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Em 2 Anos… o Digital mudou o Social

Desde encontrar crianças perdidas na China, à partilha de experiências comum, passando pelo uso de telemóveis para lutar contra a corrupção, existem, pelo menos 100 aplicações inovadoras a surgirem das tecnologias digitais e que se encontram espalhadas pelo mundo.

A humanidade está a viver num gigante tubo de ensaio criado por si mesma, numa experiência sobre o que significa viver na Era Digital. Este processo está a ser incrivelmente acelerado pelo rápido desenvolvimento de aparelhos ligados à Internet, como os smartphones, os tablets, os smartwatchs e os Google glasses. Contudo, esta avalanche tecnológica ultrapassa a nossa capacidade de compreensão sobre a forma como usamos estas inovações e não conseguimos compreender o escopo total das alterações que estão a ocorrer à nossa volta.

Até agora, as experiências digitais provocaram três grandes reacções: excitação por parte dos optimistas, que acreditam que estamos à beira de uma nova era para a democracia; alarme por parte dos pessimistas, que pensam que estamos a desvalorizar o respeito em prol da autoridade, da perícia e do discernimento; e cepticismo para aqueles que não compreendem qual é a euforia sobre a Internet, já que o que é verdadeiramente importante na vida não vem num microprocessador, ou num smartphone.

As tecnologias digitais são multiplicadores de inovação, sendo que cada nova onda tecnológica amplia a nossa capacidade criativa. Smartphones tornam-se em plataformas para aplicações e para a Internet móvel, que, por sua vez, geram outras inovações no que toca às tecnologias móveis, como a criação de tablets de baixo custo. O mesmo se pode aplicar à forma como as ideias são implementadas. Por essa razão, a inovação com a maior capacidade de disseminação não será um smartphone, ou um tablet repleto de novidades, mas sim tecnologias mais simples. Na Índia, por exemplo, um projecto chamado Crowdring transforma telemóveis sem grandes capacidades tecnológicas em ferramentas de luta contra a corrupção e, na China, um site com um design datado, o Baby Come Home, ajuda muitos pais a encontrarem os seus filhos desaparecidos, ou que foram raptados.

Tal como estes projectos demonstram, a inovação social não está a ser desenvolvida apenas em Sillicon Valley, mas também em países em desenvolvimento. No Brasil, uma cultura open-source criou a Catraca Livre e excelente Fora do Eixo, duas cooperativas que organizam milhares de eventos em todo o país sem recorrerem a dinheiro e utilizando bens materiais doados. No México, entretanto, foi criado o Medicall Home, um serviço de cuidados de saúde primários revolucionário, por ter as suas bases desenvolvidas em torno da tecnologia móvel. A inovação, tal como estes casos exemplificam, floresce, quando a tecnologia é disponibilizada a pessoas com necessidades urgentes, mas com poucos recursos e sem outra opção que não seja criar novas soluções com o que têm disponível. A velocidade com que este tipo de inovação ocorre é muito acelerada. As boas ideias estão a aparecer cada vez mais depressa, porque projectos, como a Khan Academy, que disponibiliza lições gratuitas online, conseguem comprovar o seu sucesso, através da quantidade de procura que as pessoas têm destes serviços. A organização, que surgiu somente há 7 anos, já disponibilizou mais 300 milhões de lições, para um público que chega a 1.25 milhões de utilizadores, com uma grande diversidade linguística.

Paralelamente, as inovações sociais estão a alimentar-se umas das outras. Algumas ideias aspiracionais já estabelecidas, como a Creative Commons, que permite o licenciamento de conteúdo que pode ser usado de forma gratuita e legal por terceiros, são impulsionadores para outras inovações. A Viki, uma plataforma de Singapura, segue os mesmos passos, ao permitir o acesso a conteúdo vídeo licenciado a qualquer utilizador registado e que é traduzido por uma equipa de voluntários, para que, independentemente da cultura de origem, qualquer um consiga perceber o que é dito nos vídeos.

Tudo isto está a mudar aquilo que as pessoas conseguem alcançar e onde o conseguem fazer, reduzindo a sua dependência de profissionais especializados e de instituições governamentais. No entanto, grande parte das mais impressionantes iniciativas criam um caminho estruturado para profissionais e amadores combinarem as suas diferentes visões no que toca a cuidados médicos e à pesquisa científica, de forma a conseguirem complementar e aumentar os serviços já existentes. Em alguns casos, chega a ser disruptiva, ameaçando as estruturas de algumas indústrias estabelecidas socialmente. A Música e a Publicação de Livros já viveram este género de disrupção, enquanto a Educação, a Saúde e o Sistema Bancário ainda têm de viver uma fase de transformação digital transformadora. Nada conseguirá fugir à revolução digital.

