatina que me ajudava a balançar. À minha volta, nevoeiro – não o via, mas sentia-o. Sentia na pele, no cabelo, no tempo lento ao ritmo da água, e no som completo que me chegava. Um som que não vinha de lado nenhum porque estava em todo o lado, fundo e sobrenatural. A música alta nos ouvidos, a correr para o cérebro, impulsos eléctricos, choques no corpo de tal forma que os ossos só continuariam vivos se me mexesse e mexesse e dançasse e dançasse.

Hipnotizada numa maravilhosa sinestesia. A cabeça cheia de um caos que se desencaracola e se revela colorido. Uma explosão de estrelas e de cores, de formas do teste de Rorschach que se levantam e voam. Uma festa na Índia, sons que cheiram a liberdade e sabores que são ásperos e desconhecidos.

Nem percebo que caí no meu lugar de inspiração.

O mar tranquilo. Só num ouvido, como um búzio. Parte de mim continua no nevoeiro boémio. Entre dois mundos. Mas há vento porque o sinto nos cabelos. Sinto o vento e o fumo e a música nos cabelos loucos. As palavras surgem na cabeça, pouco tempo depois são uma narração como num filme. Aparecem com formas e texturas. Experimento-as. Primeiro, no cérebro. Depois, na língua. Abre-se a mente porque é uma luz. Tudo é meu e tudo inspira. Os braços sobem a quererem libertar-se, percorrem o corpo e dançam com ele, sobem para o alto e os dedos abertos são raízes que absorvem o que vêem.

Os olhos abrem. Mas nada é o que foi.

Os olhos iluminam todas as histórias que aquele lugar conta, que aquelas pessoas vivem, que aquela música inventa. As pessoas são letras e as músicas são segredos e as paredes são cadernos. Os dedos mexem-se como se segurassem canetas e escrevessem no ar todas as letras do cérebro. A pele absorve tudo o que se pode contar e todos os segredos que são impossíveis e reais. Nada mais existe, apenas palavras no ar. Não – não palavras. O que está no ar é o que não pode ser dito, porque o que existe é redundante e impossível. Mas o que está no ar conta, conta como quem sente, conta tocando na pele e na mente e em coisas que nem sabia que tinha. Algo me conta tudo em tudo aquilo que eu não sabia que tinha. Algum dia, talvez, esse tudo vá parar ao papel. Dependerá da memória e daquele som rítmico, que embala, que hipnotiza, que cheira a mar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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