Negócios

Empreendedorismo: a Tábua de Salvação?

Estima-se que, desde 2007, Portugal vê nascer, em média, 27 mil empreendedores por ano. O empreendedorismo tornou-se quase uma religião. O principal culpado é a crise. O sector público em termos de empregabilidade está estagnado, já o sector empresarial cria pouquíssimos novos postos de trabalho. A única alternativa é abrir um negócio. Será este o caminho mais indicado para quem está no desemprego?

Ao contrário do que a Comunicação Social pinta, é preciso ter, além de conhecimentos na área de negócio que se pretende criar, determinadas características, como persistência, determinação, autoconfiança, humildade e espírito de sacrifício. Não é uma alternativa para todos. Só os super-homens e as super-mulheres conseguem vingar nesta aventura.

Quem tem a ideia de que ser patrão é mais fácil, está errado. É um papel extremamente exigente. É necessário trabalhar 24 horas sobre 24 horas, para não falar das responsabilidades acrescidas: funcionários, fornecedores, clientes, entre outros.

Não é, portanto, de estranhar que, no Relatório Global de Empreendedorismo 2013 da Amway, 83% dos portugueses tenha admitido que o grande obstáculo para iniciar um negócio seja o medo de falhar. Na verdade, a taxa de mortalidade dos negócios independentes é impressionante. Mais de metade fecha as portas ao fim de dois anos. Facto que apavora qualquer empresário.

O Governo lá vai dizendo, que o “empreendedorismo atravessa um bom período em Portugal”, que “é um dos pilares da nossa recuperação económica”, mas os números contam-nos outra história. Se até Agosto deste ano (2014), perto de 23 mil empresas tinham sido constituídas, cerca de 25 mil tinham sido dissolvidas e mais de 7 mil encontravam-se em processo de insolvência. Desde 2008, que o número de empresas que se extinguiram e as insolventes ultrapassam o número de empresas fundadas. De ano para ano, esta diferença tem vindo a aumentar cada vez mais, em 2008 (18 mil empresas), 2009 (25 mil empresas), esperando-se que, no final de 2014, o número de empresas extintas e insolventes atinja quase os 50 mil, contra as 35 mil empresas constituídas.

Há algo muito importante que as pessoas precisam de ter em mente antes de se lançarem num negócio – a oportunidade, existência de necessidades de mercado ainda não satisfeitas. De nada vale sermos um país de muitas empresas, se não são necessariamente melhores empresas. Negócios com pouco potencial de geração de emprego e pior, reduzido impacto económico. Muitas vezes, mais vale investir tempo e dinheiro na expansão de um negócio já existente do que num projecto que constitui um pior uso de recursos.

Portugal não precisa de mais gente a criar uma qualquer empresa, precisa sim de decisões bem fundamentadas. Não basta querer. É preciso que as ideias tenham sumo. Uma ponta por onde se pegar. Dá impressão que estamos a viver a Era do Empreendedorismo. Um tempo em que a solução para todos os problemas passa por simplesmente abrir uma empresa. Também não é dizer que o empreendedorismo é algo negativo, porque não é. Totalmente ao contrário. Esta euforia é boa. Os portugueses são dos povos mais empreendedores, quando estão à “rasca”. A solução desta crise também passa por aqui, mas também não é dizer que o empreendedorismo é a tábua de salvação para todos. Porque não é.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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