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E se Sócrates não fosse Sócrates?

José Sócrates encontra-se preso preventivamente, desde Novembro do ano passado, por acusações de fraude, corrupção ativa e corrupção passiva – termos que parecem complicados e que constituem, de facto, crimes tão feios como os próprios nomes indicam.

Sendo ele o primeiro ex-Primeiro Ministro na história de Portugal a ser preso, surgiu, desde logo, um “zumbido” mediático gigante à volta deste caso. A prisão de José Sócrates foi capa de muitos jornais – nacionais e internacionais – e invadiu os telejornais portugueses de uma forma nunca antes vista.

Quem seguiu este caso de perto, percebe claramente que há um maior aprofundamento do mesmo na imprensa escrita nacional, que dedicou, inclusive, edições especiais à Operação Marquês – como por exemplo o semanário Sol, que dedicou onze páginas de uma das suas edições a este assunto, que vão desde o editorial até à explicação minuciosa da forma como circulava (supostamente) o dinheiro e como Sócrates o justificou.

Este caso também deu muito que falar na imprensa internacional, nomeadamente em jornais como o El País, que publicou notícias com títulos como “Ex-Primeiro Ministro português detido por corrupção”. Ora, juntando a isto o que “por cá” se foi dizendo na imprensa e nos restantes meios de comunicação social acerca da prisão de José Sócrates, podemos concluir que o mediatismo dado a este caso tomou proporções nunca antes vistas.

A questão é: será que se Sócrates não fosse Sócrates a sua prisão teria um mediatismo tão acentuado? Acredito claramente que não. Se em vez de Sócrates fosse o “Zé da esquina”, ninguém queria saber, porque crimes desses vemos todos os dias e não nos dizem rigorosamente nada. Contudo, quando um ex-Primeiro Ministro é julgado pelos crimes que cometeu, a atenção dada ao caso é logo diferente. Não é difícil perceber porquê: todos nós temos consciência de que grande parte (senão todos) os políticos, governantes e ex-governantes do nosso país são, de alguma forma, corruptos e passíveis de serem acusados de fraude, corrupção e muito mais – mas nunca antes tínhamos visto a justiça a atuar contra estas pessoas. O povo português diz muitas vezes – e com toda a razão – que aos “grandes” nunca é feita justiça e, num momento em que a justiça funcionou (de alguma forma), os portugueses pararam e pensaram que, pela primeira vez, algo foi feito para tentar parar aqueles que abusam do poder que têm.

Tendo tudo isto em conta, é perfeitamente natural que os meios de comunicação social tenham atribuído uma grande ênfase à Operação Marquês, não apenas por Sócrates ser quem é, mas também porque todos os contornos levam a que este caso sejam do interesse público e, ainda mais, do interesse do público.

Neste sentido, a comunicação social está a ter um papel importante neste caso não só porque ajuda o cidadão comum a compreender os contornos do mesmo, como também nos mantém a par das novidades acerca deste. Se não fosse o mediatismo atribuído a este caso e o papel da imprensa, da rádio e da televisão portuguesas, grande parte da população não entenderia as razões pelas quais o nosso ex-Primeiro Ministro foi preso, não podendo, por isso, formar uma opinião acerca do caso e tomar uma posição.

A meu ver é exatamente este o papel fundamental dos media, principalmente em casos deste género, por serem os óculos que nos permitem ver a realidade de mais perto, com uma aproximação que não teríamos se tentássemos ver as coisas com os nossos olhos de cidadãos comuns.

Assim e concluindo, o facto de José Sócrates ter tido um cargo de extrema importância no nosso governo é fulcral para que este caso seja tão mediatizado e a sua mediatização é de uma importância extrema para os portugueses.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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