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ContosCultura

Encontrei-te

Na sombra, estou eu. A luz cai do candeeiro como chuva. Se olhasse, veria humidade e pó. Se olhasse, veria as traças que esvoaçam ansiosas à volta da luz ténue, entre a atracção e a desorientação. A luz cai e acaba por perder-se nas sombras. Talvez um fio passe na sombra e toque no chão, batalhador e vitorioso, apenas uma pequena impressão do seu poder, mas a sombra está ali pronta a arrasar, dominar, conquistar, vencer. Aqui em baixo, nas trevas, onde estou eu, já nada me ilumina. Nem real, nem metaforicamente.

Mas talvez tu me vejas.

À minha frente, um contentor enferrujado, velho, abandonado. Sozinho naquele parque de estacionamento deserto e isolado, parece um monstro. Eu não tenho medo – não consigo, faz parte do que sou. Além disso, conheço bem os monstros e eles conhecem-me bem a mim.

Não te procuro. Não olho para as traças nem para a luz nem para o pó. Não olho porque não posso. Porque aquele pequeno fio de luz que conseguiu invadir a sombra ilumina-a e eu não quero ver mais nada. Escondida, mas eu vejo-a. Aproximo-me e quase que quero tocar nela. Mas seria um erro. Toco com o olhar. Calmamente. Demoradamente. Aprecio cada poro, cada mancha, cada sinal. Os dedos, as unhas, o verniz lascado. A mão branca, pálida, agarrada a um braço morto, parte de um corpo morto. Não posso fugir ao contraste com o contentor verde escuro, à comparação entre aquela mão sem vida e a ferrugem que invade o contentor.

Procuro caixas à volta, sacos, qualquer coisa que me faça ser mais alto. Com o pé, ajeito-os ao lado do contentor para subir e ver melhor. Olho-a. Admiro demoradamente os dedos, a mão, o braço, o ombro, o corpo. O pescoço marcado, entre o vermelho e o roxo, e quase que o sinto entre os meus próprios dedos. A roupa suja que tenta tapar a palidez da pele. O cheiro é quase visível. Uns olhos vermelhos, azuis, gelados e cegos entre o cabelo despenteado. Adivinho a boca aberta, admirada. Arrepio-me. Prazer. Sim, eu sei que sou um monstro. Sorrio. Quero tocar, mas não toco. Só observo, fito, espio, contemplo, todos os sinónimos de olhar como se, juntos, fossem uma espécie de tocar. Vejo-a. Ou vejo-te, não sei, possivelmente confundo os dois conceitos. Tu é que me interessas.

Aqui, aqui, aqui mesmo à minha frente está um pedaço de ti. Mas somos iguais, por isso talvez seja um pedaço de mim também. Conheço bem os teus instintos e as tuas curiosidades. Conheço bem as tuas vontades: são as minhas. Penso no que deves estar a sentir, nas vezes que senti o mesmo: o poder do último fôlego, o controlo da vida, o pedaço de alma que se apaga (acreditas em almas?). Lambo os lábios com a vontade de sentir de novo. Estarás a apreciar o que fizeste, algures na escuridão. Resisto a procurar-te. Onde nós estamos, nada nos pode iluminar. E não é isso uma liberdade? Limito-me a deixar que a luz me ilumine, a sorrir, porque tu vais perceber que sou igual a ti.

Eu encontrei-te. Pergunto-me se deixaste este corpo como uma prenda, como um gato que decide presentear o seu Humano. Talvez. Eu encontrei-te. E acho que tu também me encontraste.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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