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É suposto

É suposto a família ser a base da sociedade. Um homem e uma mulher geram um novo ser. Este é esperado com ansiedade e os planos são logo feitos. Se for rapaz será assim, se for rapariga será de outro modo. Ainda não nasceu e já tem uma vida cheia de expectativas. É suposto que nasça e que cresça para alegria de todos. E o novo ser não tem voto na matéria? Tudo estipulado sem ser consultado!

A família clássica ainda continua a ser dominante apesar de existirem outras formas de associação que são resultado da evolução dos tempos e da própria sociedade. O amor, a essência energética, essa nunca se altera e pode ser demonstrado de maneiras muito peculiares. O novo ser precisa de ser orientado e todos são importantes nesse caminho.

É suposto que tenha um certo tipo de vida. Nasce e é acarinhado pela família e pelos amigos. É o “ai Jesus” de todos e cada um faz uma imagem idealizada para a criança. Esta nada sabe do que se passa. Simplesmente vive como sabe, de modo singelo. Espalha graças e alegrias sem saber ainda que será alvo de uma enorme pressão. As suas escolhas serão livres ou condicionadas? A vida parece tão simples.

Quando chega a uma certa idade é suposto ir para a escola e aprender para se tornar um ser completo e culto. É suposto ter um determinado comportamento para que os objectivos sejam atingidos com facilidade. É suposto saber respeitar e obedecer à família e professores. É suposto estar inserido numa determinada sociedade e comunidade, conhecer as suas normas e regras para as cumprir e aprender. A vida começa a complicar-se.

Terminado o ensino secundário é suposto que continue a estudar para ter um curso superior. Cada um dá uma opinião sobre o assunto, uma sugestão de carreira e um futuro que se avizinha. O sujeito em questão está perdido. Não quer desapontar ninguém mas tem vontade própria e vacila entre o certo e o mais adequado. O se começa a colocar-se. Se for por este caminho pode ser assim, mas se for pelo outro talvez aconteça como deseja. A vida torna-se difícil.

A carreira, o emprego, a posição social que vai ter e ser mostrada aos outros. A vontade, por vezes, deixa de existir e transforma-se em angústia e receio de fracassar. A pressão exercida é tão pesada que o ar se torna irrespirável e doloroso. Como escapar a tudo isto? Como me deixei enredar nesta teia que me aperta e sufoca? Onde estou? A vida é uma tarefa perigosa.

Mais tarde é suposto escolher alguém para constituir uma família. Essa escolha acaba por ser direccionada. Seja ele ou ela, o outro dificilmente será do agrado de todos. São tantas as histórias ouvidas e as situações narradas que a cabeça parece estoirar de tanto conteúdo. Tenho que escolher? E o amor, aquele singelo sentimento que devia direccionar, onde fica? A vida é mesmo estranha.

Se for homem é suposto ser o chefe de família, prover o sustento e aplicar as punições. Deve ter uma imagem que não levante suspeitas e a sua conduta será um exemplo a seguir. De preferência que tenha uma posição social elevada e intocável, que possa suscitar alguma inveja nos outros e assim especulem sobre o que desconhecem. Ainda deve ser acrescida a casa, o carro e as férias de sonho. O homem tem que ser o modelo. A vida sem hipóteses.

No caso de ser mulher esta deverá estar sempre apresentável e disponível. O seu corpo terá de ser invejável, a sua postura é a melhor, é a mãe exemplar, e a esposa cobiçada. Um perfeição de pessoa a que ainda acresce o dom da ubiquidade. Sabe repartir-se e estar em todos os locais onde é necessária. Um exemplo para todas as que não conseguem esta façanha. A vida cheia de incongruências.

Subitamente ouve-se o grito surdo do ser que existe, que respira e que quer ser livre! Socorro! Como é que é possível alguém dizer que ama os seus filhos e ser um enorme castrador? Orientar é essencial, mas o caminho deve ser do próprio, daquele que terá que enfrentar os fantasmas e as vicissitudes da vida. Dar a mão é somente para ensinar o caminho, mas o resto terá que ser trilhado a sós.

As escolhas competem a cada um e nunca serão fáceis. A pressão ofusca a visão e tolda o cérebro. Os caminhos parecem enlameados e poeirentos quando deviam ser luminosos e lisos. Agradar a todos é uma tarefa inglória e a escolha é um direito que assiste a qualquer um. Caiu? Levanta-se! Caiu outra vez? Volta a levantar-se!

A perfeição não existe é somente uma ideia que se instalou e que comanda as mentes mais frágeis. Os erros são cometidos, sistematicamente, para que se possam retirar as respectivas ilações. São lições de vida e bons instrumentos de trabalho que devem ser usados com regularidade. Quem não errou que atire a primeira pedra. A vida é tão imperfeita.

É suposto cada um ser dono do seu destino. Deixemos cada um seguir o seu caminho, tropeçar nas pedras soltas e magoar-se que a dor pode ser bem terapêutica. Cada ser é único e a sua experiência de vida é pessoal e intransmissível. Uma escolha é algo de muito íntimo e direccionado. Na verdade, todos querem ser felizes e viver despreocupados. Para quê então complicar?

Afinal a perfeição existe. É um pôr do sol, daqueles mesmo arrebatadores e de tal forma deslumbrantes que nos cegam de tanto beleza. Por isso mesmo duram tão pouco e são sempre especiais. Tal como a vida de cada um. Para ser vivida a seu modo e bel prazer e com toda a beleza que nela se possa incluir.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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