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Em dívida

Todos temos o direito de ser felizes. Acredito fortemente que esse é um dos principais motivos para estarmos aqui, mas nem sempre é fácil. Há desafios e obstáculos para ultrapassar, níveis de um grande jogo que se vai vencendo a passo-a-passo e muitas vezes a grande custo.

Para ultrapassarmos estes níveis há necessidades básicas a serem nutridas: poder dormir numa cama quente e de barriga cheia, ter roupa para vestir, não ter dores de cabeça, porque se aproxima aquele mês em que temos o seguro do carro e o seguro da casa e nem sabemos bem como ultrapassar o mês em que ainda nos encontramos.

Endividamo-nos. Há contas-ordenado que são uma mais-valia nos nossos dias, o que não deixa de ser uma ironia, porque se gasta o dinheiro que não se tem, a dívida cada vez é maior, mas nunca conseguiríamos de outra forma. Esticamos o dinheiro em malabarismos absurdos e ficamos com um brilho nos olhos, porque se aproxima o dia de recebermos o ordenado para nos apercebermos depois que grande parte dele não existe, porque abateu a dívida no banco.

Nem nos podemos queixar. Há pessoas muito piores do que nós. Há quem não tenha casa ou comida. Bem sabemos que volta e meia há quem perca o apartamento, porque já não conseguiu equilibrar os pratos na balança, restando-lhe apenas a vergonha, a frustração e a enorme sensação de impotência e vazio.

Ficar doente é um luxo. Não há profissionais que cheguem, por muita boa vontade dos bons que exercem e se vivemos no interior a saúde pública fica a quilómetros de distância e nem sempre tem de serviço os profissionais necessários. Não se tem seguro de saúde. Não se tem dinheiro para tratamentos, consultas ou exames, mesmo que o consigamos ter.

Fala-se muito em dívidas, em números. Este ano a Deco recebeu, até 26 de Outubro, vinte seis mil e oitenta pedidos de ajuda, de famílias que se encontram sobreendividadas, mais de cinquenta em relação a 2016.

Estes números são pessoas. Famílias inteiras, idosos, crianças. Pessoas com sonhos, com direito a passar por aqui com uma vida digna. Não somos máquinas de produção económica e há que existir uma troca justa, de deveres e direitos.

Tenho noção do outro lado da moeda, por isso não concordo com parasitas. Há que contribuir para que todo um sistema funcione, todos temos de ser úteis de alguma forma. Não acho justo pagar com o meu trabalho o encosto do teu.

Acima de tudo, é bom ver pessoas felizes. É bom sentirmo-nos confortáveis e saber que apesar daquela dívida inesperada, de um imprevisto que surge (e há sempre um que surge), podemos tranquilizar-nos porque temos como pagar tudo o que ainda há a pagar. Só assim faz sentido o que contribuo por aqui e o útil que sou todos os dias. Só desta maneira posso me concentrar em me desenvolver e crescer noutras áreas. Assim não me (en)divido. Sou completo.

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Carla Moreira

Fiz teatro e fui jogral de poesia há algumas luas. Gosto muito de pessoas. E de vários assuntos. E de assuntos que envolvam pessoas. Sou curiosa por natureza e tenho verdadeira paixão pela palavras.

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