Tuesday, Aug 22, 2017
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Encontros imediatos com o (seu) pensamento

O Século XX foi uma centena de anos plena de acontecimentos, mas também, mais significativamente, repleta de Pensamento. Referências do Pensamento enriqueceram a nossa cultura e civilização com ideias e reflexões sobre quase tudo – passado, actualidade e tendências esperadas no futuro.

Jacques Barzun, Roger Scruton, Tony Judt, Gilles Deleuze, Peter Sloterdijk, Daniel C Dennett, Richard Dawkins, entre tantos outros, trouxeram o pensamento sobre quase tudo a níveis nunca vistos. Muitos antes deles contribuíram igualmente para esse exercício tão humano quão importante, de repensar o que havia sido pensado, como de pensar algo de completamente novo. Porque usaram de princípios puros e filosóficos e dessa capacidade mental que todos temos um pouco, ao menos um pouco, de pôr em causa, de nos questionarmos e não termos de ser complacentes com o que já foi antes pensado ou criado.

Não temos de ser cultos sobre o pensamento dos grandes pensadores. Não temos de nos entregar a um porventura muito esforçado, para a generalidade, exercício extenuante de conhecer os mais complexos ou mais nobres pensamentos que grandes intelectos criaram. Mas muito ganharemos se o fizermos. Perder, só mesmo não o fazendo.

Contudo, afinal basta que dediquemos algum tempo diário a pensar e repensar, que apenas tenhamos a ousadia de pôr em causa, de não aceitarmos que alguém por mais informado e culto possa substituir-nos nesse esforço tão compensador de pensar, repensar e recriar. Pensarmos nas coisas simples, mas mesmo nas outras, nas mais polémicas. Não aceitar pensamentos por puro conservadorismo, tradição ou aceitação tácita. Ou, como o fazemos quase sempre, apenas porque sim. Não aceitarmos ideias e até ideologias, porque alguém que temos como superior mentalmente, culturalmente também, escreveu e divulgou.

Ainda hoje há imensos exemplos de disparates com os quais convivemos pacificamente. Convivemos com uma coisa tão ridícula como a avaliação da inteligência humana (da capacidade intelectual para ser mais rigoroso), através de testes de QI, Quociente de Inteligência. Convivemos com uma coisa tão ridícula como as ideias de uma Revolução com 226 anos. Como é possível ainda hoje andarmos agarrados a tal dualismo de Direita e Esquerda com tanta evolução, noutras áreas, pela qual passámos. E convivemos, pacificamente com aceitação sem nos questionarmos de ideias subjacentes a essas, transformada há 132 por Karl Marx, numa outra dualidade desconfigurante da realidade, sobre Público e Privado.

Estamos pacíficos com anacrónicas formas de viver, onde o conservadorismo ainda condena divórcios, mas aceita casamentos. Onde esse mesmo conservadorismo considera um casamento algo construtivo e feliz, mas acredita ser destruidor e infeliz uma separação ou um divórcio. E no plano sexual, os nossos conservadorismos ainda vão mais longe, parecendo por vezes termo-nos tornado mais púdicos e pressurosos na condenação de comportamentos que eram aceites há quinhentos anos e mesmo há duzentos. No que parece termos avançado, regredimos, social e individualmente. A condenação dos outros pela sua escolha, ou escolhas é fácil e sumária e não representa mais do que uma paragem ou regressão na evolução humana.

Muito deste comportamento social e individual se deve a medos, a inseguranças, mas, sobretudo, à recusa ou à preguiça em pensar. Pensar “dá trabalho”, exige esforço e persistência. Como o exige a alta cultura e até a informação menos óbvia, mais selectiva, que exige pesquisa para além do obviamente disponível.

Por comparação com os anos de vida dos nossos avós, regredimos na pesquisa e no prazer pela cultura e, não obviamente, mas possivelmente consequente, pelo prazer de pensar. Pelo gosto pelo saber, o que define a Filosofia, esse amor esforçado e compensador pelo Saber e pelo Pensamento. Por comparação com a vida de há sessenta ou setenta anos, quando o Mundo estava em Guerra (e antes desse tempo) mas não tanto depois, o nosso quotidiano mudou muito e as suas rotinas com ele.

A globalização teceu efeitos bons e muitos outros perversos. Porém, o nosso problema com a preguiça ou com a disponibilidade para pensar não é atribuível a uma tendência na economia e na politica global. Talvez só em parte, os efeitos da importação e da quase generalização de rotinas e modos de vida que não eram nossos, se devem a um movimento que contraria as diferenças e o que com elas nos é dado em riqueza cultural, entre povos e regiões.

A rotina hoje esmaga-nos o tempo e comprime-o ao ponto de não nos sobrar muito para a tão importante informação, auto-formação e momentos de reflexão. No entanto, a contemporaneidade também nos permitiu muito mais meios e acessos que antes eram impossíveis e inalcançáveis. E, no entanto, o imediatismo e muita preguiça mental, associados a um exequente cansaço físico e a novas solicitações, por vezes úteis, lúdicas e divertidas, e por isso também importantes, por vezes fúteis e regressivas em termos culturais e em termos de disponibilidade de pensar e de pôr em causa o existente e o tradicionalmente aceite.

Deve ser quase generalizada a sentida necessidade de ter de surgir algo de novo e de ruptura em termos políticos. Talvez mesmo uma nova ideologia, com a consistência das estafadas actualmente, ainda preponderantes, mas com a capacidade de trazer nova esperança onde já vemos tão pouca. E, no entanto, o seu surgimento parece não ser urgente, com esta eventualmente crescente preguiça generalizada em se pensar. E, acima de tudo, em pôr em causa.

Numa passagem de um livro de Tony Judt (Reapprasials, 2008), o exemplo era que em vez de ensinarmos história, pelo uso de textos, pela demora atentada que exige, nos limitamos a levar os jovens a museus, numa visualização nem explicada, ou numa explicação das coisas, objectos e nem sequer de acontecimentos (de que a História se faz) para apelar a uma memória do passado, desse passado que nos trouxe até ao que somos.

Um dia, alguém um pouco mais velho do que eu, me dizia que a História não interessava nada, pois conta apenas o que hoje vivemos e não os factos históricos. Este imediatismo e apego ao egoísmo das necessidades imediatas é atroz, para não dizer mais e se ser deselegante. É também muito saloio e negador de algum interesse cultural. Como se nada de cultura interessasse ou, tão só, a constatação de que a mente de cada um de nós se fez de todos os que antes de nós viveram. Familiares ou não. Os memes estão para a cultura, como os genes para a nossa biologia. E contam também todos os que foram elaborados por tanta gente fora do nosso meio familiar ou social.

Reflectir e recriar o pensamento é um processo tão necessário como compensador. É gratificante e útil. Para todos e não apenas a título pessoal. Cada pensamento inovador que divulgamos pode ter um efeito marcante para muitas pessoas e assim se iniciar um processo novo, algures, algum dia.

É de um encontro imediato com o pensamento que precisamos, em tempos de dúvida de identidade ou de incertezas pessoais ou sociais, ou políticas, pois.

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alexandre.bazenga@gmail.com

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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