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Em que tipo de pessoas nos estão a tornar as redes sociais?

Recuemos a 2011. Nuno recebe um pedido de amizade no Facebook de Sofia, uma rapariga que ele descreve como tendo um “sorriso bastante cativante”, que decide aceitar de imediato. Sofia apresenta-se como sendo médica obstetra e diz viver em Matosinhos, no mesmo prédio da irmã. Tem ainda uma casa de praia em Espinho e outra no Algarve e, tal como Nuno, gosta de automóveis e de motas. Após o pedido de amizade ter sido aceite, as interações através de “gostos” tornam-se uma constante e depressa evoluem para conversas privadas através desta rede social e do telemóvel. A determinada altura, Sofia acaba por contar a Nuno que estaria em Londres, a fazer um tratamento para curar o cancro da mama. Apesar da doença, esta mulher mostra-se positiva e, mais uma vez, Nuno fica cativado pela força que ela demonstra perante a doença. Finalmente decidem marcar o primeiro encontro, no Porto. Porém, na manhã em que se preparava para partir, Nuno recebe um telefonema de Sofia a dizer que o pai desta morreu. Meses depois marcam um segundo encontro, desta vez no Estoril, mas Sofia tem um acidente rodoviário. Os desencontros sucedem-se, mas Nuno e Sofia mantêm o contacto. Entretanto, a doença progride. Um ano depois do primeiro contacto, Nuno é confrontado com a notícia da morte de Sofia, que nunca chegou a conhecer. É isto realidade? É isto ficção? É realidade que ultrapassa a ficção.

Sofia tinha uma série de familiares e amigos muito próximos, com quem Nuno continuou a manter o contacto após a morte desta. A própria mãe de Nuno tinha já entrado em contacto com Sofia e a mãe desta. Foi preciso mais um ano desde a morte da protagonista desta história para Nuno perceber que tinha caído numa armadilha. Não existia Sofia, tal como não existia mãe, irmã e amigos próximos. Tudo não passava de um esquema para manipular Nuno, da forma mais vil. A história, divulgada por uma reportagem da SIC intitulada “A Rede” acabou em tribunal: a arguida deu-se como culpada, pediu desculpa aos lesados (Nuno e à pessoa a quem correspondem as fotografias com que se apresentava) e foi obrigada a pagar uma pequena quantia a ambos. Mulher com mais de 40 anos, mãe, professora do ensino básico – é este o perfil da autora deste enredo.

A questão que se coloca é: O que é que leva alguém a fazer isto? O que é que leva alguém a criar uma série de perfis falsos com a única intenção de manipular? Que tipo de pessoa cria uma personagem totalmente falsa, que usa para seduzir e manipular terceiros e que mais tarde acaba por matar? Que benefícios é que esta pessoa pretende retirar desta situação? Apesar de condenável, é fácil compreender quando se cria um perfil falso com ganhos secundários óbvios como a chantagem ou a extorsão de dinheiro. Este caso, porém, reduz-se a uma tentativa de obter a atenção e o amor dos outros. Parece-me óbvio que esta pessoa sofre de algum tipo de perturbação mental, pela frieza das atitudes e total ausência de empatia. Real ou não, Nuno viveu um luto a que esta pessoa assistiu de forma cruel.

No meio disto tudo, percebemos que Nuno é um homem jovem, informado e bem falante. É o tipo de pessoa que não esperávamos ver ser vítima de tal artimanha. Talvez se sentisse carente, talvez tenha sido ingénuo, mas a verdade é que foi apanhado nesta rede de mentiras que durou dois anos. A autora desta história foi ardilosa e teceu a rede com cuidado: através de Sofia, personagem que encarnava, fez com que Nuno se sentisse especial em várias ocasiões, dizendo-lhe que não conseguia adormecer sem falar com ele ao telemóvel. Nuno admite que se sentia apaixonado e chegou mesmo a afastar-se de alguns amigos por causa do tempo que despendia a falar ao telemóvel. A vida virtual roubou-lhe tempo à vida real. Como ele, outras pessoas foram enganadas: pelo menos 14 pessoas viram-se envolvidas nesta história. Todas elas choraram a morte de Sofia, cuja autora via o seu ego alimentado através deste jogo de abuso, crueldade, mentira e chantagem emocional.

Quanto a nós, ouvimos esta história, ficamos chocados e continuamos, alegremente, a partilhar as nossas vidas nas redes sociais. Porque faz parte. Porque toda a gente o faz. Porque achamos que somos inteligentes, estamos precavidos, não partilhamos assim tanto da nossa vida privada. Porque, também nós, gostamos da atenção que recebemos em forma de “gostos” no Facebook e corações no Instagram. O grande problema é que não sabemos quem está do outro lado, muito menos as intenções com que atua.

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Carla Sofia Maia

Olá! O meu nome é Carla, tenho 27 anos e nasci em Vila do Conde, uma pequena cidade no Norte de Portugal. Talvez por ter crescido numa cidade pequena, desde cedo tive o sonho de viajar pelo Mundo e conhecer outras pessoas e culturas. Aos 18 anos, mudei-me para Coimbra onde estudei Jornalismo e Comunicação. Ao longo dos meus estudos, tive a oportunidade de conhecer pessoas de todas as partes do Mundo, o que reforçou a minha vontade de ter uma experiência além-fronteiras. Foi em 2017 que conheci o Serviço Voluntário Europeu e tive a certeza de que era algo que fazia todo o sentido na minha vida: fazer voluntariado noutro país, tendo a oportunidade de aprender outra língua era algo que eu desejava. Actualmente estou a viver em Bordeaux, onde sou voluntária de uma instituição europeia e posso dizer que estou muito feliz por ter sido aceite neste projecto, em que sou embaixadora dos valores europeus. Escrever é uma paixão que vi reforçada com esta nova experiência, em que há tanto para contar. Boas leituras!

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