As tecnologias digitais até estão a transformar o modo como nos vemos no mundo. Todos temos a expectativa de nos ligarmos ao wifi sempre que quisermos, para podermos partilhar os nossos pensamentos usando todos os canais que tivermos disponíveis, aceder a informação e interagir com locais em que nos encontramos. Nos países em desenvolvimento, particularmente, a aquisição de um dispositivo móvel, por mais básico que seja, é sinal de que, mesmo que a pessoa não seja capaz de ler, ou escrever, é alguém importante, porque está ligada ao mundo e não pode ser tida como certa, como era anteriormente. Isto não significa que as tecnologias digitais irão renovar as instituições que são base da democracia, apesar da esperança que tal aconteça ainda não tenham desaparecido. O que deverá acontecer é que as novas tecnologias de comunicação alimentem, gradualmente mais, movimentos políticos caóticos, levando as sociedades democráticas a serem sustentadas pela cidadania e não pelos partidos políticos. Uma sociedade onde os cidadãos pensam que têm o mesmo poder que o estado e onde as instituições governamentais são consideradas longínquas, porque não compreendem a realidade das decisões que tomam. A seguir o caminho de transformação social que se vive, este será o futuro da política e o seu novo terreno será favorável a novos actores políticos, representados em listas pessoais em aplicações de smartphones, como o Avaaz, a plataforma online para campanhas globais.

As redes sociais, normalmente, são associadas à disseminação de cusquices pessoais, sem qualquer tipo de interesse, porém, estas plataformas de comunicação são representativas daquilo que é a World Wide Web – um mosaico composto daquilo que é verdadeiramente importante para nós. Algo que está muito bem representado no 7 Billion Others, um site onde é possível ver entrevistas a 6 000 pessoas de todo o mundo e que respondem às mesmas 45 questões sobre as suas esperanças, memórias e medos. O projecto foi criado por uma equipa de realizadores franceses, que querem explorar as semelhanças que existem entre diferentes culturas.

Em breve, deveremos ser capazes de percebermos em que lugar estamos neste mosaico. Aparelhos constantemente ligados ao mundo digital começam a gerar montanhas de dados sobre o nosso comportamento, sendo que essa informação sobre o nosso dia-a-dia começa a ser sagrada, à medida que se torna mais qualificada. Estes dados poderão, em contrapartida, ajudar a resolver questões que são globais a todas as sociedades, como é o caso das necessidades energéticas, ou os serviços que podem surgir com a descodificação do genoma humano. Outra questão que é necessário perceber, neste caminho cheio de possibilidades tecnológicas, se esta tecnologia toda é genuinamente para nós, ou, se pelo contrário, nós é que fomos feitos para estas tecnologias evoluírem, à medida que as reduzimos as nossas vidas a actualizações de perfis e delegamos as nossas decisões a algoritmos.

Por isso, a fotografia do comportamento online de cada um de nós é apenas uma pequena pista sobre o caminho que o mundo está a seguir. Até ao fim da próxima década, irá nascer uma nova Era, em que todas as tecnologias criadas entretanto e que são ferramentas para aumentar as nossas capacidades, neste mundo móvel e interligado, irão tornar-se em algo parecido como formas de vida, nas quais iremos viver constantemente.

As nossas identidades irão tornar-se inseparáveis desta digitalidade e as nossas vidas serão impossíveis de existir sem que estas tecnologias existam. Algo que tem preocupado muitas pessoas, por causa da cultura dependente das inovações tecnológicas que se está a espalhar pelo mundo. Porém, os nossos comportamentos online têm demonstrado que este pessimismo é exagerado, uma vez que ainda estamos a tentar perceber como incorporar estas tecnologias na nossa vida, de forma a conseguirmos ter disponível os serviços básicos que necessitamos para ter uma vida decente: ensino de qualidade e cuidados de saúde, água limpa e energia, mercados livres e sistemas políticos mais responsáveis. Esta fase de experiência ainda tem um longo caminho pela frente, mas a melhor forma de ter alguma influência no resultado final é a de nos envolvermos nela.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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